Posts tagged fome

Poesia suja

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Essa poesia branca e limpinha já não é a alma;

Essa poesia, cosida em um tapete de algodão branco,

Que se escorre, viscosa, por dedos magros

Não tem mais cheiro de espírito, somente de fantasia.

Essas nuvens alvas, redondas, que cobrem meio sol;

Essas aves que voam um vôo perfeito… são só imagens,

São escarros da nossa consciência,

São escape da nossa inocente inabilidade de ver.

Essa poesia que se enche de louros e outros ouros,

Essa poesia que, garbosa, vem bater na face da realidade

Não tem força, é muito menos real que um vômito de enjôo de uma viagem no mar.

Não existe métrica na fome, não existe rima na guerra.

Não existe leveza no mundo, senão nessa poesia branca e limpinha

Nessas palavras de poetas mentirosos.

Alimentos: uma questão política

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Assisti um pedaço de uma entrevista hoje sobre a (in)suficiência de alimentos no mundo, sobre o futuro da produção e distribuição de comida no planeta. Pois bem… elucubremos.

Há poucos dias ouvi falarem que, daqui alguns anos, será insustentável alimentar todos os seres humanos no planeta. Ora, dizem isso como se todos comessem, como se não houvesse fome, como se não houvesse a miséria, como se não houvesse a maldade, o egoísmo, a ganância e tantas outras particularidades da nossa raça.

A entrevistada, que infelizmente não lhes poderei creditar, tampouco ela terá créditos, pois que não atentei aos seus títulos e graduações, disse uma coisa que pode não parecer tão clara, ou tão evidente, mas o que acontece, de fato, não é uma insuficiência de produção de alimentos, mas uma falha grotesca na distribuição e aproveitamento dos mesmos.

Ela disse que a única “questão” que devemos nos perguntar e analisar é a “questão política”, pois é esse o principal estigma da (des)(sub)nutrição atual no mundo.

O ponto essencial é que as pessoas não passam fome por falta de comida, passam fome por entraves políticos, por barreiras econômicas e milhões de dólares guardados em contas de agricultores e empresários que, de forma alguma, pensariam em perder um real por saca de soja para aliviar essa fome de outros tantos seres humanos, pessoas.

Eu sinto uma culpa insustentável quando vejo comida sendo jogada fora, comida que poderia alimentar uma pessoa que, com muito menos da metade que temos disponível diariamente ficaria muito mais do que o conceito de felicidade conhecido por nós poderia expressar.

Imaginar que uma pessoa, no auge da sua gula, passa o dia comendo, “aperitivando”, e rindo; e que outra, em algum lugar do mundo, sequer tem força para sorrir, que come uma banana e toma meia xícara de água suja por dia, e tem que sobreviver assim é, no mínimo, irônico.

Deus é dono de um sarcasmo lacônico.

Não culpo quem aproveita o que conquistou com trabalho, ou por herança. Culpo aqueles que, por pura ganância desmedida, impedem a si mesmos de levantar um dedo para ajudar com o mínimo que seja aqueles que têm fome.

Não sou nenhuma madre Teresa, aliás, nutro um certo asco por essa “esmola”. Mas tenho certeza que se não suporto ver alguém passando fome. Ajudo com muito menos força do que poderia, porém, mantendo-se as devidas proporções, um milionário monsantino, ajudando muito aquém do que poderia, alimentaria, pelo menos, umas vinte famílias miseráveis.

A questão ainda não é o quanto é produzido, talvez venha a ser dentro de alguns anos, mas o quanto estamos dispostos a ceder de nossa posição para ajudar outro. A questão não é quantitativa, é política.

Se isso é certo ou errado, eu não sei, talvez seja apenas natural, uma espécie de seleção natural. Mas fatos são fatos.

O lado escuro da vida

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A gente logo cansa daquele cheirinho de limpo

De jasmim e flores do campo, do artificial e do disfarce

Quero mais o cheiro pesado dessas consciências

Que ora fedem álcool e cigarro, ora fedem ressaca e fritura

Logo se torna cansativo o falar baixo e educado

Depois busca-se um linguajar de pensamentos desconexos e perdidos

Deixados em algum lugar entre a guerra e a ganância

Entre a fome e a fama

Entre o jasmim e o bar

E dessas ideias tão mais mal cheirosas percebe-se a profundidade

Como um hálito de jejum, profundo e denso

Ancorado pela boca de saliva espessa

A gente logo cansa desse mundo de luz tratada e voz tunada

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