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Casa vazia

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Assim te vais, meio sem alma,

Nesse monólogo ensurdecedor

Gritas às paredes desta casa vazia,

Ecoas maldições no teu íntimo oco.

Pensas nas almas e nos átomos,

Meditas sobre o amor e o universo,

E assim te esgotas, em gotas amargas.

Lentamente, sem pressa nenhuma,

Preenches teu corpo nesse escuro ocaso,

Tão pretérito quanto tua vida esquecida,

Tão valioso quanto tua liberdade fria.

Assim te acabas, gota por gota,

Meio sem alma – histeria calma -,

E quando cessas tuas blasfêmias altas,

Afogado no cansaço desse discurso,

Acabas por dormir nesse chão frio

Que ainda vibra gritos de casa vazia.

 

A carne que se trai

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Ela tinha os lábios brancos ainda quando ele os olhou, quando sua própria boca parou de tocar a dela. Logo o sangue voltou a circular normalmente, mas naqueles segundos em que os lábios dela estavam pálidos ele pensou que iria perdê-la… para sempre.

Suas mãos seguravam a carne, o que antes eram braços passou a ser carne, pele, osso e pressão; talvez, um ponto de referência, algo para se agarrar em segurança durante um tornado, não sem o sentimento de desespero.

Ela olhava com olhos de ressaca: era dissimulada. Tentava negar em sua face a leve sensação de dor que aquelas mãos lhe traziam aos braços. Queria dizer com sua expressão “ei, você me perdeu, não adianta me segurar”; queria, contudo, dizer de verdade “ei, por que assim? Por que fez isso? Por que estragar desse jeito?”. Por fim, disse com uma voz baixa, firme, rouca e incolor “me solta”.

Havia muito sangue em suas veias; ele estava confuso, cego e despreparado.

Acabara de beijá-la como se fosse o último beijo, seus lábios quentes se encontraram em um espaço salgado, temperado pelas lágrimas de arrependimento e consciência. Ele sabia o que viria a seguir, mas não queria aceitar.

Ela acabara de beijá-lo de volta, não estava sonhando. Mas como podia ser tão fria?

Me solta, ela repetiu com uma voz glacial. Ele aliviou a pressão, mas não soltou, não poderia soltar.

Duas toneladas de segredo lhe pesavam os ombros. Não era o que ela sabia, era o que já tinha feito, tudo lhe pesava e lhe ardia. Seus dedos que seguravam a carne queimavam como se fosse o braço dela que lhe agarrasse e torcesse as falanges.

Ela queria dar-lhe um tapa e gritar de dor, chorar lágrimas quentes e salgadas. Ela queria ficar histérica por alguns instantes e acreditar que depois disso tudo ficaria bem, que era tudo uma brincadeira de mau gosto.

Seus olhos, os dela, castanhos claro, marejavam, e uma só lágrima rolou fervendo, quase vapor, sobre sua boca, e a respiração ofegante fez-la voar. Se pudesse congelar o instante, eu diria que aquele sopro dela fez mais do que a gota de dor voar e se espalhar em milhares pelo ar, diria que aquele sopro despedaçou a esperança que ele tinha de voltar ao que era antes, ao início.

Milhares de peças voando pelo ar, impossíveis de serem montadas novamente.

O amor é assim, quando se quebra os cacos não podem mais ser juntados com precisão, sempre falta uma peça, um encaixe. E aquela vacância ficará para sempre, uma nódoa travestida de lição e trauma. Impossível de esconder ou relevar.

Um dia lhe perguntariam “onde está aquela peça?” e ele responderia “perdi, em algum lugar entre a minha infantilidade e a minha estupidez”.

Essas manchas que nos pesam no coração não são retiradas, elas ficam mesmo sob aquela chuva que molha até os ossos. Os outros perdoam porque não enxergam a mácula que nos dobra as costas sob seu peso.

Ela queria abraçá-lo, dizer “tudo bem amor, eu te perdôo”, mas logo a histeria se renovava em algum lugar recôndito de seus pensamentos, surgia como um assaltante e lhe rendia o que havia de bom, então queria gritar “por que assim?”.

Ele soltou a carne dos braços dela, mas não a soltaria, nem no momento seguinte nem por muito tempo, nem quando ela lhe desse as costas e fosse embora nem quando, anos depois, ela casasse sem convidá-lo, para nunca mais participar de sua vida.

São cheiros que ficam, do amor ao sexo, dos lábios às lágrimas. Mas está tudo repartido em milhares de gotículas que vão secar… vão secar como tudo aquilo que existe.

Ponto algum

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Hoje sou dono de um corpo cansado

De músculos doloridos

De ossos comprimidos

E um cérebro manchado

Sou dono de uma insone impenetrabilidade

De uma fatigante impossibilidade de descansar

Sou o mestre de minhas coisas, mas hoje me parecem alheias

Vão conforme o vento, e fogem de mim como o tempo

Sou dono de visões infundadas, de passados inventados

Sou a versão mais nova da minha maldade

Sou a versão mais nova da minha crueldade

Sou o velho monstro que saiu do abismo

E abro minhas asas escuras como quem quer dominar o mundo

Hoje sou dono de minhas visitas impossíveis

E elas me parecem alucinação

Hoje sou dono de um corpo cansado

E tenho todos os pontos finais na minha língua

Mas nas os uso, nenhum, em momento algum

Ponto

Abraço e adeus

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Abraçava ela como se fosse uma corda em um precipício.

Não havia delicadeza nem beleza naquele abraço, era apenas um desespero traduzido em força.

Ela o tinha traído, ainda o queria, mas a traição é como uma mancha num lençol, é feita por cima, mas atravessa e suja os dois lados. Ela sentia culpa e ele dor.

Ele abraçava o corpo daquela mulher que amava, seu peito era comprimido por um bloco de concreto de qualquer construção abandonada por falta de verbas, queria muito que aquilo tudo não fosse verdade. Amava aquela mulher, aquela que ele abraçava, não a que estava por dentro daquela mente, não aquela potencialmente pérfida.

O sentido da deslealdade é duplo, vai e volta, o peso é ativo por ter feito e passivo por ter destruído a confiança de uma pessoa, e orgulho ferido é como uma lata de cerveja aberta ontem.

Ainda assim, ele a queria, muito. Deveria ter deixado aquele cenário de cabeça erguida, deveria ter deixado ela sozinha na imensidão daquele nada, mas não podia, era como se o amor fechasse a mão naquele instante para nunca mais se abrir.

Ela retribuiu o abraço com tanta força quanto arrependimento, era remorso dos dedos ao sexo que tocaram outro que não o seu amado, era compunção de ter sentido prazer no falo de outro homem, não melhor do que o que já tinha no seu relacionamento com ele.

Ele soltou um pouco os braços, sentia, em sua mente, o cheiro daquela traição, o cheiro dos fluidos, o cheiro da mágoa em uma alma agora maculada, de uma cicatriz inflamada.

Jamais deveria ter soltado os braços, ele a queria como a própria vida, mas tudo havia desmoronado como se abalado por um terremoto. Não havia música dorida o suficiente nem poema com tanto pesar para expressar sua amargura, agora ambos ouviam o silêncio do tempo suspenso entre um par de respirações, ar entra e ar sai, mas o peito continua preso, o nó continua lá.

Ela tinha medo de falar, de pedir desculpas, talvez sua voz o incomodasse agora, talvez sua voz o lembrasse do quão suja ela estava, tinha medo de falar e perder aquele abraço, o último.

Se ela tinha se arrependido e sentia remorso por tê-lo machucado, ele sentia raiva por ter sido traído e dor por não poder mais tê-la como sua, só sua.

A nódoa da infidelidade é difícil de remover, e com o inverno que se instala no coração torna-se muito difícil secar o tecido manchado.

Ele deixou a sala, antes mesmo de virar as costas já queria ter voltado para aqueles braços que agarravam sua vida como a coisa mais importante do mundo, queria o amor que afastava.

Só depois que ele saiu e não poderia mais ouvi-la, ela chorou, em desesperada agonia.

Pacóvio

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É um pouco disperso e muito longe de medidas,

Imensurável em superlativos pacóvios,

Num reino em que o ocaso é constante

E o raiar dum novo dia é porvir fantasioso.

Como se o Jack fosse aliviar a tensão

No fim de uma garrafa que não esvazia

Ou no filtro de um cigarro eterno.

O porvir é fantasioso

E os superlativos são inúteis.

Os superlativos são inexpressivos.

Por isso calar é expressar o ocaso dorido de mil anos,

De um corpo, de uma alma, de um átomo mal ligado.

A energia de aeons que se transfere como um não,

Que transmito como Shiva.

E gritar é um superlativo inútil.

Que haja caos o suficiente para um fim,

Que haja entropia para minha cegueira

E um ocaso finito para um descanso nessa noite.

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