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Sopro de voz
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De ser infinitamente calado
Abriam-se as flores a ele
Afim de saberem do que se trata, ou se tratava
Aquelas perguntas, tantas, tão constantes e opacas
Tão fundas e obscuras
Fossem as perguntas ou as respostas
De ser infinitamente impreciso em sua mira
Mirava por todos os lados quando perguntava
E acusava qualquer vento de trazer uma resposta diferente
E brincava com mil miscelâneas místicas
Jogava com gestos, com jovens, com jeitos difusos
Confusos
Opacos como as perguntas
Flores que mostram sua cor e seu cheiros
Que queriam ouvir a voz daquele que calava
Elas traziam a única luz que alimentava esse silêncio
A única voz que falava facilmente ao que não fala
Abriam-se elas em meados de noites frias
E o vento sempre trazia um cheiro de infinito
E o céu era, igualmente, infinitamente calado
- Por que brilham essas estrelas tão orgulhosas suspensas num céu negro?
- Por que brilham enquanto o vento quente traz temporal?
- Por que brilham e se calam?
- Por que me pergunto?
E o céu era infinitamente calado
E abriam-se as flores como um jardim confuso e perdido
Entre o Éden e o Hades
Entre Vinícius e Azevedo
Entre Neruda e Poe
Era suspensão
Jardins suspensos, ironicamente, como uma tela de um artista barroco
Que demora por se decidir entre o vai e o vem
Entre o silêncio e a música
Entre as flores e as estrelas
Entre abrir-se ou ficar calado
Ficar calado
Apenas calado
- Silêncio
Silencio
…
Hoje eu ouvi a voz Dela
E ela suspirou seu nome em silêncio
Calada.
Memórias sem luz
2
Ele havia encostado o revólver sob seu queixo. Ele pensou em como era engraçada a sensação do aço gelado encostando sua pele, era como se experimentasse o tato através de outra pessoa, não sentia, de verdade, que era ele quem segurava o peso daquela arma, escura, carregada de pólvora e chumbo e de medo e angústia.
Não tremia, um segundo do frio na sua pele parecia representar anos e anos de vida marcada pela falta de presença de si em si, sempre como se assistisse um teatro, em fato, a vida acabava lhe parecendo uma enorme galeria de personagens, e ele era livre para pegar e largar o papel que quisesse a hora que bem entendesse, era assim que se relacionava com os outros, com o mundo, mas não consigo.
Sua relação com consigo mesmo ou inexistia ou existia com demasiada sinceridade e falta de medo. É confuso. Por vezes, o medo que temos de encarar o que somos, o que pensamos, nos protege, somos programados para nos protegermos de nós mesmos. Há um monstro no abismo.
Uma rajada de vento soprou no nono andar, um vento morno e denso, parecia que, ao tocar seus cabelos poderia varrer seus pensamentos ruins. Mas o que está na alma está gravado pra sempre, com letras em negrito.
O vento quente era prenúncio de temporal, longe, no horizonte, já podia enxergar raios cortando o céu, mostrando sua imponência.
Lembrou de quando era pequeno, numa noite assim, exatamente assim. Deveria ter uns 10 anos, já era noite e ele estava na rua brincando com os vizinhos, sua mãe o chamou para jantar. Havia sopa. Naquela época a comida tinha um gosto diferente, era sempre boa, era sempre confortável.
Naquela época não havia grades isolando as casas, às vezes muros. As portas ficavam abertas, deixando o vento abençoar a pele de cada, trazendo o cheiro de deus para dentro da alma, e deus tinha cheiro de vida e flores naquela época. Ah, e sopa de ervilha.
A luz apagou. O vento ficou forte, o temporal já havia chegado em algumas partes da cidade e a luz havia caído, mesmo assim, com velas que teimavam em ficar acesas, lutando contra o vento, puderam jantar. Essa noite ficaria pra sempre guardada.
Seria lembrada, também, como o dia da morte do filho mais novo de uns vizinhos. Uma outra vizinha veio avisar enquanto jantávamos, ele lembrou de como ela chegou, um pesar enorme em seu rosto, lágrimas contidas em olhos vermelhos.
Não compreendia muito bem o que acontecia. Seus pais se levantaram, conversaram com a vizinha que trouxe a notícia no lado de fora e depois voltaram, pediram para a irmã mais velha dele tomar conta de tudo que eles precisavam sair.
A luz apagou. Mas a janela estava aberta, os raios iluminavam a noite e o vento morno no nono andar esquentavam suas mãos, e o aço esfriava seu queixo.
A luz apagou, e não havia velas.
O cheiro de deus não era de sopa de ervilha, nem de flores…
A luz apagou.
Assistindo de olhos fechados
8
Em que momento foi que perdemos a nossa habilidade de sentir e estar presente aos momentos? Quando foi que esquecemos de presenciar a própria vida como parte dela? Quando deixamos de lado a atenção a todas as sensações causadas pelos cheiros, sons e luzes que nos tocam o tempo todo?
Ontem à noite, antes de dormir, liguei a TV na MTV e estava passando um clipe muito velho, isto é, do meu tempo de criança: Kid Abelha, na rua na chuva na fazenda. Tudo bem, nunca gostei tanto dessa música quanto eu gosto da Paula Toller, no entanto, ela me lembra minha casa em Cruz Alta, aquela onde cresci com meus irmãos.
Ao fechar os olhos ouvindo a música pude reviver momentos simples, distantes, e, ainda assim, significativos, de alguma forma, pro que sou hoje. Momentos assim, miúdos, aparentemente insignificantes, acabam se somando e construindo o que nós somos, fazem nossos hábitos e vícios, traumas e vontades.
Como ia dizendo, fechei os olhos e comecei a ouvir a música, sem prestar atenção na letra, apenas sentindo a melodia e percebendo o que aquilo ressuscitava em mim: o céu azul de um verão escaldante no clube onde costumava jogar tênis, o olhar através da janela para a chuva numa tarde assistindo The Goonies enquanto comia doce, o cheiro do xampu que usava naquela época, as brincadeiras na rua até escurecer e o horário de ir pra casa assistir Cavaleiros do Zodíaco e comer bolacha ou pipoca.
Naturalmente, essas lembranças boas trariam uma sensação de paz e sossego; contudo, mesmo quando as memórias invocadas são aquelas de alegria menos expressiva, a sensação de paz e sossego continua…
Continua porque naquela época ainda era presente em minha própria vida, porque sentia aquele cheiro e atentava à ele, porque via a chuva e queria tocá-la e sentí-la, gelada, em mim, esquecendo de um possível resfriado, era apenas viver o momento, quase incauto.
A música tinha sempre um tom de novidade, e disso eu realmente sinto falta, a música era muito mais alma do que instrumento.
E como retornar a esse estado de percepção da vida?
Tenho certeza de que revirar a infância não resolve nossos problemas, nossa apatia, no entanto, deve haver uma forma de trazer de volta esse sentimento de presença, de vida eminente, uma sensação que de tão pesada chega a nos prender, mas nos prende num lugar muito acima daquele em que nos sentamos e ficamos observando a vida continuar, esquecendo de fechar os olhos e sentir, e ouvir, e cheiras, e tocar…
Sétima poltrona, terceira fila.