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afonias
3As melodias não se encontravam
Pois que quando de um lado batia o tempo, do outro não se ouvia nada
E a fermata se perdia, suspensa num indefinido e insustentável momento que eu gostaria de chamar de não-momento
E por elas não se encontrarem é que havia harmonia
Mas a uma delas a harmonia era desgostosa, quando entrava em contra-tempo se sentia mais de si mesma
Queria, entretanto, ser seu próprio contra-tempo, um descompasso no compasso do que não se media
E eis que o canto se permitia sair do tom, para que o campo harmônico fosse ceifado e maculado tanto quanto o tempo descompassado
Se uma era colcheia, a outra uma semibreve
Se a outra era ré, uma era bemol
E como uma guerra resoluta em ser irresoluta
Suspendia-se o concerto com uma nota indisposta
I-IV
0I
Suponhamos, primeiramente, que o poeta seja dotado de alma
Poderia ele realmente sentir o que diz que sente, ou seria ele um grande fingidor?
Fingiria que finge, sentindo, de fato, o afago e a hora da partida?
Ah, se o poeta fosse dotado de alma, ele poderia fingir que finge, ou fingir que sente
Isso não importa, ao bem da verdade, devo dizer que não nos importa
Só se ele tivesse alma
II
E se um poeta não fosse capaz de ser seu eu lírico
E se seu eu lírico transpusesse o homem que o criou?
E se nada disso fosse possível, e nada houvesse
Quantos estímulos ele fabricaria para se perceber realidade?
E se ele tivesse alma para sentir, quereria o sol?
III
E se tocam o teu rosto, poeta, acaso tu não sentes
Por que assim não é com teu coração?
O que causa em indiferença a mais plena não-comoção
Essa frialdade que cultiva o árido e o deserto
Onde está, poeta, a semente que plantaram em tua alma?
Seca.
IV
E se os heterônimos não te salvam, poeta, larga deles e os deixa ir embora
do sol que apaga
0Por que quereria eu um dia de sol
Se em mim vejo nuvens carregadas,
E teus olhos brilham em outras enseadas ,
E daquele horizonte não sou arrebol.
Só poderia sorrir em dias desanuviados
Se em ti me visse novamente como um,
Não ser apenas lembrança comum,
Viver em ti, volver aos vergéis velados.
Cantar em ti minhas poesias,
Cheirar a pele tua em cada hora dos dias
- Tu nua em minha cama cheia de melodias – .
Porém, os dias de sol são sem alegrias,
E se rebentar em ondas dum temporal
Abrandar meu coração, anseio por tal final.
interlude
0Era hora fora de chão, rala, parca, era hora e havia em mim a combustão completa dos sentidos, eu era abstração, abstrato, absorto, pois que da queima restou ausência de mim manifesta em carbono e água, a liquidez de emoções estancadas, sensações estagnadas, num barco onde eu remava com pensamentos circulares.
Tinha cheiro de infância, aquele oceano, porém, era imóvel, suas ondas não me lançavam à frente nem me atrasavam. Eu via, sob as águas alvas, a ânsia imediata da criança cheia de vontade, e quanto mais essa criança crescia, mais vinha o adulto cheio de si, vazio de mundo.
Fiquei horas mergulhado nessa introversão caótica, e essas horas de minutos se tranformaram em dias de anos que não soube medir. Voltei de lá com as notas de timbre claro da infância, mas, como se fossem areia em minhas mãos, escorreram. As outras notas, as de hoje, porém, ficaram, seu timbre opaco formou uma harmonia densa, espessa e pegajosa, como se pesasse e grudasse em minhas mãos.
À grande hora do absurdo seguia-se um interlúdio para retornas às gentes. São, a mim, dois universos demasiadamente distintos, um habitado por anjos e arcanjos coloridos e cheios de poder, outro por tédios, banalidades e vilanias. Eu sou, ainda assim, bruto, um rude desencontrado, assistindo a minha comunicação falhar, faltar, para que me seja impossível compartilhar.
Quando é noite e a lua me visita, vou ao outro lado, e lá bebo e comemoro em gozo, pois desses prazeres aprendi a mestrar, e reger seus ritmos me agrada, porquanto o tédio não se me venha visitar novamente.
Sinto saudade da coxilha dos ventos, onde os trigais se balançavam em ondas harmônicas, simétricas, suaves, como se fossem regidos por Mozart, como se tivessem mãos para acariciar e acalentar minha alma. Hoje, afasto essa saudade com os afagos dum corpo igualmente suave, sutil, cheirando à óleo de castanha ou buriti, e ela a mim agrada o corpo, arrefece minha pele, e enterra os pensamentos circulares.
Quando, em mim, ela termina sua sede, eu ainda estou hirto, e minha sede nunca cessa, nunca cessará, é, pois, uma ânsia de infinito. Nela, entretanto, só vejo o gozo atendido, como uma criança, o corpo desfalecido em cansaço e suor, e ali está bem claro o limite, contrário ao meu infinito, e teimo comigo para circunscrever aquele pequeno planeta, e assim vou, tal um corpo celeste negro, um halo ao avesso, murcho flores, empalideço cores para alimentar de vida o monólogo daquela combustão, aumentar a chama com o carvão dos corpos que gemem e gozam em mim.
Era uma tarde de verão, e os vendedores de picolé cruzavam as ruas. Ela tomou em suas mãos um picolé mini-saia, até hoje o cheiro e o gosto me seguem, chupou o doce com vontade e gula insaciável. Acho que tomei para mim a parte do insaciável e deixei ela chupando o picolé como se quisesse de volta o que eu havia lhe tirado.
Esse escárnio que hoje vês em meu sorriso é a ironia que lanço ao espelho, pois são tão carente de mundaneidade quanto uma sombra de seu dono.
Ao conversar, olho nos olhos das pessoas, elas desviam o olhar constantemente, como se eu pudesse lhes roubar algo, bem que eu gostaria, mas o que desejo já lhes falta, e não foi tomado à força, mas esquecido numa fila, esperando. E seus globos são vagos, suas órbitas tangentes à verdade.
Quanto mais caminho pelos ermos do meu mundinho, quanto mais das minhas miudezas me torno consciente, tanto mais doloroso, demorado e inútil se torna meu interlúdio.
Que tal terminar a sonata e ir para o próximo ato?
solilóquio
1E a solidão é estar entre o homem e o sobre-homem
E é tentar viver sem olhar muito para o abismo
E se alguém pudesse encontrar seus pensamentos
Seria como se o mundo fosse retirado das suas costas, Atlas
A solidão é não compartilhar-se, não por inapetência, não por inabilidade
Não podemos fazê-lo, ninguém pode desvendar os véus da vida alheia
Ninguém pode encostar nas entranhas recônditas da alma que não é sua
E a solidão é não poder contar com a compreensão
Não há companhia, não há aliança, não há matrimônio
Há, pois, o escuro, o silêncio, o vento e a chuva
Também o raio que atravessa um temporal não tem companhia
E todos o vêem, todos o ouvem, mas ninguém o compreende
E o limite é descrever seu magnetismo e sua energia
Quem poderia, no entanto, descrever sua própria consciência em miúdos sem pecar em um só momento?
A solidão é sermos falhos, vazios, cegos
E em nós se esconde uma ânsia de final, pois não há maior pesar do que descobrir-se sozinho
Se eu falar das minhas razões, um não compreenderia
Se eu explicasse o fato, outro não entenderia
E se eu disser o que vejo à frente, ninguém mais ouvirá
Ninguém pode tocar e me contar que é quente ou frio, claro ou escuro, bom ou ruim
Ninguém pode fazer nada a respeito do que não é de si
E essa impossibilidade nos torna sozinhos, limitados pela comunicação