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Sexta-feira santa
1Sexta-feira santa, coisa linda não é?
Era pra ser um dia de respeito (para os cristãos ao menos) e compaixão, afinal, o maior mártir do mundo católico, evangélico e essas outras igrejas que existem, morreu nessa data. Não sei quando se convencionou que a carne era proibida na sexta-feira santa (outros não comem durante toda a semana), o fato é que se come carne, a não ser que não partamos do princípio de que peixe é animal. Será que pensam que ele é uma espécie de “fruto” do mar?
Enfim, a morte já deveria estar saturada na mente daqueles que crêem em Jesus e todas as histórias da bíblia; porém, é exatamente nesses dias que se sente pelas ruas, lixos, cozinhas e casas inteiras um cheiro típico de peixe morto. Ora, quanta compaixão não é? Poupemos, ao menos um dia, o gado, as ovelhas e os porcos e matemos peixes, porque pescado não é feio matar. Certo?
Não sei aonde eu me perdi nisso tudo. Ele nasceu dia 25 de dezembro, correto? Mas morreu quando? Sexta-feira santa. Mas que dia é Sexta-feira santa? Não tem data fixa. Alguém explica a este pobre blogueiro?
Também, li que não se deve gritar, escutar música alta, ser indecoroso; e que se deve procurar ser mais introspectivo, educado, talvez até jejuar. Quanta beatitude, não é? Só não entendi em qual parte das práticas de boas maneiras da semana santa se encaixa a matança de peixes pra comer.
Alguém que esteja disposto a explicar com clareza e paciência essas e outras perguntinhas, por favor, ilumine isso aqui, sinta-se a vontade.
(in)condenável
0E, quando a hora chegar,
Contemplarás uma verdade,
Tão bela a sinceridade
Do que hás de provar.
Será veneno, ainda que não
Se assemelhe; e, ao entorpecer,
Poderás, então, perceber
A proximidade perdida em vão.
Ritmo perdido não musica
Em compassos desencontrados,
Reencontrem-se: harmonizados;
Vês, pois, a consciência impudica?
Ao abismo indecifrável
0Acima do prédio, ele estava no parapeito do terraço. Olhava para baixo, apenas algumas luzes na avenida movimentada ele conseguia observar, pois, além da enorme altura em que estava, o vento gelado fazia seus olhos lacrimejarem, atrapalhando a visão.
Como disse, ventava, muito, gelado. Seus cabelos voavam desordenadamente, e até em sua barba sentia o vento. Absorto em um mundo impensável, ele percebeu novamente seu corpo por um frio na espinha. Ao acordar de seus devaneios, tirou a camiseta e a soltou de lá mesmo, para o chão.
Assistiu a queda daquele pedaço de tecido, não muito barato. Ia caindo sem direção certa, às vezes flutuava um pouco, mas normalmente ia sendo tragado pelas rajadas. Lembrou-se de sua vida, sempre fora carregado como aquela camiseta, inerte e impotente, seguia a corrente, descaracterizado de si mesmo, vivera às custas das decisões alheias. Fantoche, robô, respondia a estímulos externos sem reagir por si, cada escolha fora feita por influência de seus pais.
Impotente!! Gritava para si mesmo.
Impotente!! Gritava para o mundo, sabendo que ninguém lhe escutaria.
Em um acesso de fúria, voltou ao centro do terraço, correndo, tremendo, não pelo frio que sentia, mas pelo sentimento inominável. Era indecifrável para si mesmo, um mundo de infinitas possibilidades, e ele temia sua própria infinitude. Pegou um tijolo que estava lá, provavelmente pela construção ainda incompleta de um jardinzinho, e o jogou na torre de antenas. O bloco bateu nas grades de ferro e se despedaçou, estilhaços se espalharam pelo ar.
“Minha consciência é o conjunto desses estilhaços: se todos juntos, sou impassível e letárgico; entretanto, quando provocados por uma ação, separa-se em milhares de pensamentos, consciências difusas dentro de mim mesmo, perco o foco, fico inócuo, inconcusso. O inferno se estabelece em mim, perco-me. Paranóia!!”
Juntou um pedaço grande do tijolo. Rabiscou no chão uma frase:
“Ao mundo indecifrável, devoro o fogo que me consome, conquisto minha independência”
Pensava que aquela era a primeira e última vez que tomava uma decisão por si só.
Largou o bloco. Levantou-se, algumas lágrimas, estufou o peito como um guerreiro que enfrentará sozinho uma tropa. Correu até o parapeito e, no ato mais covarde, como ainda teve tempo de reconhecê-lo como tal, saltou contra a vida.
Segundos, milésimos de segundos, antes de perder a consciência, percebeu a infantilidade de sua atitude. Questionara-se: se foi capaz de tal ação, do que mais não seria capaz? A maior das covardias alicerçada numa intransponível coragem.
Caiu, já inconsciente, sobre o meio fio da calçada.
Finado Mr. Money.
Simples assim
1Deixe-se perder, consciência vaga,
Inexata na tua insanidade,
Desencontrada em tanta idade;
Surge-me, pois, mais uma chaga.
À noite, pensei estar curado
Dessa cósmica maldição,
Que se me traz desolação:
Meu espírito, meu nobre fardo.
Dói-me a alma inconstante:
Aquieta tua imensidão,
Permite-me ser são.
- São sombras incessantes
Saboreando-se sobre mim,
Assim, só, simiesco arlequim.
Mesal Va!!
0Com tua própria identidade.
És o que não queres, pois por ti querem.
Tuas belezas se chocam e se perdem.
Fecha teus olhos, abre a mente.
Vê? Há Paz terna e inocente.
Deixa, não podem te alcançar,
O dissabor deles é não te tocar.
Percebe que não há correntes,
Exceto aquelas que tu mesmo prendes;
Sente, teu coração ainda pulsa,
Viva mais, consciência avulsa.
O teu espírito, não o vendas,
Suporta tuas próprias contendas.
Da forma que quiseres podes seguir,
Teu fardo é a mais nada permitir.