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Parte Oitava – Interlúdio

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Chegamos no templo naquele dia, completamente vazio o lugar, completamente vazia minha alma, esta, porém, não de uma forma triste ou melancólica, era um vazio racional, mais para a compreensão, mais para a presença de tudo em vez do nada.

Acreditava-me em plena aventura agora, oscilando entre humores e pensamentos contraditórios, quase excludentes.

Enquanto caminhávamos pela entrada de chão batido, cercada por uma grama extremamente verde, eu lançava olhares superficiais para as folhas que me foram entregues. E foi nessa distração proposital que paramos em frente a uma cabana. Em pé, na frente da porta, estava um senhor de uns cinquenta anos, com barba por fazer há mais de uma semana e cabelos compridos, ruivos, presos. O homem tinha cerca de um metro e oitenta de altura, tinha aparência vigorosa e sorridente.

A Bê percebeu a presença dele antes de mim, e já se adiantou em direção a ele, que a cumprimentou calorosamente: certamente sabia da nossa visita. Eu cheguei logo em seguida para cumprimentá-lo. Ele falava um portunhol forçoso, tinha sotaque de britânico nos seus erres e vogais.

Ali, naquele momento único, eu percebi onde tudo se ligava. Das raízes de Thelema, do instrutor ao discípulo, eu acabara de ser enviado para a cidade das minhas mais íntimas pretensões, ali encontraria o triunfo sobre meus anseios ou a desistência mais inexorável.

- Como tu cresceste, Daniel, lembro-me de quanto íamos na tua casa, nas festas de final de ano, eu e minha esposa. Seus pais nos eram muito amigos antes de se mudarem, e eu enxergava, desde o dia em que reparaste na minha aura, que tu tomarias tal caminho.

- Então você conhece meus pais? Mas eu não lembro de você, nem da sua esposa. Disse isso meio desconfiado, tentando disfarçar o receio da minha voz, com insucesso.

- A Marta conheceu tua mãe quando foi fazer a matrícula do nosso filho no colégio, tua mãe estava lá fazendo a tua. Uns dias depois eu conheci teu pai em uma reunião, logo ficamos chegados, e eu sabia que não era coincidência, na época não soube avaliar minha responsabilidade nessa empresa, mas hoje consigo enxergar.

Olhou-me com olhos de alegria, olhou para a Bê logo em seguida.

Eu me senti estranhamente em casa, despido de coisas desnecessárias que há tempos vinha carregando, era o vazio mais profundo e completo que poderia experimentar, lembrei da história do monge que “acordara” para o mundo espiritual quando recebera um tapa de seu mestre, como as coisas podiam ser simples e corriqueiras, tanto que, normalmente, nas confusões da nossa rotina, passam por nós desapercebidas.

Convidou-nos para entrar antes de nos apresentar o lugar, nos ofereceu chá e alguns biscoitos. Ele percebeu meu olhar de curiosidade para o salame pendurado ao lado da geladeira. Eles tinham luz lá, e ele me explicou que nem todos eram vegetarianos, santos, monges, budistas, algumas pessoas simplesmente passavam alguns dias de descanso por lá, assim como nós.

Enquanto colocava um tênis, falou, como quem comenta fatos diários, que eu deveria decorar algumas passagens dos papéis que me foram entregues, também foi sucinto ao citar as práticas que deveriam ser realizadas, impreterivelmente, ao nascer do sol, ao meio-dia, ao pôr-do-sol e à meia-noite, a prática constava no Liber Resh vel Helios, e que em uma semana eu deveria receber o próximo grau da ordem em uma cerimônia mágicka.

Eu lembro daquela semana como a mais viva de todas que tive até hoje, a mais cheia de cores e de sons, de cheiros e de sensações, e a perfeição disso tudo se misturava às obrigações mágicas e aos deveres domésticos daquela parte do templo. Tudo era um imenso ritual, cheio de significado por todos os lados.

O transe de uma situação muito bem preparada é terrivelmente superior ao transe obtido por acaso numa exaltação momentânea do espírito. Nunca terei subtraído de mim as visões e vozes daquela noite, minha consciência superlativa, um poder quase sobrenatural, e minhas noites jamais tiveram o mesmo gosto de intervalo, de morte.

Continuo sem coragem de comentar sobre essa viagem com qualquer pessoa que não seja a Bê, nem mesmo perguntei aos meus pais acerca do britânico Alexander, casa com a brasileira Marta, contudo, às vezes me parece que eles sabem de tudo, às vezes me parece que muitas outras pessoas sabem, e penso que estou constantemente sendo vigiado e preparado para uma prova maior.

[Veja também: Válvula de Escape]

O Lobo da Estepe

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Pois então, acabo de ler O Lobo da Estepe, de Hermann Hesse. É o terceiro livro que leio desse alemão, possivelmente escreverei outro dia sobre os outros dois (Demian e Sidarta), livros estes que, assim como este último que li, foram marcos em minha vida, como chamam comumente, divisores de água.
O talento de Hesse era natural, via-se que se fazia simples e dinâmico em seu modo de escrever, tanto nos romances quanto nos poemas que tive a oportunidade de ler. As palavras, as histórias, a musicalidade e a genialidade corriam livremente pelo poeta alemão, provavelmente pela rigidez com que o audacioso auto-didata trazia consigo.
Filho de pais protestantes, extremamente religiosos, Hermann foi na contra-mão do cristianismo que lhe tentariam impôr. Não só se opôs ao que seus pais acreditavam, como seguiu um caminho de estudos espirituais pela índia (lendo Sidarta podemos ter a idéia) e, também, de psicanálise junguiana (de certa forma exposto em Demian e o próprio Lobo da Estepe).
Os poemas de Hesse eram sem igual, talvez sejam dos melhores que já li, muitos deles dedicados a sua mãe, pela qual tinha imenso carinho. Porém, a profundidade dos seus romances é o que mais surpreende. O autor narra a história com maestria, descreve hábitos e vícios de personagens, vai além e, visceralmente, esmiuça a psique dos personagens; porém, ele vai além, ele transcende o psíquico, o emocional e o físico.
Hermann tinha o dom de dar aos seus romances climas extasiantes, tendo inebriantes momentos de absorção completa naquele mundo. Quando lemos o Lobo da Estepe somos jogados dentro de um mundo confuso de um homem acima dos cinqüenta anos, um solitário e triste homem, que vê em si mesmo um homem maduro e racional mas também um Lobo de instintos e selvageria. Nessa dicotomia se descobre muito mais que dois, vê-se repartido em milhares de Harry (nome do personagem principal), e ingressa numa jornada mágica de auto-descoberta, ajudado por pessoas que aparecem em sua vida num momento crucial.
Hermínia é a grande Beatriz da personagem, e Pablo, provavelmente, o Virgílio. Jogam o homem-lobo para situações que ele evitaria, mas se dispõe a enfrentar medos que aos olhos de muitos pareceriam bobos, mas não a ele, não ao lobo solitário nem ao homem nada sociável.
Harry descobre haver alegria ainda, descobre sobre o teatro da loucura, sem razão, que é tudo que lhe envolve. Num misticismo cheio de voluptuosidade e frenesi, dignos de Macário, Harry completa sua jornada pelas portas de sua vida, e entende a verdade em si, ou de si, ou do mundo, enfim… isso é algo que o leitor deve concluir por si, eu mesmo não tirei conclusões. Talvez me falte maturidade ainda para me conhecer dentro dos meus próprios corredores psíquicos, ou anímicos. O que me torna ainda apenas um homem e um lobo.
Teatro Mágico: entrada só para loucos.
Enquanto isso, continuo tentando barganhar meu ingresso pra esse espetáculo.

quem dera fosse Kundera

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Ele tentava insistentemente entender a causa da sua existência. Caminhava de um lado pro outro no seu quarto, depois resolveu fechar todas as cortinas, a porta, escurecer ao máximo o ambiente. Ainda eram 6 horas da tarde, havia um pouco de sol ainda, mas ele não queria. Com a penumbra e o silêncio, sentou-se num canto, não desejava o centro, como sempre fazia, aquilo lhe lembrava naquele instante uma espécie de palco, queria ficar escondido, não queria que sua vida o visse, não queria que deus o enxergasse, queria tangenciar o costumeiro e vislumbrar por fora.
Riu-se daquilo tudo num desespero comum àqueles que se sentem solitários. Trazia em si muitas marcas, e já não encontrava um traço nelas que lhe remetesse ao início de toda aquela confusão. Não sabia onde, mas em algum lugar de sua vida havia perdido o senso de humanidade, não sabia mais conviver com as pessoas, vestia uma máscara extremamente simpática e convincente para o trato exterior, mas em si mesmo era um tirano, cabia-lhe muito esforço tolerar a si mesmo, e pedia desculpas ao mundo por estar ali, sentia culpa de sua existência indevida.
O ar estava morno ali dentro, mas lá fora estava frio.
Sentado, no canto do quarto, com as pernas esticadas, olhava a escuridão que, apesar de aumentar com o pôr-do-sol, parecia diminuir, pois seus olhos começavam a se acostumar. Via os pontos luminosos dançando na sua frente, em todo lugar, aqueles malditos pontos luminosos que tanto fizeram parte de seu imaginário.
Pensava, não, melhor, refletia acerca de si mesmo. Acabava, porém, perdendo-se por dentro, e voltava, era infinito.
Como assim? De repente nascemos, somos jogados num mundo sem saber como nem porquê, depois buscamos ao menos saber pra onde vamos e isso também nos é escondido. Tudo foi sendo jogado de um modo tão ao acaso, cada minúcia era sem sentido, estava interligado com tudo em vida, bem sabia, no entanto, se fosse diferente, tudo diferente, também estaria. A completude da vacuidade interna era tão justificável quanto injustificável, como se a cada decisão no seu mundo estivesse sendo levado ao caminho justamente oposto ao desejado, ao pensado, ao imaginado.
Como um caos, numa sucessão de impossíveis descobertas de si mesmo, continuava observando as luzes. Resolveu fechar os olhos, uma lágrima se lhe escapara. Era tão amarga, só podia ser assim: sou igualmente amargo por dentro.
Elas lhe vinham ao quarto, elas se despiam, elas queriam carinho depois do sexo. Ele as levava ao exaustivo do prazer, percebia o corpo delas se retorcendo, desfalecidas de luxúria. Ali, e somente ali, sentia certa chispa de vida se lhe iluminar os olhos. Entretanto, no momento seguinte, não suportava aquelas trocas de carinho, queria vê-las se vestindo e indo embora, se fossem prostitutas as pagaria de bom grado para que o deixassem. Associar sexo com amor era-lhe impossível, aquele cheiro de sexo o agradava mais do que a mão da mulher tentando lhe agradecer os momentos vividos. Elas, carentes de atenção; ele, de vida.
Debruçou-se sobre os joelhos agora dobrados. Não queria ser assim, não era desejo seu tanta frieza, se é que assim se pode chamar. Estava quase em posição fetal, aquilo lhe confortava, não queria ter saído do mundo dos sonhos de seus pais, preferiria ter sido apenas uma idéia e não um ser vivente. Agora não era mais uma lágrima, era um choro contínuo e quietamente desesperado. Por que gritar se a única pessoa que queria que ouvisse seu pranto era sua alma, ele sentia falta de uma alma que pudesse sentir algo além daquilo. Sempre mais do mesmo.
Perdera a conta de quantas vezes tentara voar, quebrar tudo o que era e buscar a si mesmo enveredando por sua mente, sua alma, seu espírito. Quanta coisa conseguira, quantos transes, quantos insights, mas agora, ao contrário de anos anteriores, aquilo tudo se lhe apresentava constantemente, era o tempo todo assim, e já não mais lhe configurava um prazer como antigamente, era-lhe, pois, uma tortura perceber os porquês e os mecanismos sistemáticos que se escondiam por trás de cada detalhe.
A vida era uma equação não integrável, não derivável. Conseguia se aperceber de quase tudo com uma sistematicidade impecável, porém, ao se tratar de seu próprio sentido como ser humano, falhava invariavelmente.
Desejou dormir naquele estado, ser levado para esferas mais altas de consciência, um lugar em que pudesse vislumbrar um porque daquilo tudo. Só que aquela loucura já lhe atingira tantas vezes, e sabia que não seria levado a lugar nenhum, contudo, mantinha esperança.
Aquele vazio ia crescendo, ia tomando lugar, expulsando para a periferia de si aquilo que havia na sua consciência. Comprimia tudo na abóbada do seu limite, e a tensão ia crescendo. Insuportável. Queria desfalecer, queria chegar à coroa de si. Uma serpente lhe apertava o corpo todo, e ele lutava com unhas e dentes para no fim ver sua derrota, novamente.
Levantou a cabeça, enxugou os olhos, ergueu-se e foi abrir o quarto para o ar noturno entrar. Só queria respirar antes da noitada que viria.

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