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Personagens
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Acredito que, de certa forma, em maior ou menor grau, todos acabamos interpretando algum tipo de papel. Só sabemos ser nós mesmos, de verdade, sozinhos… e de olhos fechados, e isso, digo, a muito custo ainda.
Alguns de nós passam anos e anos interpretando esse papel, escolhe-se um, ou o papel nos escolhe ou nos é imposto, e assim seguimos, teimosos ou persistentes, como queira, fazendo o que essa pessoas faria. A maioria de nós se apodera desse personagem, o torna parte de si mesmo, e passamos, por conseguinte, a chamá-lo de “Eu”.
N.R.: existe uma frase na música Beyond The Pale da banda Pain of Salvation que diz “life seemed to him merely like a gallery of how to be”, traduzindo seria algo como “a vida parecia para ele apenas como uma galeria de ‘como ser’”. Existem pessoas assim, aquelas nunca adotaram um papel para si, apoderam-se de um ou outro personagem, o são por algum tempo, o largam como se ele nunca tivesse existido, sem emoções, sentimentos nem ressentimentos, apenas uma cerca cicatriz que poderia ser chamada de abismo entre o que é SER alguém e ESTAR alguém. É meio desesperador.
Pois bem, miseravelmente, existem aqueles que se deixam dominar completamente pelos papéis histéricos, aqueles que vêem a vida com olhos de lantejoula. Sim, esses são mais miseráveis do que aqueles que não conseguem (ou não precisam, ou não querem) cruzar o abismo entre ser e estar, eles são os cegos, são aqueles que não se perguntam, nunca se perguntaram e, muito provavelmente, jamais se perguntarão, com sinceridade, quem são.
Eles estão dormindo, mas tomam todos os energéticos da mesa com o whisky 12 anos para impressionar e fazer a vida parecer um palquinho, uma cirandinha, e depois suas balas e pílulas consomem uma noite com alguma menininha tão sonolenta quanto.
Tenho um misto de pena e raiva desses, os atores profissionais do dia-a-dia.
Existem aqueles que bebem e se sentem bem, alegres ou tristes, mas sentem-se como queriam sentir; existem, também, aqueles que bebem porque faz parte do personagem, precisam interpretar o papel e enganar o mundo. Os miseráveis.
Encaixar-se em um papel chama-se, apoderar-se dele, corriqueiramente, personalidade. Não ter um papel, não saber como usá-los apropriadamente, pode ser chamado de despersonalização, acredito eu. Ser apoderado por um papel, vivê-lo na mais intensa fantasia do mundo da Barbie e do Ken, pode ser denominado… bom, acho que você entendeu, podemos dar vários nomes, estamos cheios de exemplos.
Não se deixe enganar, as diferenças às vezes são sutis, é possível enganar-se a si mesmo, pensar-se dono do papel mas, pelo contrário, ser apropriado pelo personagem.
Enquanto isso, a balada faz brilhar os olhos de lantejoulas, dois papéis se procuram num roteiro de novela barata onde as pessoas pensam que sabem o que fazem…
Estrado
2
Ela sorri enquanto carrega a maior das dores
Num peito de fibra desfeita como papel molhado;
Cambaleia por dentro, mas segue pelo estrado
Andando firme, reta, entre medos desanimadores.
Segue enquanto espera um raio, uma garrafa,
Uma pedra, qualquer coisa mais impossível
Que lhe caia sobre a cabeça sensível
E lhe destrua o amanhã que lh`estafa.
Mas caminhar de cabeça erguida é uma arte,
Não se pode desatentar do sorriso falso
Enquanto os outros lhe olham o passo:
Pode lhe cair a dignidade e não outra parte.