Posts tagged eleições
Acabaram os santinhos
2
Muito obrigado a todos os candidatos que, com a persistência de uma mula, lotaram quase diariamente minha caixa de correio com suas propagandas tão bem feitas quanto um catálogo da Renner, tão inocentes quanto uma debutante e tão sinceras quanto Gregory House.
Obrigado, de verdade, por todos os carros com música que, de uma maneira irrefutavelmente perspicaz, alegravam minhas manhãs com muitas canções bonitas e bem boladas, com jingles de uma criatividade invejável.
Obrigado, candidato que pagou pessoas para distribuir santinhos pelas ruas, foi um enorme prazer pegar cada um deles, e eu juro, se tivesse mais espaço nas minhas mãos eu pegaria mais, acho que nunca foi o suficiente, creio que a quantidade de propaganda que eu recebi por cada candidato não foi o suficiente para fazer da sua campanha uma empresa mais bem sucedida e da minha vida uma novela mais feliz.
Cinismo. Eis a palavra que lhes ofereço como a alma do negócio, eleição é negócio, é marketing pessoal, é vender o peixe, é enganar, mostrar o quanto seu papel é melhor, sua foto mais bem tratada e seu sorriso mais carismático.
Cinismo.
Os candidatos que lotaram nossas vidas com seus papéis, bandeiras, carros com som, etc., mentem na nossa cara dizendo que se preocupam com o meio-ambiente. Apontam o dedo da mão esquerda, enquanto a direita segura uma cerveja, e gozam na da cara dos que acreditam em suas lorotas bem boladas, nas suas imagens tratadas e vendidas.
Parabéns, candidatos das eleições 2010! Parabéns a vocês que contribuíram para fazer desta eleição a mais poluente de todas, seja poluição ambiental ou sonora.
Obrigado, novamente, por me mostrarem o quão desgovernado esse país pode ficar e o quão bom é viver uma vida sem horários políticos e santinhos de candidatos.
Feliz Copa do Mundo 2010
5
E eu fiquei aqui, perguntando-me: o que escrever nesses dias de copa do mundo? O que escrever nesses dias em que o país parece mergulhar num banho criogênico, estagnar, exceto pelas urgências?
Pois bem, continuo me perguntando.
Poderia escrever sobre cientistas terem criado uma espécie de buraco negro, que absorve algumas microondas. Ou então, escrever sobre as descobertas que fizeram sobre a anti-matéria, que ela não é tão precisamente contrária à matéria, e isso implica em sérias dúvidas sobre o universo.
Não, isso é supérfluo, irrelevante diante do poder do futebol nesse país em que não gostar ou não ser fanático é quase uma doença.
Poderia falar acerca dos astronautas russos e norte-americanos, que viajam a uma estação espacial para uma missão que não é levar a bandeira do futuro campeão da Copa do Mundo 2010.
E se eu falasse sobre as milhares de mortes nos trânsito? E sobre o novo ajuste na aposentadoria? Sobre o projeto ficha limpa? Ahmm, não sei, acho que não têm importância isso tudo.
Ah, já sei!
Escreverei sobre as eleições. Aliás, tu te lembra? Estamos em ano de eleições.
Claro, a eleição do novo presidente da república do Brasil é um assunto importante, não é? Precisa ter uma certa audiência, não é possível que até isso seja relevado nesse momento que passamos… ou é?
Ao que me parece, até isso caiu em suspensão, foi posto em banho maria, ta sendo cozido em fogo baixo, enfim, o negócio amornou.
Mas o que esquenta é a seleção, são as cornetas (vuvuzelas), os foguetes, as pinturas na cara, o grito que vem do peito, esse patriotismo tão bonito que aparece em épocas de copa do mundo. Patriotismo lindo, né? Caras pintadas e gritos como aqueles do tempo da ditadura, lutando por um ideal tão nobre que eu jamais poderia ser bem compreendido se falasse agora em pão e circo.
Ah, já ia me esquecendo: cala a boca Galvão virou a maior piada “interna/nacional”, não é? Que orgulho que eu tenho disso tudo! Como somos engraçados e criativos!
_____
Pós-post -> resultado do jogo de hoje: um bêbado chato gritando na rua.
A democracia e as aparências
4
Na Zero Hora de hoje há uma manchete assim: “Dilma treina voz com aulas de canto”.
Fiquei pensando, cá com meus botões, obviamente é importante para um candidato a um cargo público ter correta imposição de voz, treinar sua tessitura, entonação, colocação e dicção, não questiono isso, de forma alguma, mas não seria isso uma das prioridades atuais dos nossos governantes?
O exemplo da voz foi só um, o que eu, de fato, quis dizer é que parece que estamos entrando (há mais de cem anos) em um período em que a aparência daquelas pessoas que estão lá no Senado, na Câmara de Deputados, nas Prefeituras e, por que não, nos cargos de presidência de organizações conta muito mais do que seus trabalho prévios, do que seu passado.
A impressão de asseamento e de beleza em conjunto com uma voz potente e bem colocada é uma arma incrivelmente eficaz para a eleição de um pilantra. Ainda que a voz seja estranhamente peculiar, isso auxilia. Temos casos de Maluf, Collor e muitos outros que talvez não tenham ainda precisado se reeleger em cargos, mas foram se escapando de falcatruas por sua astúcia e habilidades persuasivas.
A democracia é uma coisa linda, não tenho dúvida de que esse modelo seja um dos mais (só para não dizer “o mais”) adequados para a eleição de um presidente ou outro cargo qualquer, porém, com todas essas enganações que acercam a nação brasileira e a falta de preparo de milhões e milhões de pessoas para abrir os olhos e enxergar as pilantragens de cada um, a falsidade no olhar disfarçada pelo terno e pela cor da gravata, eu fico em dúvida acerca da nossa competência para usar o voto.
O Brasil – assim como outros países, obviamente – é movido quase que completamente por aparências, o que a pessoas parece dizer vale muito mais do que ela realmente queria dizer. “Vote em mim, mas eu vou te sacanear.”.
Quanto demora para pararmos de avaliar roupas e palavras bem colocadas e passarmos a dar mais atenção à idoneidade, força de vontade e atitudes dos pretensos governadores, senadores, deputados, vereados, prefeitos e presidente?