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Na hora morta

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Quando pensei abandonar a mim mesmo

No delírio da hora morta

O engano era tão somente erro de percepção

Eu me agarrava a mim como uma criança

E quando pensava estar me desprendendo

Mais me unia ao desgostoso gosto do apego

E gostava do conforto daquele marasmo impróprio

Na hora morta, escura como um halo sideral

Eis que fiz de mim minha pátria e meu pecado

Disfarcei nisso minha salvação

E ceguei à única verdade que residia em mim

Minh`alma

Antes da Parte Primeira

3

     Acordei sem despertador, algum barulho nos vizinhos me despertou. Já eram onze horas da manhã, o dia estava nublado, morno, com eletricidade no ar, obviamente teria temporal mais tarde. Sentei na cama com as mãos apoiando o corpo nos lados. Olhava para o chão, ou para meus pés, ou para o nada. Sentia-me suspenso, não necessariamente vazio, mas minha nota não soava, era latente.

     Depois de checar meus e-mails, tomei um banho e me arrumei. Nem orkut, nem twitter, nem nada me atraía hoje. Resolvi almoçar fora, sentia fome, mas tinha preguiça de comer, também não queria lugares movimentados, sinto uma ressaca social, uma fobia crescente que me afasta mais e mais.

     Almocei um sanduíche de atum no Sanduba, no centro da cidade. Depois, dei uma volta no centro aproveitando o ar morno que soprava. Comprei um café e continuei caminhando, agora acompanhado de um cigarro. Eu ainda era a mesma casca que acordou, eu ainda estava latente.

     Não residia em mim qualquer pretensão de prazer, de diversão, de tristeza, de nada, mas se residisse eu, então, não estaria atento às sensações. Meu mp3 tocava as músicas de sempre: Pain of Salvation, Dream Theater, Opeth. Repentinamente, como num estopim, como numa conjunção planetária, como se um coro gritasse aos meus ouvidos uma canção incompreensível aos meus sentidos, dei a volta, resoluto: voltaria para casa, faria minhas malas e iria viajar.

     Eu ainda tinha quase três semanas de férias, tinha o dinheiro do estágio. Por que não? Iria para onde? Fazer o quê? Não sei, simplesmente senti o ímpeto de viajar, mas não aquele desejo de aventura e diversão, não, eu sentia um ímpeto, uma resolução da alma, um decreto do espírito.

     Terminei minhas malas às 16h, coloquei mensagens dizendo que estaria fora em todos meus comunicadores virtuais. Meu notebook e máquina digital vieram juntos, meu violão resolvi deixar, não sabia o que faria, mas havia decidido ir a Porto Alegre. O Lúcio certamente me receberia por uns dias. Precisava tirar folga de mim mesmo, e para eu poder fazer isso eu sabia que teria que sair do meu meio, me jogar em qualquer lugar de desconforto.

     Às 18h estava no ônibus, com meu mp3. Um homem de uns cinquenta anos sentou ao meu lado e perguntou sobre meu livro (Aurora Dourada, de Israel Regardie), ele me contou que era espírita, rosacruz, cabalística e uma série de outras coisas. Eu apenas ouvia, achava deprimente um senhor, depois de anos estudando a alma humana, continuar a saber apenas falar de si, de nomes complicados, decorados, de tão batidos em seu cérebro haviam perdido qualquer sentido para ele, mas ele falava como um robô. Depois de quase uma hora, em uma pequena pausa, como eu não respondia, ele olhou para o corredor e eu me virei para a janela, cortando o diálogo.

     O temporal começou, estava escuro, e eu olhava para fora do ônibus e para dentro de mim, e tudo que eu queria era pular do abismo, sentia impulsos de gritar, levantar e berrar às pessoas do ônibus para que acordassem para a vida, pensassem, questionassem. Mas se nem mesmo eu sabia o que esperar de mim, por que culpar os outros da minha própria insatisfação? Sentia-me um adolescente.

     À medidade que a viagem passava, fui acalmando meu espírito. Tinha lembranças de vários pedaços da minha vida, a lua nova me lembrava quando tinha 15 anos, quando, no verão, deitava-me no terraço de casa e ficava observando o céu, as estrelas, implorando para algum deus, espírito, alma, o que fosse, me resgatasse, me tirasse dali e me mostrasse qualquer verdade, pois que eu não me conformava com aquela situação humana. Hoje stou resignado, ou quase.

     Sei que dormi divagando no passado, não lembro qual música tocava, não lembro aonde estava o ônibus. Acordei em Porto Alegre, à uma hora da manhã. O senhor que estava ao meu lado já havia descido em alguma outra cidade. Que hora imprópria para chegar, o Lúcio deve estar em alguma festa, tenho que ligar para ele.

[to Válvula de Escape]

da tônica

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À caminho de casa eu me perdi, então sentei sob toldo nenhum, sobre pedra alguma, e comecei a pensar: quem mesmo?

Lembro que nasci em Cruz Alta – RS, depois eu esqueci, agora estou em Santa Maria – RS. Mas quem mesmo?

Fui bastante, hoje sou muito, mas muito pouco. Ainda assim, pra preencher o bastante que fui, me encho de nadas.

Um dia estudei leis, mas me enjoei (ou enojei?). Hoje curso Engenharia Química, mas como nada satisfaz também canto e toco guitarra e violão, mas como nada satisfaz eu leio.

Das leituras: Hermann Hesse, Milan Kundera, Fernando Pessoa, Augusto dos Anjos, Amós Oz, Friederich Nietzsche, Aleyster Crowley, Israel Regardie, etc.

Das músicas: Dream Theater, Pain of Salvation, Opeth, Pink Floyd, Led Zeppelin, Angra, Nightwish, Metallica, Yngwie Malmsteen, e outras coisas, até mesmo pop rock nacional.

Agora que o tempo secou, vou tentar achar o caminho de novo.

Mas… quem mesmo?

re-pousa em ti

1

Sim, eu te vi, e tu estavas linda
E era de ti que eu esperava minha felicidade
E é em ti que eu pouso minhas ilusões
Pois me é tão doce tua imagem, e tão alva tua presença
Ai de mim se sentisse de novo tua respiração
Se esse sopro pousasse em minha pele, eu seria reticências
Sim, eu te vi, e poderia ficar te olhando se suportasse pousar meus olhos nos teus
Porque se assim acontecesse, eu estaria trancado, eu ficaria preso
Em teu cárcere eu moraria de boa vontade
Porém, na minha alma eu sinto medo da gaiola
Assim, fingi não ter visto

neo aliteração de ti

2

Ai que me esgotam as palavras e o tato

Se ao menos minhas letras em ti deitasse

Formaria o poema mais belo se deitasse

Em ti minhas palavras, ai mas me falta tato

 

Circulei o que te dizer, e disse que não diria nada

Mas se é da pele que sinto falta o meu tormento

Nada direi a respeito, nem mesmo por decreto

Sob hipótese alguma eu diria algo, eu diria nada

 

Pudesse eu repetir cada sensação em teus lábios

Essa boca cansaria e sangraria em tanta fúria

Em teus lábios eu repetiria tanta fúria

E sangraria a sensação cansada de distúrbios

 

Tragaria o haxixe do cânhamo do teu sangue

Sugaria tuas veias e volveria ao teu sexo

Ao teu sexo, tornaria perplexo ao teu sexo

Como se ecoasse e bebesse apenas do teu sangue

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