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Ignorância I
2Vim jantar com a minha esposa neste restaurante porque me disseram que ele era excelente, e também porque nesta semana ele saiu na revista como um dos dez mais importantes de São Paulo. O ambiente me faz ter a sensação de estar na itália, as cores, os cheiros, as mesas, as cadeiras, enfim, tudo.
Tudo, exceto esse negro na outra mesa. Vim para esse restaurante pensado que estaria em um ambiente seleto, com pessoas distintas, e agora me deparo com esse negro. Talvez eu toleraria sua presença se ele fosse um garçom. Não. Poderia, quem sabe, tolerá-lo se ele fosse servente, se ele apenas se limitasse a limpar o chão da cozinha, e ficasse bem longe dos meus olhos.
Agora estou aqui, sentado nessa mesa, com um vinho caríssimo aberto e duas taças cheias, a minha e a da minha mulher, um Malbec, português; aliás, garanto que em Portugal não existem negros na produção de vinhos, o vinho que tomo é um vinho cem por cento confiável. Os pratos ao lado das taças são brancos, é claro, assim pode-se enxergar a sujeira (preta) e limpá-la com facilidade.
deeper
1Quem ainda não ouviu a história de Ingrid Betancourt? A colombiana que era candidata à presidência de seu país, que ficou mais de seis anos nas mãos da famosa (e falo no singular, pois pra mim é tudo uma coisa só) FARC. Seis anos, que absurdo! Quanto consegue um ser humano suportar, sem perder completamente a razão, as mazelas sobre si, a fome, a saudade, o frio, enfim, todas as situações adversas possíveis.
No entanto, eu poderia considerar tudo isso como uma espécie de bênção. Que espírito mais rico se livraria deste corpo depois de ter passado por tantas provas numa parte tão pequena da sua vida? É certo que assim a pessoa é privada de um dos pesos mais estranhos à mente humana: a liberdade e suas implicâncias, mas mesmo assim, ainda considero isso, sob um olhar de Poliana, com algo de bom.
Demos, pois, uma razão ao raciocínio. Penso na obra fabulosa de Dante Alighieri, A Divina Comédia; não me parece ter sido sem propósito que na visita de Dante aos mundos extra-terrenos o vate tenha sido conduzido primeiramente pelo Inferno e depois pelo Paraíso. Após ser conhecido, experimentado e apreendido sobre o que é dor, sofrimento, labuta, provações e todos os tipos de martírios, de maior ou menor grau, o “Reino dos Céus” pareceria muito mais encantador; sejamos simples, para quem tem fome, café com pão é sublime, mas para quem já é farto de comida, isso representa tão somente normalidade.
Não admiro que Ingrid tenha dito que se sentia no paraíso agora, após ter sido libertada. Sua fome foi saciada, seu frio foi remediado com roupas boas e quentes e, acima de tudo, sua saudade dos filhos foi extinta com o reencontro. Como foi reconfortante voltar a terra firme após tanto tempo de tempestade no meio de um oceano revolto.
Foi-me ensinado não julgar ninguém em nenhuma circunstância (e isso já difícil para mim e tantos outros), pois eu não sei qual seria meu comportamento diante dos mesmos fatos. Cada ser humano é uma verdade em si.
Nossa vida é como o passar do ano, temos ciclos, estações, nascimentos e mortes, e estas servem para que demos mais valor aos recomeços. Negar sentimentos, travar em momentos é estupidez, se apegar às cicatrizes nem tanto. Lembrar da dor nos ajuda a construir a beleza do presente ou do porvir, ou do passado, se for o caso.
Perdi o foco do texto (que novidade). Porém, nessa brincadeira toda que chamamos de vida, os convido a participarem do próprio inferno e aprenderem com ele, o visitem sob os cuidados de um Virgílio, pois tenho certeza que a sua Beatriz será muito mais bela no Paraíso.
Bom sofrimento a todos!