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cena em cinza

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Pois bem, deixe que eu seja, por momentos, mais pessoal, mais humano do que eu gostaria de ser, mais inapto ao convívio do que deveria ser.
Acabo de voltar de um bar, se tomei um copo de cerveja foi muito, fumei alguns cigarros para curar a ansiedade de estar num lugar que não me sinto confortável, com muitas pessoas ao redor, com música mais alta do que eu gostaria, músicas ruins, aliás. Acendo cada cigarro para ficar em paz, por alguns breves minutos, meu único companheiro quando não posso estar com minhas letras ou meu violão.
Ri, com certeza ri muito, mas esses momentos parecem ser sobrepujados de maneira intratável por qualquer outro sentimento de retração, ira ou dor que possa vir. Acendo outro cigarro para tentar expelir junto com a fumaça essa dor, e então continuar rindo, sorrindo, ouvindo o que me falam, mesmo que tu me pareça bobagem, e tudo me parece bobagem desnecessária. Sinto-me deslocado.
Estou investigando algumas coisas sobre mim, digo, estou apenas procurando confirmação científica do que há (ou não há) em mim. Sou incapaz de sentir o que deveria, e se alguém quiser definições melhores sobre isso (não falarei nada por enquanto) procure no google por despersonalização.
Como posso, então, sair e não me sentir um estranho? Ao menos se eu bebesse, como vinha fazendo há anos, seria mais social e instintivo, então tudo estaria bem. Hoje não bebi, ontem não bebi, em nenhuma das últimas noites eu bebi. Assisti às pessoas e não soube me incluir muito bem no contexto. Estou ficando mais e mais deslocado.
Agora, ouço algo gritando em mim, um urro desesperado, irado, estridente e rasgado, quase um ruído terrível, e estou rachando. Não sei o que esperar, tentei abafar muitas vezes esse verme, mas acho que preciso abraçá-lo e colocá-lo de frente com meu resto. Sinto-me dividido.
Preciso por as ideias no lugar. Não sei o que disse, não irei reler o que disse. E se é de humanidade que há sede, pois aqui está um pote cheio de fraquezas e defeitos, e não vejo nada mais humano, e assim será, sem revisões, sem editar, o meu humano cru. Sinto-me nu.

combate à fome

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Achei tão bonitinho hoje quando li que o G8 se comprometeu em doar, em 3 anos, 20 bilhões de dólares para ajudar no combate a fome mundial. Já é um passo. Ainda que não estejam ensinando ninguém a utilizar a natureza do seu país para cultivar algo, financiando maquinários e afins, dar o peixe, mesmo sem ensinar a pescar, já é um primeiro passo grandioso nessa sociedade egoísta que vivemos.
Entretanto, eu não posso fazer nada além de esboçar um rápido sorriso amarelo, depois volto a minha carranca e mau-humor para questionar: e com a guerra, quanto se gasta?
Fui pesquisar quanto esses países gastam com produtos bélicos. Encontrei diversos números: os dos EUA, da China, da França, da Alemanha, etc. Contudo, o que mais me deixou, digamos assim, embasbacado, foi o fato de que, apenas em 2008, o Brasil, país subdesenvolvido, emergente (?), que não está, teoricamente, em guerra e tem, comparado a diversos outros países, um gasto bélico muito pequeno, gastou cerca de 23,3 bilhões de dólares.
Vamos à matemática agora, mas bem simples: G8 são oito países, ricos, que se comprometem a gastar U$20 bilhões com uma causa nobre. Dividindo os 20 por 3, temos uma dízima de 6,66666; pois bem, são 6,66 bilhões de dólares gastos anualmente pelo G8, mas o grupo é formado por oito países, então dividamos por 8 o resultado anterior, temos então 0,8333 bilhões de dólares gastos, anualmente, por cada país. Concluo, portanto, que apenas o Brasil gastou cerca de 27 vezes mais em produtos militares do que será gasto para o combate à fome (e ainda temos audácia de dizer que combatemos a fome com o Fome Zero).
É impressão minha ou tem alguma coisa de muito errado aí? Ah, o grande irmão não tem interesse em terminar a guerra.
Infelizmente, não consigo ter esperanças de uma sociedade, no mínimo, decente para se viver enquanto números assim, postos de uma forma tão simples, se apresentam diante de nós. Nem sequer entrei nas questões dos assaltos, homicídios, tráfico e toda sorte de coisas divertidas assim que vemos diariamente por todos os meios de comunicação.
Se o Brasil, que é um país sem nenhuma tradição com grandes armamentos, tecnologia bélica e tudo mais, gasta nessa magnitude com a “guerra”, nem serei obrigado a entrar na questão dos países como EUA e China. No entanto, só para termos uma idéia, a China, que foi o segundo país que mais gastou com a indústria bélica em 2008 (primeiro foram os EUA, com 41,5%) o fez na proporção de cerca de 100 vezes mais do que o que será gasto para combater a fome.
Penso que não é impressão minha. Há, de fato, algo de muito errado aí.
Ah, agora vem a nova tendência: Guerra Cibernética. Boa sorte pras Coréias e pra todos os usuários da internet. Vossa Fordeza já vê onde isso tudo pode parar.

guarda-os

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Como se não pudessem ser encostados
Eles se retraem em perturbadora indiferença,
E quantos anos se vão nessa andança
De gares vazias e de corpos desolados.

Eles tímidos, contidos, reprimidos,
Esperando o halo cósmico da vida,
Vão envelhecendo, perdendo a lida
Para os dias exíguos, expiados, exauridos.

Ah, sentimentos que de tão racionalizados
Eu não mais os sinto, e eis que hoje os penso,
E não mais os choro, mas os lamento, indefenso,
Nos meus minimundos miúdos desazados.

(mais…)

uma anedota pro rei do pop

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E se acontecesse mais ou menos assim: terça-feira, às 10h da manhã em Los Angeles, 14h aqui no Brasil pelo horário de Brasília, o ginásio dos Lakers, Staples Center, completamente lotado de pessoas histéricas, ou muito mais do que histéricas. Do lado de fora mais outras tantas milhares de pessoas se empurrando numa confusão sem tamanho para assistir pelo telão posto do lado de fora.
São dez horas da manhã da terça-feira, 07 de julho, lá em Los Angeles, o telão, por enquanto, está com a imagem fixa do centro do ginásio, onde muitos seguranças estão se esforçando para manter um círculo com velas e tapete vermelho para onde há apenas um acesso vindo dos vestiários. De repente os gritos que haviam se acalmado recomeçam, ensurdecedores.
Seis homens vestidos de preto, seguidos por alguns poucos familiares e amigos, entram pelo corredor com tapete vermelho carregando, lentamente, o féretro do cantor. Enquanto se encaminham para o centro do ginásio os gritos se tornam tão fortes que até pensar se torna difícil. A agitação é enorme, os seguranças se esforçam muito para que não seja quebrada a segurança.
O caixão é depositado sobre quatro hastes que já estavam lá, revestidas em dourado. Tudo parece um incrível cenário de filme, com brilhos, luzes e toda a grandeza de Hollywood. Alguns minutos se passam após o ataúde ser deixado no centro e então, finalmente, o público parece começar a se acalmar.
Outros tantos minutos até que haja silêncio total. Janet está com o microfone em mãos, parada, imóvel, esperando pelo silêncio. Vira-se de frente para o caixão, inclina-se e um grito ecoa pelo ginásio, pelo lado de fora através dos alto-falantes, pelas casas que estão assistindo à transmissão ao vivo do funeral. O silêncio continua.
Como se viesse de longe, uma bateria começa a tocar com um ritmo implacável. Quase a atenção é desviada do caixão, onde Janet continua debruçada, impedindo a visão sobre o rosto de Michael. Então, outro grito alto e instrumentos se juntam à bateria. É claro, começa a música They Don`t Care About Us.
Janet sai de cima do caixão e o cantor, como num filme de terror, começa a se levantar. As pessoas que estão assistindo àquilo ficam sem reação, umas choram, outras ficam em transe, outras gritam, enfim, uma maré de sentimentos invade o ginásio Staples Center, e todos que assistem ao espetáculo. Lá está o astro, em pé, vivo, inexorável, brilhando em seu terno preto e prata e cantando.
Tudo se resolve, como num sonho bom, como na Terra do Nunca, e ele está em pé, cantando com sua irmã, no maior espetáculo que já se teve notícia. Todos parecem incrédulos do que está acontecendo, mas é inegável, lá está Michael Jackson.
Não seria de se admirar se algo assim acontecesse, tendo em vista a mania de grandeza do cantor e sua obsessão por clipes e filmes lúgubres. Não consigo imaginar melhor maneira de promover sua própria turnê.

therapeople

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Neste inverno, as tendências são: piadinhas de ironia popular, tão infrutíferas e sem sentido quanto a acomodação interpessoal de escolhas musicais, vestuárias, intelectuais e (oh! Que surpresa) desanimo anímico.
Vejo uma onda crescente do “cool”, descolado, desleixado, tudo isso tendendo a uma preocupação excessiva e excessivamente destoante da preleção inicial do estilo adotado. Pois bem, sinto-me cansado e com asco desse maneirismo.
Cresce, também, o gostinho pelo rockzinho iêiêiê, o orgulho de dizer “oi, sou retrô e escuto rock com quatro acordes”. Os Beatles estão voltando na pele de cordeirinhos copiões chamados The Kooks, The Kinks ou The qualquercoisaassim; Dylan na mão de outros pretensiosos Vanguart, Mallu Magalhães e outros jovens músicos ainda muito crus. Pois posso até comparar essa tendência às músicas fracas e simples com o Anticristo de Nietzsche, é como idolatrar o fraco, o não virtuoso, somente para aliviar a culpa de sermos tão pequenos e nos conformarmos com essa posição de músicos desajeitados. Ainda que eu tenha uma simpatia pelo Camelo pelo Los Hermanos, seu álbum solo me soou bastante necromante, ressucitando o que havia de mais simples na MPB há anos atrás.
Essas tendências nunca vêm sozinhas. O gênero das novas piadinhas despretensiosas, acusando o indivíduo de um auto-elogio ao se pensar tão inteligente e sarcástico de poder ter inventado tal jocosidade. As anedotas estão ficando cada vez mais rasas e inúteis, nada surpreendente para o nonsense tão em voga. Existem os que pensam que esse nonsense é pura arte moderna, a expressão do self, como um “limpar a chaminé” primitivo.
Contudo, o asco maior vai aos resultados dessa embromação psico-moderna: a falta de ânimo no espírito. Perdidos nas redes de como parecer ser não sendo nem o pretendido – é assim mesmo, um vai e não vai concomitante, talvez até o duplipensar do G. Orwell aqui cairia bem – o pessoalzinho vai perdendo a fibra, a força e a coragem. Eis o ócio no seu sentido mais vão, a preguiça mais inexorável e a desatenção mais perigosa.
Por conseguinte, só posso ver um resultado disso tudo: marasmo. Ficar estagnado, assistindo aos diversos papéis sem escolher um, fingindo ser protagonista quando nem figurante se é. A platéia bate palmas enquanto escapam de sua vida interna, secando cada vez mais.

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