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do lado de lá
2Enquanto, na noite úmida, caminhava
Senti o cheiro duma vida esquecida:
O ar do céu escuro, a lenha queimada,
E o pulsar intenso da superior cava.
Perdi o tempo, o vale e as cores,
Sinto-me em plena recorrência,
O cheiro revivendo a latência
De um passado nos açores.
Da transcendência a mim voltei
E outro momento lembrei mais claro,
Tão mais perto e tão mais caro,
Do conforto, do fogo, de tudo que sei.
traga um fio de lã
2Brinco com as palavras
Como brincasse de caça-bilhetes;
Escondo nos poemas as sementes
Da trilha da Árvore da Vida.
E cada miudeza leva à outra esfera
Por um caminho já não tão claro,
Enquanto se torna mais e mais raro
Perceber de antemão o que nos espera.
Pois é das migalhas que construo a obra
Por onde, cuidadosamente, te guiando
Sigo. Para que, de quando em quando,
Vejas por uma fresta um pouco da sobra.
fragmento I
0As palavras se esmorecem num poema natimorto
Quando tu nem vens ver se há, ainda, em mim, cores
Que possam trazer vida diferente da minha ausência
De mim mesmo, como barco perdido do seu porto.
O poema nasce sem objetivo, senão o próprio defeito
Idiossincrático, jogado ao acaso para minha consciência;
E salvei-me da morte na minha racionalizada insolência
Ao fazer do objetivo a dor, e o meio a poesia meio sem jeito.
Do que cresce em mim, não vejo jardins nem os pagos
Que queria ter cultivado em cada manhã gelada,
Vejo o cativado despedaçado, a enseada maculada
E o esquecimento enegrecido dos teus afagos.
Massagista de modelos
2É, realmente um abuso isso, estou pasmo com a falta de consideração para com o profissional diante da insalubridade do seu ofício.
M.O.
4E tentar negar um instinto
Deixar para trás o que a alma anseia
Já não me serve como servia a farsa
E se meu espírito for forte para esta empreitada
Para essa obra grandiosa
Haja em mim as luzes da vida em amor
Ao que é de mim e me faz a vontade verdadeira
Se uma rejeição de mim antes me forçou
A ficar num cárcere dourado
Hoje, assumir o trono sobre as ruínas me apraz
E se meus pés tocam a lama, minha cabeça encosta no nada
E meu coração reside no sol
Então, nisso tudo eu vejo um momento, seguido por outro momento
E nada mais do que sucessões temporais, privadas de sentidos alheios,
Eu vejo o rebanho e é só um rebanho
Eu vejo o mundo que chamam deus, mas eu chamo mundo
Nisso, minha alma aprendeu dos prótons e elétrons qual o spin da minha vida
Ressonando num só sentido, sentindo saborosos os frutos da entropia, a qual respiro com alegria
Ai de mim que estou no ocaso
Ai de mim que sou aurora
Ai dos barrocos e dos existencialistas, ai dos românticos e dos classicistas
Ai do que anseia por ser eterno
Ais e ais e ais sem um sentido
Se não fosse da mudança a vida feita, onde estaria nossa felicidade?