Posts tagged divagações
Ser caminho, ser estrada
2“I wanted to be changed by the road.
I so wanted to change the road.
But somehow we both resisted change.
Somehow we were both too strong.
And yet we have both winded away,
unsure of where we head.
And it’s like we’re both confused
as to who is who.
As if, late in the night,
you can’t tell the wanderer from the road
- the walker from the walked.
Maybe I’m just the road,
dreaming that I walk.”*
Essa é uma estrofe de uma das músicas novas do CD Road Salt do Pain of Salvation, a música se chama Of Dust.
Por alguma razão, isso ficou martelando na minha cabeça dias a fio; aliás, continua martelando. Talvez seja essa a razão de eu estar iniciando esse texto sem rumo, sem objetivo certo.
A vida, cedo ou tarde, acaba nos parecendo um jogo de um sarcasmo imprevisível, e tudo está tão intimamente ligado que, quando percebemos um pouco dessa teia incrível que é formada, só podemos sorrir e continuar caminhando de um novo jeito.
Quantas vezes não tentamos mudar as coisas ao nosso redor sem ter a menor preocupação em analisar se, na verdade, não somos nós quem devemos mudar e nos adaptar ao contexto?
Não importa o grau de profundidade em que você já mergulhou em si mesmo, a percepção de que você se adapta à vida e ela se adapta a você geralmente ocorre de qualquer forma; e é estranho perceber como é esse vai e vem, essa mola que ora nos empurra, ora nos puxa de volta, numa brincadeira de gangorra com a vida – o viajante e o caminho.
Estamos tão bitolados e preocupados com nossas tarefas diárias, com nossos lazeres entediantes, repetitivos e hipnóticos, que não colocamos o pé na estrada que há dentro de nós, não investigamos esse caminho terrivelmente vasto e escuro que vai, aos poucos, com esforço, se abrindo diante de nós.
Espero que sua resposta seja sim, mas vamos lá: você já parou pra pensar nas possibilidades que há em você? Na potência escondida, latente, em sua cabecinha acostumada à rotina, ao claustro cotidiano e ao conforto?
Já tentou enxergar o que você poderia fazer se, simplesmente, pudesse esquecer por um momento o medo, o orgulho, a preguiça e outros fatores que nos impedem de voar, de viajar no sentido literal, de conhecer o mundo e, talvez assim, mergulhar com mais voracidade em sua alma?
Tenho convicção de que quando fizer isso, mesmo na menor escala cabível, não verá tanta diferença entre você e o caminho, entre você e o meio em que vive, entre você e as situações da vida e suas atitudes para com ela. Tudo isso forma um emaranhado de causas e conseqüências indissolúveis, tão indissociáveis quanto o viajante da estrada; eles são um só, não há diferença. Aliás, creio que nem mesmo deva existir diferença substancial entre sonhar ser o viajante que caminha na estrada e ser o viajante que caminha na estrada.
Pra nós, as coisas são muito confusas, elas se confundem, se misturam e formam um mosaico que, no fim das contas, chamamos de vida.
Talvez eu tenha parado no meio da estrada, talvez eu tenha apenas sentido o cheiro da estrada, sem jamais colocar um pé nela. Só sei que o que vejo é um infinito escuro de possibilidades e incertezas, e isso tem um gosto terrivelmente bom, como sexo.
___
*
“Eu quis ser mudado pela estrada.
Eu quis tanto mudar a estrada.
Mas, de alguma forma, ambos resistimos às mudanças.
De alguma forma, ambos éramos muito fortes.
Assim, ambos ficamos sem fôlego,
Incertos de onde íamos.
É como se estivéssemos confusos de quem é quem.
Como se, tarde da noite,
Você não pudesse distinguir o viajante da estrada
- o caminhante do caminho.
Talvez eu seja apenas a estrada, sonhando que eu caminho.”
Espaço-tempo e a entropia na mente
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Tradicionalmente, somos levados a acreditar que toda superfície que olhamos é plana: uma tábua de madeira, uma parede de concreto bem feita, uma bola de sinuca, enfim, todos esses objetos que se nos apresentam em grande escala diariamente e nos dão a impressão de serem perfeitamente lisos.
Contudo, hoje já é mais propriedade do senso comum entender que em uma escala menor esses elementos possuem ranhuras, texturas que não são tão lisas assim. O que não é tão conhecido assim é que esses mesmos objetos podem apresentar lacunas em suas estruturas, lugares e caminhos em que não haja matéria.
Se partirmos para uma escala mais ampla, teremos que analisar o tempo e o espaço. Comecemos pelo último.
O espaço cósmico nos parece um infinito de…ahm, bem… um infinito de espaço, com estrelas, planetas, gases e outras coisas por vez ou outra. O que acontece é que um sem número de correntes eletromagnéticas, de energias que o olhos pode não enxergar, está naquela imensidão, espalhado de forma não linear, ou seja, porcamente falando, essas energias estão desorganizadas no infinito cósmico, isso significa que o espaço é como uma parede de concreto cheia de ranhuras e lapsos em sua estrutura.
Porém, é no tempo que existe a parte interessante. O tempo, segundo a Teoria Geral da Relatividade, pode ser comprimido ou expandido conforme o campo gravitacional, ou força eletromagnética, ao qual é submetido. Por exemplo, o tempo aqui na superfície da Terra corre mais lentamente (claro que muito pouco) que o tempo medido pelos satélites de GPS que gravitam o planeta, isso ocorre porque as forças gravitacionais a que estão submetidos são diferentes.
É difícil conceber a ideia de viajar ao passado, Stephen Hawking fala muito nisso, devido aos paradoxos possivelmente criados, como aquela história do filme De Volta para O Futuro, que os personagens não podiam deixar seus “eus” do passado encontrarem esses “eus” que voltavam no tempo. No entanto, viagens ao futuro, até seriam possíveis, se… se muitas coisas ainda acontecessem.
Há a teoria do Buraco de Minhoca (Wormhole), em que portais de energia (mas muita energia mesmo) seriam criados, curvando a dimensão espaço-tempo e transportando objetos, pessoas ou naves para lugares extremamente distantes no infinito desse espaço num piscar de olhos.
Agora, se isso tudo é assim, tão impreciso, não seria, do mesmo jeito, nossa mente? Você realmente acredita que sua mente é uma superfície plana, de pensamentos organizados e tangíveis? Acredita que não existe nenhuma fissura nesse emaranhado de ideias? Aliás, acredita que não existem lapsos, lugares tão vazios na mente que poderiam abrigar pensamentos intrusos ao que qualquer um chamaria de “Eu”?
Pensar é um processo complicado, exige energia, eletricidade, sinapses, movimento, e se isso tudo acontece, há um certo distúrbio na “gravidade” interna, entre os átomos envolvidos nisso, o que geraria curvas no espaço-tempo da nossa cabeça. Veja bem, isso são apenas elucubrações que me esforço pra transmitir, e sei que de maneira falha, mas se isso tudo ocorre dessa maneira, o ser humano nasce já propenso ao erro.
Isso ocorre porque com tantos distúrbios no espaço-tempo da mente de uma pessoa, o processo de entropia mental (uma espécie de desordem) tenderia ao infinito muito rapidamente (uma vida é rápida).
Sendo assim, meu querido e paciencioso leitor que me leu até o final deste post nojentinho, relaxa, o erro é culpa da física. E a física… bem, a física é culpa de deus, não é?
Milan Kundera e a existência
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“Tenho sempre diante dos olhos Tereza sentada sobre um tronco, acariciando a cabeça Karenin, e pensando no desvio da humanidade. Ao mesmo tempo, surge para mim uma outra imagem: Nietzsche esta saindo de um hotel em Turim. Vê diante de si um cavalo, e um cocheiro espancando-o com um chicote. Nietzsche se aproxima do cavalo, abraça-lhe o pescoço, e sob o olhar do cocheiro, explode em soluços. Isso aconteceu em 1889, e Nietzsche já estava também distanciado dos homens. Em outras palavras: foi precisamente nesse momento que se declarou sua doença mental. Mas, para mim, e justamente isso que confere ao gesto seu sentido profundo. Nietzsche veio pedir ao cavalo perdão por Descartes. Sua loucura (portanto seu divorcio da humanidade) começa no instante em que chora sobre o cavalo. E este Nietzsche que amo, da mesma forma que amo Tereza, acariciando em seus joelhos a cabeça de um cachorro mortalmente doente. Vejo-os lado a lado: os dois se afastam do caminho no qual a humanidade, “senhora e proprietária da natureza”, prossegue sua marcha para a frente.”
- A Insustentável Leveza do Ser
(Retirado do http://pt.wikiquote.org/wiki/Milan_Kundera )
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Relembrando algumas coisas do Kundera, me deparei com esse trecho do livro A Insustentável Leveza do Ser. Li esse livro quando ainda fazia faculdade de Direito em Cruz Alta, provavelmente em 2005. Marcou-me muito o estilo de escrita, o conteúdo tão intimista e filosófico, foi o primeiro livro do Milan Kundera que li, e foi à partir desse que virei fã do autor e li tudo dele que caiu nas minhas mãos até agora.
O trecho está, obviamente, descontextualizado, contudo, o importante, no momento, é a idéia principal e inicial que ele me traz à mente, e uma conclusão quase lógica e escatológica (sim, isso mesmo).
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O ser humano, essa enorme peste que habita o planetinha, transformou-se num parasita de primeira, e isso é irrefutável, só não enxerga quem tem demasiado orgulho de se sentir humano, quando, na verdade, poderíamos excluir o ‘humano’ e ficar apenas com o ‘ser’, um vivente pouco pensante.
Pois bem, mergulhado em diversas divagações, terminei por entender que, de fato, o que mais me encanta na humanidade é essa capacidade tão pouco explorada de cair na “loucura” e deixar que sensações, emoções e pensamentos tenham vazão, da forma que vierem à superfície, sem retaliações imediatas da mente, sem preconceitos.
Ao deixarmo-nos sentir e pensar o que se é levado a sentir e pensar no momento, sem se penitenciar por isso ou aquilo ser feio ou proibido, é que teremos a oportunidade única de observar quem somos, o que somos, como fomos nos construindo ano após ano e qual a idiossincrasia que vai nos por em contato com nossa própria cabecinha (não a de baixo).
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Acontece que tudo é tão feio e digno de repressão hoje. Ao passar por um negro mal vestido na rua um não pensa nada, outro pensa em segurar bem sua carteira, outro ainda pensa em linchamento, mas quem está errado? Quem está certo? Cada um passou por experiências únicas e sabe (na verdade não sabe, mas seu inconsciente deve saber) porque, instintivamente, age de tal forma.
Como um thelemita, me obrigo, a contragosto, a citar uma frase do Líber AL vel Legis: “A palavra de pecado é restrição”. Cada um sabe o que carrega dentro de si, e só terá luz para analisar o que há em seu cérebro quando deixar que as coisas venham à superfície.
Nietzsche sentiu algo incrível e irrefreável na cena descrita no trecho acima, assim como a personagem Tereza com o cão Karenin. E é assim, no limite, quando somos jogados ao extremo do colapso e desestruturação, que temos a ferramenta necessária para jogar luz ao âmago e perceber o que há em nós de tão humano (ou louco, se preferir).
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Particularmente, acho muito mais interessante aquela pessoa que percebe seus conflitos e os trata como parte de si e não do mundo, prefiro aquele que se olham sem medo àqueles que têm suas unhas cravadas no braço da poltrona com medo de sair de frente da televisão.
sensações áridas
2É a nudez do meu corpo
que mostra aonde está alma
que deixa as cicatrizes contarem onde estive
que deixa as formas falarem de quem sou
das vitórias e das derrotas
É o corpo nu, numa grama intocada
a natureza e só a natureza como ela sabe ser
sem medo, sem pudor, sem bem ou mal
Na grama tocando meus pés
no corpo sentindo o vento gelado duma noite crua
eu ouvi meu espírito conversar com as estrelas
e eles falavam de mim
e eles estavam tensos
Dos frutos podres – Parte Um
2Foi ontem ou anteontem, acordei perto das 07h da manhã para me arrumar para sair, fui até a cozinha esquentar água para um café e olhei pela janela, lá fora há uma bergamoteira, não está na minha casa, mas na casa do vizinho, contudo, a maior parte das frutas fica pro lado de cá. O que acontece é que, por não comer as bergamotas, a maioria delas apodreceu ainda no galho, e para que perceba aonde anda minha mente, eu tive alguns pensamentos um tanto peculiares.
Logo que vi esse cenário, pensei em mim, é claro. Sinto-me como uma dessas frutas que, sem conseguir se desvincular dessa rede infinita, sempre nutrida por algo envolvente, vai apodrecendo por tempos lentos e densos, sem saber precisamente como irá terminar. Vendo isso, temos duas opções para um fim: ou ser derrubado por um vento forte e terminar partindo ao meio no chão, com a queda não resta muito da fruta que já estava pútrida, a força do impacto, normalmente, é grande o suficiente para terminar com aquilo que dá características de uma fruta e transformá-la numa massa amorfa no chão; ou então ir secando, lentamente, secando e murchando, ficando escura, sem, contudo, se desligar da rede.
A segunda opção para o final que descrevi me parece a mais recorrente, a mais comum. Não são muitos aqueles que se percebem independentes, que conseguem, levemente, anular os efeitos autômatos do comprar e vender, e se vender; e são pouquíssimos aqueles que, tendo se apercebido nessa ilusão, conseguem se desvincular, esses são os frutos doces que logo são colhidos e têm um destino mais nobre. No entanto, eu falo dos que não têm força para fazer valer essa individualidade notada, e passam a vida secando, de dentro pra fora, murchando o espírito junto com a pele, perdendo o sabor enquanto assistem a uns frutos apodrecerem, a outros cairem, e assim por diante.
No nosso mundinho existem também aquelas pessoas que são folhas, nunca se tornarão frutos, passam a vida assistindo, sendo facilmente balançadas por qualquer brisa. E o destino mais belo para uma folha dessas é ser arrancada da árvore e voar alto com o vento, talvez essa tenha sorte de se transformar em matéria orgânica que alimentará uma causa maior, talvez ela mesmo se degrade e suas células se tornem parte de frutos vindouros.
Coloquei a água no café solúvel e voltei ao quarto para terminar de me arrumar.
