Posts tagged espírito
Yngwie Malmsteen – I`d Die Without you
3Acordei me sentindo inconscientemente nostálgico?
- Titião, como assim “inconscientemente” nostálgico?
Não sei explicar, não sei mesmo, talvez tenha sonhado com alguma coisa que me fez acordar assim. Ah, como um sonho pode afetar nossa alma, abalar nosso espírito, mexer com coisas que estão esquecidas dentro de nossos corações.
Essa sensação de pretérito não me durou muito, pois logo comecei a me ocupar de outras coisas. No entanto, depois, baixei um CD do Yngwie Malmsteen para ouvir a música I`d die without you. Aí sim pude estar nostálgico de verdade.
therapeople
3Neste inverno, as tendências são: piadinhas de ironia popular, tão infrutíferas e sem sentido quanto a acomodação interpessoal de escolhas musicais, vestuárias, intelectuais e (oh! Que surpresa) desanimo anímico.
Vejo uma onda crescente do “cool”, descolado, desleixado, tudo isso tendendo a uma preocupação excessiva e excessivamente destoante da preleção inicial do estilo adotado. Pois bem, sinto-me cansado e com asco desse maneirismo.
Cresce, também, o gostinho pelo rockzinho iêiêiê, o orgulho de dizer “oi, sou retrô e escuto rock com quatro acordes”. Os Beatles estão voltando na pele de cordeirinhos copiões chamados The Kooks, The Kinks ou The qualquercoisaassim; Dylan na mão de outros pretensiosos Vanguart, Mallu Magalhães e outros jovens músicos ainda muito crus. Pois posso até comparar essa tendência às músicas fracas e simples com o Anticristo de Nietzsche, é como idolatrar o fraco, o não virtuoso, somente para aliviar a culpa de sermos tão pequenos e nos conformarmos com essa posição de músicos desajeitados. Ainda que eu tenha uma simpatia pelo Camelo pelo Los Hermanos, seu álbum solo me soou bastante necromante, ressucitando o que havia de mais simples na MPB há anos atrás.
Essas tendências nunca vêm sozinhas. O gênero das novas piadinhas despretensiosas, acusando o indivíduo de um auto-elogio ao se pensar tão inteligente e sarcástico de poder ter inventado tal jocosidade. As anedotas estão ficando cada vez mais rasas e inúteis, nada surpreendente para o nonsense tão em voga. Existem os que pensam que esse nonsense é pura arte moderna, a expressão do self, como um “limpar a chaminé” primitivo.
Contudo, o asco maior vai aos resultados dessa embromação psico-moderna: a falta de ânimo no espírito. Perdidos nas redes de como parecer ser não sendo nem o pretendido – é assim mesmo, um vai e não vai concomitante, talvez até o duplipensar do G. Orwell aqui cairia bem – o pessoalzinho vai perdendo a fibra, a força e a coragem. Eis o ócio no seu sentido mais vão, a preguiça mais inexorável e a desatenção mais perigosa.
Por conseguinte, só posso ver um resultado disso tudo: marasmo. Ficar estagnado, assistindo aos diversos papéis sem escolher um, fingindo ser protagonista quando nem figurante se é. A platéia bate palmas enquanto escapam de sua vida interna, secando cada vez mais.
M.O.
4E tentar negar um instinto
Deixar para trás o que a alma anseia
Já não me serve como servia a farsa
E se meu espírito for forte para esta empreitada
Para essa obra grandiosa
Haja em mim as luzes da vida em amor
Ao que é de mim e me faz a vontade verdadeira
Se uma rejeição de mim antes me forçou
A ficar num cárcere dourado
Hoje, assumir o trono sobre as ruínas me apraz
E se meus pés tocam a lama, minha cabeça encosta no nada
E meu coração reside no sol
Então, nisso tudo eu vejo um momento, seguido por outro momento
E nada mais do que sucessões temporais, privadas de sentidos alheios,
Eu vejo o rebanho e é só um rebanho
Eu vejo o mundo que chamam deus, mas eu chamo mundo
Nisso, minha alma aprendeu dos prótons e elétrons qual o spin da minha vida
Ressonando num só sentido, sentindo saborosos os frutos da entropia, a qual respiro com alegria
Ai de mim que estou no ocaso
Ai de mim que sou aurora
Ai dos barrocos e dos existencialistas, ai dos românticos e dos classicistas
Ai do que anseia por ser eterno
Ais e ais e ais sem um sentido
Se não fosse da mudança a vida feita, onde estaria nossa felicidade?
rape me
1Compartilhei um último pedacinho da minha alma com ela, um torrãozinho de espírito que restava na consciência. Não é o caso de entender se ela merecia ou não, o fato é que eu troquei meu miúdo restante por aquilo que ousei acreditar fosse amor, claro que não era pra ela, certamente apenas para mim isso se caracterizava de tal forma.
Toquei cada minúscula parte daquela pele com um êxtase irreconhecível, como se entrasse em transe. Agora me é tão claro que, naquele momento (agora não?), ela teria tudo de mim (e não teve?), teria confissões, teria palavras, teria meus pensamentos desconexos, desencontrados, levados por uma maré que nem sabia pra que lado fluir, e a lua era cheia.
Meus lábios tocaram tudo que puderam alcançar, a língua foi mais além. Aquela espinha arrepiada, aqueles sussurros, aquelas respirações ofegantes, aqueles urros e as unhas que me cortavam, acho que foi por lá que ela retirou meu último pedacinho da alma.
Senti rasgar a pele, mas tinha muito mais ali do que poderia conter um corpo, sim, era incontido, e eu sozinho suportava o que havia de mais incrível, e viver depois de tal momento se torna vazio e tão monótono. Aí eu vejo onde se escapou o restinho do espírito.
Ela, com o cheiro mais suave que já senti, trazia a mim o que não se pode idear, e eu sentia aquelas pernas macias em volta de mim, me empurrando cada vez mais para dentro, e me liberava só pra me fazer voltar num ritmo furioso, como animais, e essa prisão que ora solta ora cinge me fez ter medo do depois, me fez querer ser um eterno prisioneiro. Sim, eu deveria ter medo, este não foi infundado, ainda sigo querendo essa prisão, e sentir o cheiro dos seus fluidos em mim.
Ontem senti um frio no espírito, ou no lugar que ele deveria ocupar. Onde tu estavas com meu pedacinho da alma?
whiter shade of pale
1Pobre, tinha tanta dificuldade em se despir da sua razão e apenas sentir o que elas lhe diziam que ficou tanto tempo parado, sem sequer se aproximar, tendenciosamente, de uma delas.
Por fim, resolveu obedecer a um impulso ignoto, coisa de animal, o tipo de sentimento que ele costumava relevar, ou omitir, ou até mesmo esconder de si mesmo. Aproximou-se de uma das portas e, lentamente, começou a ser invadido por um saudosismo. Mas aquilo não tinha sentido algum, era uma sala cheia de portas, fechadas, sem janelas, uma parca luz vinda de algum lugar, era óbvio que sentiria uma sensação do tipo, seria jogado para a infância, lugares na memória onde se sentiria confortável e seguro.
No entanto, as lembranças ficavam cada vez mais nítidas. Lembrou-se de um dos dias em que saiu pela rua com seus amigos para fazer nada, tinham todos entre dez e onze anos, compraram uma coca-cola e vários salgadinhos, e caminharam em direção a praça. Era perto das cinco horas da tarde, o horário de verão ainda não havia começado, em cerca de uma hora iria escurecer, e eles se sentiam livres, leves, donos de si, com guloseimas e um mundo imenso ao seu redor.
Havia um cheiro suave das árvores ao redor, e eles sentaram no banco da praça, estavam entre quatro. O clima não era mais tão frio, era agradável, havia um vento não tão suave vindo do sul, e eles conversavam sobre rock and roll, sobre as namoradinhas da sexta série. Tudo era divertido, cheio de ingenuidade.
Ele se afastou da porta. Sentiu a tristeza de olhar para trás, tinha a certeza de que jamais teria anos tão felizes quanto aqueles da sua juventude.
Sentia um aperto no coração, literalmente, parecia que se lhe houvessem socado no peito não seria tão ruim. O amargo o fez recuar e se dirigir para uma porta mais à esquerda. Ao chegar perto sentiu um cheiro de comida, era carne de panela e feijão. Parecia que podia tocar no cenário, mas se via um adolescente agora, já tinha quinze anos, era meio-dia e chegara do colégio para almoçar, sua mãe preparava o almoço, e ele estava brigado com seu pai, já manifestava os primeiros sinais de auto-afirmação. Olhava para o pátio da casa e observava as nuvens escuras chegando rapidamente com o vento, em breve iria chover, e ele poderia ficar o dia inteiro em casa, sem fazer nada de especial. Sentia naquilo tudo um vazio, ali começara sua derrocada, naqueles momentos sóbrios de ociosidade infrutífera, iniciara ali seu afastamento do mundo, o pequeno lobo aprendendo a ser selvagem, mostrando os dentes.
Afastou-se dessa porta também, não sabia o que mais lhe doía, se era a saudade de tempos incontestavelmente ótimos ou o reconhecimento de erros tão distante e pueris que, mesmo podendo ser concertados, demandariam um esforço quase sobre-humano em sua psique. Ele já era matéria sólida, sua teimosia em si mesmo residia como um parasita lhe sugando uma seiva vital.
Permaneceu um tempo parado no centro da sala oval, olhando para o chão, vendo a luz fraca se espalhar. Batalhava contra si mesmo, o lobo queria dar um jeito de sair do jogo, estava cansado e precisava morder alguma coisa, o homem queria saber de cada porta, o que elas significavam e outras tantas coisas.
Num esforço, voltou-se para trás e foi rapidamente para outra porta. Tocou nela, sentiu sua textura, era madeira, cedro, espessa, escura, fria. Aquela frieza o lembrou de tempos não tão distantes, das suas buscas vãs por um espírito satisfeito, por uma alma sadia, mas o mais perto que chegou foi do sadismo. Havia sexo ali, e só sexo, já não conhecia o amor apaixonado da adolescência, nem o amor comedido dos seus vinte anos. Já estava com vinte e cinco, recém formado, trabalhava e ganhava um dinheiro bom. Saía aos finais de semana com os poucos amigos que tinha, e estes ele sempre os mantinha a certa distância com medo não se sabe de que. No seu quarto só entravam mulheres, às vezes até mais de uma na mesma noite. Era sexo, e só sexo. Sentia falta do amor, e esse vazio o fazia distante, satisfazia-as com prazer, mas nunca com sentimento, não por maldade, mas por impossibilidade. Já nao era apto ao verbo amar.
Meditava, outras vezes, com seus exercícios espirituais, sem nunca saber ao certo se estaria fazendo a estrada correta. E essa dúvida revivida o fez recuar da porta e pensar que poderia ter seguido por escolhas erradas atrás de outras também erradas, enganando-se de porta em porta, já não poderia voltar nem mesmo imaginar alguma outra hipótese de vida.
Com toda certeza, aquela foi a porta que mais lhe esvaziou os sentimentos. Não era dor, era comedimento e resignação. O lobo estava angustiado, já babava de raiva, mas o homem sufocava o instinto, e a ira ficava contida.
Resolveu tentar outra vez. Havia uma porta reto a sua direita, e ele se dirigiu para lá. Ao chegar bem perto, sentiu nada, absolutamente nada. Era como se ficasse envolto de uma luz totalmente branca, a maior alvidez possível, o próprio princípio da luz. E já não sabia quantificar o espaço ou o tempo, não sabia se situar em coordenadas ou dimensões.
Havia cansado de memórias, de lamentações. As ilusões eram as mesmas, invariavelmente. As lembranças estariam sempre ali para ele se lamentar de suas escolhas, sem nem ao menos lhe ser permitido saber se teria possibilidade de ter feitos caminhos diferentes. Às vezes acreditava que não podia, nunca, ter feito nada diferente, se lhe dessem mil ocasiões repetidas, ele seria impelido por forças incognoscíveis a fazer mil vezes exatamente o mesmo.
Ah,ele abriu a porta e entrou, resoluto.
