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Como mudamos com o tempo

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Não sou um cara muito chegado a fotos, quero dizer, odeio tirar fotos, sou tímido pra isso, e não é de hoje, acho que desde pequeno fui assim, por tal motivo, é muito difícil encontrar fotografias minhas de quando era criança ou adolescente.

Contudo, às poucas fotos que tenho gosto de dar certa atenção especial, não por narcisismo (obviamente não), mas por uma ânsia de me descobrir, de encontrar algum segredo bem escondido naquele rosto que já não é mais o mesmo, naqueles olhos que já não têm o mesmo brilho, no corpo bem diferente.

É interessante perceber as pequenas, as ínfimas, sensações que essas observações podem nos trazer, bem como alguns eventuais insights importantes no caminho tão abstrato do auto-conhecimento.

Eu olho sempre nos meus próprios olhos nas fotografias, lembro de Demian, personagem do livro homônimo do escritor alemão Hermann Hesse. Tive um olhar sagaz, penetrante, e, ao mesmo tempo, cheio de vida, quase zombando da própria vida. Hoje está mais para um olhar de quem assiste Big Brother e acha que assistir Luciana Gimenez e criticar o que está passando é bom para a alma (tá, exagerei).

Fico perplexo ao perceber o quanto vamos perdendo território dentro da própria psique para uma espécie de piloto automático, para convenções sociais, pra costumes e tradições nem sempre muito saudáveis para a mente.

Olho para fotos antigas e me pergunto “quem é esse cara? Pra onde ele foi?”. Fica tão distante que não sei perceber o fio que me liga até esse passado, a linha que une essas pérolas nesse colarzinho que é o Self.

Inevitável lembrar da música dos Titãs, Não vou me Adaptar, que traduz de forma bem simples essa perda de continuidade da mente, essa cisão do que “sou” e do que “fui”.

A vida é dinâmica, e acompanhar o que sucede dentro e fora da gente nem sempre é fácil.

Soltar laços, desapegar, deixar que as coisas vão e talvez não voltem pode ser doloroso, no entanto, não se pode impedir que isso aconteça.

Como que eram os seus olhos nas fotos de criança? Famintos de vida? E agora?

Extinção, de Thomas Bernhard – Da fotografia

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Solilóquio do personagem principal do livro sobre sua opinião acerca da fotografia.

“No fundo eu odeio fotografias e a mim mesmo nunca passou pela cabeça tirar fotografias, com exceção dessas de Londres, de Sankt Wolfgang, de Cannes, minha vida inteira não possuí máquina fotográfica. Desprezo as pessoas que fotografam constantemente e que andam o tempo todo com sua máquina fotográfica pendurada ao pescoço. Constantemente elas estão em busca de um tema e fotografam absolutamente tudo, até as coisas mais absurdas. Constantemente elas não têm nada na cabeça a não ser retratar a si mesmas, e sempre de maneira mais repulsiva, coisa de que no entanto elas próprias não têm consciência. Em suas fotos elas captam um mundo perversamente deformado, que não tem nada em comum com o mundo real senão a perversa deformação de que elas são responsáveis. O fotografar é uma mania sórdida que pouco a pouco se apodera de toda a humanidade, porque ela não está somente apaixonada pela deformação e pela perversidade, mas louca por elas, e com o tempo, de tanto fotografar, ela toma efetivamente o mundo deformado e perverso como o único verdadeiro. Aqueles que fotografam cometem um dos crimes mais sórdidos que podem ser cometidos ao transformar a natureza, em suas fotografias, num grotesco perverso. Em suas fotografias, as pessoas são marionetes ridículas, irreconhecíveis de tão distorcidas, mutiladas mesmo, que com ar obtuso, repulsivo, fitam assustadas suas lentes sórdidas. O fotografar é uma paixão abjeta que se apoderou de todos os continentes e todas as camadas sociais, uma doenã de que foi acometida toda a humanidade e da qual não pode mais ser curada. O inventor da arte fotográfica é o inventor da mais desumana de todas as artes. A ele devemos a definitiva deformação da natureza e do ser humano que nela vive, reduzidos à careta perversa de um e de outro. Ainda não vi em nenhuma fotografia uma pessoa natural, quer dizer, verdadeira e real, como ainda não vi em nenhuma fotografia uma natureza verdadeira e real. A fotografia é a maior desgraça do século XX.” Extinção, de Thomas Bernhard.

C.R.A.Z.Y. – Loucos de Amor

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Ontem à noite vi um filme. Deus, isso por si só já é um grande evento, porque nos últimos tempos não havia macumba que me fizesse ou ficar acordado ou vencer a ansiedade pra não trocar de canal no meio do filme, ou ainda fazer outra coisa ao mesmo tempo. Então, falemos do grande evento que me foi assistir esse filme (ai ai, suspiro saudosista da minha época de cinéfolo – folo?).
Pois bem, o nome do filme é C.R.A.Z.Y. – Loucos de Amor. Há tempos eu via as chamadas nos intervalos do Telecine e ansiava por vê-lo, ontem dei sorte de ligar a televisão bem na hora que começava.
A história é de uma família comum, isso implica em problemas, vidas conturbadas, drogas, brigas, homossexualidade, bebedeiras e muita música boa. Zac, um dos filhos de um casal europeu bastante típico, é o protagonista, e possui 4 irmãos: o mais velho (creio eu), extremamente rock and roll, drogas, sexo (hetero), tatuagens e cigarro o tempo todo; um outro irmão, que não recordo o nome, estilo semi-nerd, inteligente, um promissor na arte almofadinha; o terceiro, um esportista, jogador de algum esporte, com tudo que tem direito o estereótipo; Zac, o sexualmente indefinido, oscilando entre homossexualidades e garotas (mas hetero do que homo), não tantas drogas quanto o irmão mais velho, um estilo meio poser, um fã de David Bowie, que mais tarde ganha a vida como discotecário; e, finalmente, o mais novo, gordinho, cabeludo, sem importância nisso tudo.
São vários os momentos interessantes do filme. A fotografia é ótima, mas melhor ainda é a trilha sonora, impecável. Quanta intensidade naqueles relacionamentos, e a fundamentação psicológica dos personagens, com suas impressões, idiossincrasias e nuances.
Fiquei extremamente tentado a dar detalhes, descrever minhas opiniões, mas não o farei. Veja o filme, só digo isso. O final nos reserva momentos de incrível emoção, coisas q Hollywood não faz por você, mas o cinema europeu faz. Uma lição de tolerância, de valores de uma família de verdade.
Valores? Sim, valores. Ser casto, asseado, branquinho e polido o tempo todo não é a essência. A humildade, o saber voltar atrás, o saber perdoar ofensas, saber que o sentimento de paternidade, maternidade, irmandade, qualquer relação desse tipo, está muito acima de efêmeras inconveniências.
Filmes inspiradores assim me deixam tão desinspirado.
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