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Viagem a Cruz Alta
2Notei o quanto estou perdendo a habilidade de meditar e de ser uma pessoa paciente ontem à noite, no ônibus, vindo para Cruz Alta. Mal tinha saído de Chapecó e já queria fazer alguma coisa, além de ouvir música do mp3.
Pensei em acender a luz e fazer palavra cruzada, ou ler (pela trilionésima vez) O Guardador de Rebanhos do Fernando Pessoa (ou seria do Alberto Caeiro?), ou ligar o notebook e escrever, ou jogar Neverwinter Nights, enfim, nada me dizia para ficar sem fazer nada, exceto a moça que viajou do meu lado. Não, ela não me disse para que eu ficasse quieto, até porque eu ainda estava quieto, mas ela estava num estado entre sono e vigília, assim todos do ônibus pareciam estar (a não ser o motorista, eu espero), um silêncio protestava contra minha ansiedade, e é proibido fumar dentro dum ônibus.
Então o que eu fiz foi fechar os olhinhos, respirar em pranayama (certo que só depois de usar meu descongestionante nasal), e tentar tirar a consciência do corpo, isso nunca falhou. Dormi tanto, a viagem toda, acho que acordei quando o ônibus parou em duas rodoviárias apenas, e por pouco não acordo quando ele chegou aqui em Cruz Alta.
quero acordar sendo galáxia
0Flui como um mistério
Corre como um desatino
Vem pensamento e sai palavra
E eu nem percebo o que me é dito
Pois é através de mim que falam
E essas palavras não são minhas
Ao abismo indecifrável
0Acima do prédio, ele estava no parapeito do terraço. Olhava para baixo, apenas algumas luzes na avenida movimentada ele conseguia observar, pois, além da enorme altura em que estava, o vento gelado fazia seus olhos lacrimejarem, atrapalhando a visão.
Como disse, ventava, muito, gelado. Seus cabelos voavam desordenadamente, e até em sua barba sentia o vento. Absorto em um mundo impensável, ele percebeu novamente seu corpo por um frio na espinha. Ao acordar de seus devaneios, tirou a camiseta e a soltou de lá mesmo, para o chão.
Assistiu a queda daquele pedaço de tecido, não muito barato. Ia caindo sem direção certa, às vezes flutuava um pouco, mas normalmente ia sendo tragado pelas rajadas. Lembrou-se de sua vida, sempre fora carregado como aquela camiseta, inerte e impotente, seguia a corrente, descaracterizado de si mesmo, vivera às custas das decisões alheias. Fantoche, robô, respondia a estímulos externos sem reagir por si, cada escolha fora feita por influência de seus pais.
Impotente!! Gritava para si mesmo.
Impotente!! Gritava para o mundo, sabendo que ninguém lhe escutaria.
Em um acesso de fúria, voltou ao centro do terraço, correndo, tremendo, não pelo frio que sentia, mas pelo sentimento inominável. Era indecifrável para si mesmo, um mundo de infinitas possibilidades, e ele temia sua própria infinitude. Pegou um tijolo que estava lá, provavelmente pela construção ainda incompleta de um jardinzinho, e o jogou na torre de antenas. O bloco bateu nas grades de ferro e se despedaçou, estilhaços se espalharam pelo ar.
“Minha consciência é o conjunto desses estilhaços: se todos juntos, sou impassível e letárgico; entretanto, quando provocados por uma ação, separa-se em milhares de pensamentos, consciências difusas dentro de mim mesmo, perco o foco, fico inócuo, inconcusso. O inferno se estabelece em mim, perco-me. Paranóia!!”
Juntou um pedaço grande do tijolo. Rabiscou no chão uma frase:
“Ao mundo indecifrável, devoro o fogo que me consome, conquisto minha independência”
Pensava que aquela era a primeira e última vez que tomava uma decisão por si só.
Largou o bloco. Levantou-se, algumas lágrimas, estufou o peito como um guerreiro que enfrentará sozinho uma tropa. Correu até o parapeito e, no ato mais covarde, como ainda teve tempo de reconhecê-lo como tal, saltou contra a vida.
Segundos, milésimos de segundos, antes de perder a consciência, percebeu a infantilidade de sua atitude. Questionara-se: se foi capaz de tal ação, do que mais não seria capaz? A maior das covardias alicerçada numa intransponível coragem.
Caiu, já inconsciente, sobre o meio fio da calçada.
Finado Mr. Money.