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Domínio e Dignidade

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Pois bem, poucos estão a par do causo que se sucedeu no início do ano quando fui fazer minha mudança, do término do meu contrato com o antigo apartamento, das multas pagas (que não existiam) apenas para não arrecadar estresse e tempo perdido, dos inconvenientes, das burocracias e falta de vontade (para não dizer má-vontade e mau-caráter) dos corretores.

Não entrarei em detalhes acerca disto, tampouco vou revelar o nome da imobiliária que, por falta de bons modos, fez de tudo para arrecadar um dinheiro a mais. Ah, se um João-de-barro fosse indigno assim com sua própria moradia…

Enfim, o que venho lhes contar é que, dia desses (e não foi a primeira vez) estava caminhando pela rua e cruzei com o dito corretor imobiliário/dono da imobiliária; fiz-me pronto para dar um “oi”, fazer uma certa ironia quando este me olhasse e me cumprimentasse; porém, qual não foi minha surpresa ao reparar que, nervosamente, o senhor (pois passa, certamente, dos 50 anos, o que torna a situação mais cômica para o meu lado e mais triste e mendicante para o lado dele) desviou o olhar, procurou alguma coisa no chão enquanto caminhava, tateava em sua consciência procurando uma lanterna, uma vela qualquer que lhe ajudasse a procurar aquela dignidade que, ele ainda não entendeu, está perdida.

Fiquei pensando em como o ser humano trai a si mesmo constantemente. Obviamente, raras são as vezes em que nos traímos diante dos outros de forma tão clara, aprendemos, com o tempo a ser dissimulados (uns mais, outros menos).

O problema é que o homem comum (esse como você e eu, seu pai, seus amigos e quase todas as pessoas que você conhece) não sabe o que se passa em seu inconsciente, não sabe se perceber como indivíduo, dotado de personalidade, características particulares e emoções únicas.

As emoções constituem matéria de difícil entendimento, mais complicadas ainda para auto-compreensão. Poucos são os que sabem de forma satisfatória (o que não quer dizer, nem de longe, completa) o que se passa em seu espírito, o que são e por que assim são essas emoções, e os poucos que podem dizer que entendem um tanto sobre si mesmos ficam mais escassos ainda quando se lhes pergunta se eles conseguem ter um controle sobre isso.

Não é á toa que o amor é algo tão forte, que a raiva também o seja, são emoções primitivas do homem, estão demasiadamente arraigadas em nossa alma para que sejam, simplesmente, sobrepujadas, ludibriadas ou coisa que valha. Por isso, muitas vezes, pessoas são pegas nos detalhes, nos atos falhos, em pequenos erros ou descuidos que fazem com que verdade graves e perigosas sejam trazidas à tona.

Nós, pessoas normais – homens, não sobre-homens de Nietzsche -, não nos dominamos, não escondemos tudo, não sabemos tudo de nós mesmos e não podemos encarar os olhos de algo que nos traz temor e vergonha.

Jamais poderíamos olhar nos olhos de quem nos revelou a perda da própria dignidade.

Inteligência (Primitivismo) Emocional

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E não adianta vir se gabar de que você sabe inúmeros ossos do corpo humano décor, que você sabe transplantar um coração, que você sabe usar a constituição e leu Kelsen, que você sabe integrar, derivar e entende tudo de físico-química.

Não adianta nada, nada adianta.

Adianta muito, mas não tem valor nenhum, portanto, quero dizer que não adianta nada acumular essa quantidade insustentável de conhecimento, de minúcias e especificidades, quando se vive, irrefutavelmente, ao lado do réptil que deixamos para trás há mais de cem mil anos.

 

 

Somos incrivelmente primitivos. Enjoei de dizer isso, cansei, vomitei até o que não podia desse asco que se nutre daquilo que podemos ser, dessa nossa vilania nata, tão rudimentar quanto um macaco: somos incrivelmente primitivos.

Não sabemos lidar com nossas emoções. Sequer sabemos quais são nossas emoções. Esse orgulho que sustentamos em dizer que somos da Geração Y, que sabemos fazer isso e aquilo, que seremos futuros empresários bem sucedidos prontos para subir numa montanha de dinheiro e, lá de cima, gritar ao mundo (que é o próprio ego gigantesco) que conseguiu.

Estamos pouco ou quase nada preocupados com o que sentimos, com o que somos por dentro e com como afetamos, através das nossas nem sempre boas atitudes/palavras, aqueles que nos rodeiam.

Sabemos muito bem, desde pequenos, ser maus.

 

 

Vide crianças e essa moda do bullying: se isso não é pura expressão da maldade e as crias personificações do que há de mais irrefreado em nosso inconsciente primitivo, então tem muita coisa errada com o que acontece depois da infância.

Além do erro da agressão moral/física, há a nossa incapacidade de lidar com as impressões externas. Sabemos de forma muito insatisfatória controlar nossos impulsos, emoções e pensamentos.

Claro, é natural que tenhamos que nos lapidar, sabedoria exige tempo e esforço que uma criança ainda não dispõe, mas nós, adultos, deveríamos ser mais sábios. Nós, adultos, somos igualmente primitivos.

Crescemos hostis, estressados e egoístas.

Ter bom humor é antônimo de credibilidade; ser paciente é sinônimo de inoperância; ser altruísta é, e essa de fato tem sido assim, interesse.

Assassinos, estupradores, terroristas, homens-bomba… vamos engrandecendo nossa loucura, vamos remontando os anos de história de forma idêntica, continuamos brigando pela terra santa e pela razão da verdade absoluta.

Defendemos, cegos, nossas bandeiras, maculadas e mortas. Há quem mate por um time de futebol… e há quem morra por isso.

Somos macacos brigando por uma penca de bananas, dispostos a usar da nossa mais alta inteligência, a violência, para conseguir o prêmio. Passamos a vida lutando, e isso é tudo.

Impacientes, inconsequentes. Wellington matou crianças no Realengo, alguém duvida de que ele nunca soube lidar com suas emoções e impulsos e pensamentos? Uma bomba estourou numa estação de trem. Um homem se explodiu defendendo sua religião/limite territorial.

Somos primitivos, não sabemos levantar a mão e pedir a palavra. Levantamos a mão para um soco apenas, um soco letal, é o mesmo golpe que levamos dentro de nós a vida inteira e queremos pôr pra fora: não sabemos lidar com nossas emoções, extravasamos em violência.

Não somos sábios, somos inteligentes, e só por isso você lê isso na internet hoje.

Só por isso eu escrevo, só por isso eu me indigno.

 

Pacóvio

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É um pouco disperso e muito longe de medidas,

Imensurável em superlativos pacóvios,

Num reino em que o ocaso é constante

E o raiar dum novo dia é porvir fantasioso.

Como se o Jack fosse aliviar a tensão

No fim de uma garrafa que não esvazia

Ou no filtro de um cigarro eterno.

O porvir é fantasioso

E os superlativos são inúteis.

Os superlativos são inexpressivos.

Por isso calar é expressar o ocaso dorido de mil anos,

De um corpo, de uma alma, de um átomo mal ligado.

A energia de aeons que se transfere como um não,

Que transmito como Shiva.

E gritar é um superlativo inútil.

Que haja caos o suficiente para um fim,

Que haja entropia para minha cegueira

E um ocaso finito para um descanso nessa noite.

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