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olimpíadas
0Já disse que sou um defensor do esporte? Acredito que o espírito de atleta lançou este mundo muito mais longe do que teria ido sem não tivéssemos, alguns de nós, o ímpeto de se superar, ultrapassar barreiras (imagine então onde estaríamos). O esporte nos mostrou, e continua mostrando, que limites são sempre transponíveis.
No início, tínhamos necessidade de caçar, de desenvolver mais e mais as propriedades do corpo, num instinto de sobrevivência bastante primitivo e selvagem. Tempos mais tarde, quando já sabíamos plantar e colher, criar gado e afins, deixamos de precisar tanto do corpo, mas criamos outras coisas além das propriedades intelectuais. A arte, e dessa muito já se veio ao mundo, e o esporte, que atravessou anos e daqui alguns dias se faz palco principal de muitas vidas nas chamadas Olimpíadas.
Além das guerras, acredito que os esportes têm proporcionado um grande avanço ao ser humano, tanto no âmbito de superação física como no desenvolvimento de novas tecnologias para melhor compreensão do corpo, das células, da física e da química, etc.
Mas eis que, tangenciando o tema, vou-me jogado a uma coisa surpreendente: a estrutura criada para as Olimpíadas deste ano pelos chineses. Que coisa maravilhosa! O evento produzido por eles foi o mais caro já realizado. Conseguiram limpar o céu da poluição, vão lançar bombas de sulfeto de prata pra evitar chuva na hora da cerimônia de abertura, fizeram mega-construções, e diversas outras coisas que representam um esforço do homem em conseguir um aprimoramento em diversos setores.
Há, contudo, atrás das cortinas desse espetáculo algo de muito mais valor, chama-se disciplina. O regime comunista da China deixou o rigor na educação como herança, são todos soldados da sociedade, buscando fazer o melhor para que haja uma organização pacífica e evolutiva. Como um observador de longe, essa rigidez me parece mais interessante, pois não chega a tolher as faculdades criativas dos cidadãos, parece-me que eles se vêem livres nessa disciplina, têm consciência de como seria se diferente fosse.
Essa disciplina na vida é justamente aquela que os atletas têm para com seu trabalho. Será que o Übermensch não seria, também, um grande atleta?
quem dera fosse Kundera
1Ele tentava insistentemente entender a causa da sua existência. Caminhava de um lado pro outro no seu quarto, depois resolveu fechar todas as cortinas, a porta, escurecer ao máximo o ambiente. Ainda eram 6 horas da tarde, havia um pouco de sol ainda, mas ele não queria. Com a penumbra e o silêncio, sentou-se num canto, não desejava o centro, como sempre fazia, aquilo lhe lembrava naquele instante uma espécie de palco, queria ficar escondido, não queria que sua vida o visse, não queria que deus o enxergasse, queria tangenciar o costumeiro e vislumbrar por fora.
Riu-se daquilo tudo num desespero comum àqueles que se sentem solitários. Trazia em si muitas marcas, e já não encontrava um traço nelas que lhe remetesse ao início de toda aquela confusão. Não sabia onde, mas em algum lugar de sua vida havia perdido o senso de humanidade, não sabia mais conviver com as pessoas, vestia uma máscara extremamente simpática e convincente para o trato exterior, mas em si mesmo era um tirano, cabia-lhe muito esforço tolerar a si mesmo, e pedia desculpas ao mundo por estar ali, sentia culpa de sua existência indevida.
O ar estava morno ali dentro, mas lá fora estava frio.
Sentado, no canto do quarto, com as pernas esticadas, olhava a escuridão que, apesar de aumentar com o pôr-do-sol, parecia diminuir, pois seus olhos começavam a se acostumar. Via os pontos luminosos dançando na sua frente, em todo lugar, aqueles malditos pontos luminosos que tanto fizeram parte de seu imaginário.
Pensava, não, melhor, refletia acerca de si mesmo. Acabava, porém, perdendo-se por dentro, e voltava, era infinito.
Como assim? De repente nascemos, somos jogados num mundo sem saber como nem porquê, depois buscamos ao menos saber pra onde vamos e isso também nos é escondido. Tudo foi sendo jogado de um modo tão ao acaso, cada minúcia era sem sentido, estava interligado com tudo em vida, bem sabia, no entanto, se fosse diferente, tudo diferente, também estaria. A completude da vacuidade interna era tão justificável quanto injustificável, como se a cada decisão no seu mundo estivesse sendo levado ao caminho justamente oposto ao desejado, ao pensado, ao imaginado.
Como um caos, numa sucessão de impossíveis descobertas de si mesmo, continuava observando as luzes. Resolveu fechar os olhos, uma lágrima se lhe escapara. Era tão amarga, só podia ser assim: sou igualmente amargo por dentro.
Elas lhe vinham ao quarto, elas se despiam, elas queriam carinho depois do sexo. Ele as levava ao exaustivo do prazer, percebia o corpo delas se retorcendo, desfalecidas de luxúria. Ali, e somente ali, sentia certa chispa de vida se lhe iluminar os olhos. Entretanto, no momento seguinte, não suportava aquelas trocas de carinho, queria vê-las se vestindo e indo embora, se fossem prostitutas as pagaria de bom grado para que o deixassem. Associar sexo com amor era-lhe impossível, aquele cheiro de sexo o agradava mais do que a mão da mulher tentando lhe agradecer os momentos vividos. Elas, carentes de atenção; ele, de vida.
Debruçou-se sobre os joelhos agora dobrados. Não queria ser assim, não era desejo seu tanta frieza, se é que assim se pode chamar. Estava quase em posição fetal, aquilo lhe confortava, não queria ter saído do mundo dos sonhos de seus pais, preferiria ter sido apenas uma idéia e não um ser vivente. Agora não era mais uma lágrima, era um choro contínuo e quietamente desesperado. Por que gritar se a única pessoa que queria que ouvisse seu pranto era sua alma, ele sentia falta de uma alma que pudesse sentir algo além daquilo. Sempre mais do mesmo.
Perdera a conta de quantas vezes tentara voar, quebrar tudo o que era e buscar a si mesmo enveredando por sua mente, sua alma, seu espírito. Quanta coisa conseguira, quantos transes, quantos insights, mas agora, ao contrário de anos anteriores, aquilo tudo se lhe apresentava constantemente, era o tempo todo assim, e já não mais lhe configurava um prazer como antigamente, era-lhe, pois, uma tortura perceber os porquês e os mecanismos sistemáticos que se escondiam por trás de cada detalhe.
A vida era uma equação não integrável, não derivável. Conseguia se aperceber de quase tudo com uma sistematicidade impecável, porém, ao se tratar de seu próprio sentido como ser humano, falhava invariavelmente.
Desejou dormir naquele estado, ser levado para esferas mais altas de consciência, um lugar em que pudesse vislumbrar um porque daquilo tudo. Só que aquela loucura já lhe atingira tantas vezes, e sabia que não seria levado a lugar nenhum, contudo, mantinha esperança.
Aquele vazio ia crescendo, ia tomando lugar, expulsando para a periferia de si aquilo que havia na sua consciência. Comprimia tudo na abóbada do seu limite, e a tensão ia crescendo. Insuportável. Queria desfalecer, queria chegar à coroa de si. Uma serpente lhe apertava o corpo todo, e ele lutava com unhas e dentes para no fim ver sua derrota, novamente.
Levantou a cabeça, enxugou os olhos, ergueu-se e foi abrir o quarto para o ar noturno entrar. Só queria respirar antes da noitada que viria.
deeper
1Quem ainda não ouviu a história de Ingrid Betancourt? A colombiana que era candidata à presidência de seu país, que ficou mais de seis anos nas mãos da famosa (e falo no singular, pois pra mim é tudo uma coisa só) FARC. Seis anos, que absurdo! Quanto consegue um ser humano suportar, sem perder completamente a razão, as mazelas sobre si, a fome, a saudade, o frio, enfim, todas as situações adversas possíveis.
No entanto, eu poderia considerar tudo isso como uma espécie de bênção. Que espírito mais rico se livraria deste corpo depois de ter passado por tantas provas numa parte tão pequena da sua vida? É certo que assim a pessoa é privada de um dos pesos mais estranhos à mente humana: a liberdade e suas implicâncias, mas mesmo assim, ainda considero isso, sob um olhar de Poliana, com algo de bom.
Demos, pois, uma razão ao raciocínio. Penso na obra fabulosa de Dante Alighieri, A Divina Comédia; não me parece ter sido sem propósito que na visita de Dante aos mundos extra-terrenos o vate tenha sido conduzido primeiramente pelo Inferno e depois pelo Paraíso. Após ser conhecido, experimentado e apreendido sobre o que é dor, sofrimento, labuta, provações e todos os tipos de martírios, de maior ou menor grau, o “Reino dos Céus” pareceria muito mais encantador; sejamos simples, para quem tem fome, café com pão é sublime, mas para quem já é farto de comida, isso representa tão somente normalidade.
Não admiro que Ingrid tenha dito que se sentia no paraíso agora, após ter sido libertada. Sua fome foi saciada, seu frio foi remediado com roupas boas e quentes e, acima de tudo, sua saudade dos filhos foi extinta com o reencontro. Como foi reconfortante voltar a terra firme após tanto tempo de tempestade no meio de um oceano revolto.
Foi-me ensinado não julgar ninguém em nenhuma circunstância (e isso já difícil para mim e tantos outros), pois eu não sei qual seria meu comportamento diante dos mesmos fatos. Cada ser humano é uma verdade em si.
Nossa vida é como o passar do ano, temos ciclos, estações, nascimentos e mortes, e estas servem para que demos mais valor aos recomeços. Negar sentimentos, travar em momentos é estupidez, se apegar às cicatrizes nem tanto. Lembrar da dor nos ajuda a construir a beleza do presente ou do porvir, ou do passado, se for o caso.
Perdi o foco do texto (que novidade). Porém, nessa brincadeira toda que chamamos de vida, os convido a participarem do próprio inferno e aprenderem com ele, o visitem sob os cuidados de um Virgílio, pois tenho certeza que a sua Beatriz será muito mais bela no Paraíso.
Bom sofrimento a todos!
olha-me
0Encantado,
Meu nome é dependência,
Sou tua própria demência,
Dormindo no teu ser, aconchegado.
Sou química, sou física, sou mente e espírito;
Corpo e prazer, dor e desespero;
Tu escolhes um item e eu me esmero
Para te satisfazer ao máximo, eis meu fito.
Serotonina, adrenalina, cafeína e neosaldina,
Calmante, estimulante, anti-depressivo, rum com coca,
Cocaína, heroína, cigarro ou comida,
Hormônio, proteína, creatina ou albumina.
mas silencia
0Queria te amar… queria tanto. Forçava cada lágrima, cada situação, imaginava momentos doridos em que, por ti, eu pudesse chorar, mas não conseguia. Queria muito te amar, mas era só desejo.
Via-me sozinho, por várias vezes, desejando-te como companhia, nada além. Não sei o que envolve o amor, mas entendo o desejo.
Talvez nem me seja possível amar outra pessoa, senão a mim mesmo, a meu espírito. Meu coração pragueja e meu corpo aceita uma solidão indiferente, desnecessária. Era óbvio que não precisava estar só, mas meu desconforto com a falta de amor a outra pessoa me deixava desconexo. Como acordar ao lado de alguém que quer carinho e romance quando você, somente pelo fato de tê-la usado como companhia, não suporta o vazio criado dentro de si? Gerou-se a solidão a dois, e, perdoem-me, não sou conivente com isso.
Queria te amar, mas tu terias que ser mais do que a companhia das noites chuvosas. Deverias ir mais longe do que partilhar sonhos e neuroses, intimidades e prazeres. Precisas estar visceralmente intrínseca, em cada parte de mim, mofada, como um parasita, uma forma celestial em meus sonhos.
Ah, onde estás? Acordaste bem? Aquele, ao seu lado, é companhia ou amor? Dá-me uma ingrata esperança.