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Dormir é alívio
3Desacreditar, duvidar, de novo e de novo
Acordar como cotidiano, dormir como alívio
E se manter na rotina, morta, sem razão evidente
Deixar as horas sem luzes de vida
Dormir como um alívio e perder-se no sono
Encontrar-se num sonho
Acordar como morte
- Dormir é alívio
consterna
2Mal se acabaram e eu já sinto saudade
Das noites geladas de inverno,
Em que era eu ansiando pela solidão
E abrindo um livro de negrume vivo;
Mas ainda que a noite esquente,
Eu continuo com frio, dou frio, sou frio.
O inverno aqui dentro não cessa.
A dor de dentro aparece aí fora,
E eis um mundo que ela descobre,
E eis um mundo que eu abandono.
Fecho a alma como um corte cicatriza.
Fecho os olhos como ostra a guardar pérolas,
E as minhas são pó de angústia.
Pó de Angústia. Tomaram-na as maiúsculas.
Ai que não faço sentido.
E agora?
Mais fuga.
Minguante
0I
Carrega a alma na poesia,
Satura versos de pestilência,
Revela toda a ausência
Da felicidade que trazia.
Em negro pesadume,
Engenha estrofes de enxofre;
Como irado limítrofe,
Queima por dentro, grande lume.
II
E, sob sombra anêmica,
Escondia-se meu não desejo
De viver um malfazejo
De fuga hiperglicêmica.
Diziam-me as feras: desiste!
Mas lutava em escuridão;
Cego, minha boa intenção
É que me fazia em riste.
Zaratustra, de novo
0Falemos de Nietzsche, ou melhor, do Zaratustra, o übermensch. Se alguém não leu o Assim Falou Zaratustra, de Nietzsche, leia, pois está perdendo tempo, o clássico é irrefutavelmente importante para a evolução pessoal de cada um. Se não gostar, saiba que, com certeza, teve lições mesmo inconscientemente.
Pois bem, Zaratustra era um jovem profeta (mas o livro termina com ele já velho), uma pessoa que passou tempos isolado nas montanhas, com seus animais, a serpente e a águia – use sua própria mente para interpretar esses símbolos, ou, se quiser crer que eram apenas animais mesmo, que seja assim.
Zaratustra volta, um dia, ao povoado. Fala do sobre-homem (Übermensch), de que o homem de hoje é uma ponte entre os macacos e o idealizado sobre-homem, este que era a superação da espécie, mas, sobretudo, destaca-se a capacidade dele de superar a si mesmo, um guerreiro (“Seja o vosso trabalho uma luta! Seja a vossa paz uma vitória!”).
As aventuras do protagonista passam por diversas fases, formas, aspectos e introspecções. Ele se torna famoso e, por isso, um quer se tornar sua sombra, e muitos o procuram buscando sabedoria. Ah, como era incrível aquele sábio.
Mas o mais importante de todo o livro é o conceito do Sobre-homem, alguém que deve sempre superar a si mesmo. Não crendo em além-mundos (vida após a morte), o ceticismo de Nietzsche trazia toda a luta para o agora, para o instante atual, sem fugas, sem escapes, era enfrentar, ganhar ou perder, não tinha outra opção, e esse que enfrenta é o Sobre-homem – “Aquele que pensa passa pelo meio dos homens como por entre animais”.
A beleza do livro é incrível, uma estética bíblica e poética, um misto de força viril e intensidade emocional. Surpreendente até o fim, chegando até a ser, em certos momentos, perturbador.
Enfim, leia. E, depois, medite sobre e busque o Übermensch dentro de você, guiado pela luz do profeta Zaratustra, aquele que dizia que se havia, de fato, um deus, como poderia ele aceitar não o ser também.