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Parte Quarta

3

                Olhar para dentro de si com uma paisagem como a que podíamos ver em Buenos Aires era, no mínimo, disperdício do momento. Quando descemos do avião, no aeroporto ainda, vimos aquele movimento de pessoas notavelmente diferentes no modo de se vestir, de se portar, era, como diziam, a Europa da América do Sul.

                Pegamos um Taxi até o centro da cidade, sem um lugar específico para ficar. No caminho passamos por praças com gramados verdes e bem cuidados, um ar de liberdade pairava no ar. O clima estava bom, nem quente nem frio, sem chuvas. Era sábado, pessoas passeavam pela rua com os cachorros, numa das praças vimos um grupo de pessoas praticando kung-fu ao ar livre.

                Descemos perto da Casa Rosada, então caminhamos até a Praça de Maio, onde um rapaz tocava violão e cantava músicas dos Beatles com um sotaque bastante peculiar. Ele era bastante afinado, mas apenas umas poucas pessoas paravam para ficar assistindo.

                De fato, não havia nada de extraordinário naquilo tudo. Claro, era uma paisagem linda, um lugar completamente diferente, éramos completos desconhecidos naquele cenário de tangos, mas especificamente nada de excepcional poderia ser citado. Ainda desconheço as razões pelas quais as pessoas se sentem mais em contato consigo mesmas quando se encontram longe de sua terra natal, talvez seja exatamente devido ao fato de se ser um estranho, um desconhecido, alguém despojado de suas fantasias e máscaras criadas para viver no seu meio, sendo assim, poder-se-ia ser livre para construir novas formas de ser, criar um personagem novo só para si, e ninguém poderia julgá-lo, pois não teriam outro ponto de referência, senão aquele.

                Na Avenida de Maio continuamos caminhando. Desde o taxi até então nossas conversas foram amistosas, sem entrar em assuntos delicados, comentamos sobre o visual dos argentinos, sobre a limpeza das ruas, sobre os monumentos e sobre o patriotismo forte e aguerrido dos hermanos. Passamos pelo Café Tortoni e resolvemos entrar para conhecer o lugar e, se não fosse muito caro, comer algo.

                Por fim, resolvemos comer algo por ali, já era fim de tarde mas não haviam restaurantes abertos ainda para jantar. Pedi um café expresso e um salgado.

                – Se perdermos o rumo do que caminhamos até aqui podemos ficar completamente desajustados, despersonalizados. Já pensou nisso?

                Ela me olhou com um olhar indagador e respondeu:

                – Está falando da viagem? Olha, eu sei que não há nada planejado aqui, e isso é o interessante, mas dizer que ficaremos desajustados se nos perdermos nessa falta de planejamento é um pouco de exagero, não acha?

                – Não me refiro à viagem. Respondi olhando para o café enquanto o mexia. Falo de nós mesmos, dos passos que demos desde aqueles dias de adolescência até hoje. E se tudo que fizemos até agora foi tão somente uma negação daquilo que nos dá medo? E se nos desviamos daquilo que mais quisemos?

                – Fala de sonhos?

                – Falo de sonhos, de projetos, de vontades, enfim.

                – Mas e se o caminho certo for renunciar a determinadas coisas que desejamos? Já que os finais não podem ser vislumbrados, como podemos entender o que fazemos agora? Acho que o mais certo é sermos sinceros com nossa alma.

                Eu não entendi nada do que ela disse, não consegui acompanhar o pensamento e ver aonde ela queria chegar. Parei com um olhar de dúvida e ela viu que devia continuar.

                – Falo que se desejamos algo hoje, isso pode não ser assim pra sempre, e a certeza de que se não está incorrendo em erro é deixar uma vontade superior correr nossa mente e nos guiar. O momento é o correto, sempre, por isso temos que estar atentos a nós mesmos.

                – Acho bonito isso tudo…

                – Lembra do Siddarta do Hermann Hesse? É preciso ouvir ao rio, perceber o que ele tem para nos dizer.

                – Acho bonito isso tudo, mas para mim parece muito distante a idéia de poder se escutar sem ter interferência de caprichos, estamos o tempo todo sendo atrapalhados por frivolidades.

                – Concordo. Porém, ao se tomar consciência disso, podemos separar o que é de nosso espírito e o que é do nosso ego. São divisas tênues, delicadas, eu bem sei, mas é possível determinar.

                – Eu já estive nessas divisas, mas parece que me recolhi da guerra, é cansativo permanecer atento tanto tempo, empurrando o que nos jogam, as banalidades.

                – Depois de um tempo se acostuma.

                – Acostuma: ficamos frios.

                – Não sei se é bem isso.

                – Não sei sobre meu caminho. Estar aqui, hoje, me tira muitos pesos do que sou, da minha idiossincrasia edificada. Só de estar aberto a essas perguntas já me alivia e me faz ver o pouco que se abre em mim quando desentulho minha mente.

                Ela me olhou com um olhar quase maternal, como quem se alegra pelo outro, como quem diz “você está indo pelo caminho certo”, compreensiva, tive a impressão de que ela visse tormentos passados dela dentro de mim neste instante. Limitou-se a responder:

                – Não vá se perder mexendo esse café.

                – Estou aumentando a entropia do universo. Respondi, sorrindo, enquanto chegavam os salgados que havíamos pedido.

               

[Veja Também: Válvula de Escape]

Parte Primeira

3

                Tudo bem que era uma hora da madrugada, o tempo continuava feio, raios cortavam o céu escuro e iluminavam a noite, iluminavam a vida. Eu disse tempo feio? Pois bem, não sei, sentir aquela eletricidade me fez bem, espantou um pouco do marasmo da alma, e eu criei ânimo para ligar pro Lúcio.

                Naquela rodoviária imunda eu pensei em comer alguma coisa antes de pegar o táxi e ir até onde o Lúcio disse para que eu fosse, mas pensei que seria melhor continuar em jejum. Peguei o táxi e dei o endereço da tal da Débora, que era onde estavam. Quando o carro parou, eu paguei os quinze reais, desci minha mochila e minha mala e parei na frente do prédio. Era cheio de vidros escuros, uma construção visivelmente nova, e eu via o reflexo de cada relâmpago que momentaneamente iluminava a noite.

                Liguei de novo para o celular do Lúcio, só que dessa vez ele não atendeu, então toquei no interfone do apartamento. Quando uma voz feminina atendeu eu ouvi uma barulheira no fundo, não consegui distinguir muita coisa, “Quem fala?” perguntou ela, eu perguntei de volta “Débora?”, ela riu e disse que não era a Débora. Eu disse “ah, sou amigo do”, então ela me interrompeu “sim sim, do Lúcio. Vê se abre aí”, eu abri o portão de ferro, caminhei por um corredor largo, com plantas, muito bem cuidado, mais além estava o porteiro voltando dos fundos daquele lugar, ele cumprimentou, provavelmente deduzindo que eu estava indo pra festa. Subi o elevador com as malas nas mãos, na subida ainda consegui passar um perfume.

                Quando entrei não vi o Lúcio, mas a garota que falou comigo no interfone, a Cacá, me recebeu e já me apresentou pra vários amigos, todos foram muito simpáticos comigo, como se eu não soubesse dos efeitos do álcool e de outras coisas mais. A Cacá, devo dizer, era maravilhosa, linda, e estava um pouco bêbada, mas eu via que era só álcool, ela me apresentou a Débora, que me disse que “teu amigo falou muito sobre ti, fez muita propaganda” e deu uma risada e me ofereceu o quarto dos pais dela pra que eu deixasse minhas malas, lá ninguém entraria.

                O Lúcio estava ocupado, a Cacá me disse com uma risada maliciosa me servindo um copo de whisky com energético. Eu puxei um cigarro e ela me pediu o fogo. Ela não me deixou um segundo sozinho, e eu já esquecia da minha angústia interior, estava deslumbrado, ou, no mínimo, ocupado demais com aquelas novidades para que pudesse pensar para dentro. Eu respirava o perfume dela, misturado com o cheiro do cigarro.

                Depois de muitos whiskies e, de alguma forma que não sei mais explicar, depois de beijar muito a Cacá, o Lúcio finalmente apareceu, acompanhado. Já estávamos todos bêbados, o pessoal começou a sair do apartamento, iam pra uma festa em algum lugar da Cidade Baixa. Porém, eu, a Cacá, o Lúcio e a guria que estava com ele, a Débora e o Gui, ficante dela, não saímos. Era 3:15 da madrugada, tínhamos ainda algum pouco de whisky e energético e muitos cigarros. Conversamos um bom tempo ainda, rimos muito, eu fui para um quarto com a Cacá, ela adormeceu às 06h mais ou menos, eu ainda levantei e fui tomar uma água. Ninguém na sala nem na cozinha, provavelmente tinham ido fazer o mesmo que nós dois.

                Acordei no outro dia com o Lúcio me chamando. Era duas da tarde, eu não sentia ressaca, mas sentia uma angústia, talvez tenha tido um sonho ruim, apesar da noite incrivelmente agradável. Nos despedimos das gurias que estavam lá ainda e fomos para a rua, o Gui nos acompanhou até perto do mercado público. Era um dia de sol, daqueles que se sente o calor úmido da água acumulada nas calçadas, nos prédios, nos ossos. Ali perto subimos no apartamento do Lúcio e eu deixei minhas malas, como não tinha nada para comer e ambos estávamos morrendo de fome, precisando de uma coca-cola bem gelada, resolvemos descer num café ali perto comer umas empadas que, segundo o parceiro, eram muito boas e baratas.

                Foi no café, pouco depois de comer, quando conversávamos sobre a noite, meio ressaqueados mas bem, que eu olhei pra porta e, como se não acreditasse, pisquei involuntariamente e tornei a olhar com maior precisão. A Bê entrando no café foi como retornar pra Cruz Alta, pras festas, alguém conhecido de tempos num lugar daqueles, naquela circunstância não poderia ser irrelevante. Levantei pra chamar ela, pensando que ela não tivesse nos visto, e o Lúcio ficou me olhando ainda mastigando uma empada de carne moída.

[Vá agora para: Válvula de Escape]

Lei anti-fumo

2

Sério, como assim proibir que se fume dentro de bares ou boates? O cheiro incomoda algumas pessoas, eu sei, mas tenho plena certeza que um bêbado chato incomoda várias vezes mais. Sério, proibir o cigarro em bares é eficaz para o Ministério da Saúde? Para mim não, eficaz seria proibir a fabricação dos cigarros, mas isso eu não quero.

Vi entrevistas nas ruas de São Paulo sobre a proibição do cigarro em bares e boates de São Paulo, as pessoas entrevistadas, sem exceção, ressaltaram unicamente o fato de que o cigarro tem um cheiro forte (fedido?) e isso incomoda. Nem uma rica alma lembrou-se de que o Ministério da Saúde busca uma diminuição nos gastos de tratamento de pessoas com problemas devido ao fumo passivo.

É óbvio que essa lei só será eficaz se forem fiscalizados os estabelecimentos, entretanto, devo dizer, temos um exemplo bem recente de lei que não deu certo. A tolerância zero do álcool ao volante existe ainda, mas aquele fervor do início já foi esquecido, a fiscalização foi deixada de lado quase totalmente, e as pessoas continuam dirigindo após beberem, estando ou não estando bêbadas. E isso não mata mais que fumar passivamente?

O mais ridículo foi um bar que apareceu na televisão onde foi pintada uma faixa amarela limitando onde se pode ou não fumar. Claro, uns trinta centímetros são o suficiente para impedir a fumaça do cigarro de chegar aos outros.

Pois então, se existem aqueles que estão incomodados com o cigarro nos bares e boates, eu levanto e digo que me sinto incomodade com os bêbados fiasquentos, com as pessoas grosseiras, com os músicos ruins, todas essas espécimes que se acham nas noites das cidades. Então, posso exigir que se proiba a bebida para que os bêbados não surjam nos incomodando, ou que seja proibida a entrada ou permanência de bêbados dentro dos estabelecimentos. Tenho ainda mais propriedade para pedir o veto das pessoas grosseiras nos bares e boates, aquelas que brigam, que empurram, que são intencionalmente mal-educadas e toda sorte desses descorteses que têm hábitos noturnos.

Um parágrafo especial para manifestar meu desejo de proibir que músicos ruins toquem nos bares ou boates. Se uns se incomodam com o cigarro, eu me incomodo muito com músicos e músicas ruins. Penso que a música toca tão facilmente as emoções das pessoas que essas ofensas aos ouvidos possam causar tanto mal quant o fumo passivo. Posso até fazer uma advertência: O Ministério da Saúde adverte, músico ruim causa ansiedade, estresse e raiva.

Vamos proibir, vamos segregar, quem fuma vem aqui, quem bebe vai ali, quem é grosseiro vai pro galinheiro e músico ruim vai pra câmara de gás.

whiter shade of pale

1

Ele olhou em volta, havia tantas portas, uma infinidade, um sem número, incontáveis e todas da mesma forma. Nenhuma inscrição, nenhum número de identificação, entretanto, em cada uma havia uma, podemos assim dizer, aura diferente. Ele deveria, pela primeira vez, refutar toda sua racionalidade e, finalmente, mergulhar na sua incosciência e sensibilidade, descobrir o que cada uma lhe traria sem saber o que havia por trás. Uma vez escolhida a porta, as outras se trancariam eternamente, talvez tivessem entradas por outras salas, mas isso é só uma hipótese.
Pobre, tinha tanta dificuldade em se despir da sua razão e apenas sentir o que elas lhe diziam que ficou tanto tempo parado, sem sequer se aproximar, tendenciosamente, de uma delas.
Por fim, resolveu obedecer a um impulso ignoto, coisa de animal, o tipo de sentimento que ele costumava relevar, ou omitir, ou até mesmo esconder de si mesmo. Aproximou-se de uma das portas e, lentamente, começou a ser invadido por um saudosismo. Mas aquilo não tinha sentido algum, era uma sala cheia de portas, fechadas, sem janelas, uma parca luz vinda de algum lugar, era óbvio que sentiria uma sensação do tipo, seria jogado para a infância, lugares na memória onde se sentiria confortável e seguro.
No entanto, as lembranças ficavam cada vez mais nítidas. Lembrou-se de um dos dias em que saiu pela rua com seus amigos para fazer nada, tinham todos entre dez e onze anos, compraram uma coca-cola e vários salgadinhos, e caminharam em direção a praça. Era perto das cinco horas da tarde, o horário de verão ainda não havia começado, em cerca de uma hora iria escurecer, e eles se sentiam livres, leves, donos de si, com guloseimas e um mundo imenso ao seu redor.
Havia um cheiro suave das árvores ao redor, e eles sentaram no banco da praça, estavam entre quatro. O clima não era mais tão frio, era agradável, havia um vento não tão suave vindo do sul, e eles conversavam sobre rock and roll, sobre as namoradinhas da sexta série. Tudo era divertido, cheio de ingenuidade.
Ele se afastou da porta. Sentiu a tristeza de olhar para trás, tinha a certeza de que jamais teria anos tão felizes quanto aqueles da sua juventude.
Sentia um aperto no coração, literalmente, parecia que se lhe houvessem socado no peito não seria tão ruim. O amargo o fez recuar e se dirigir para uma porta mais à esquerda. Ao chegar perto sentiu um cheiro de comida, era carne de panela e feijão. Parecia que podia tocar no cenário, mas se via um adolescente agora, já tinha quinze anos, era meio-dia e chegara do colégio para almoçar, sua mãe preparava o almoço, e ele estava brigado com seu pai, já manifestava os primeiros sinais de auto-afirmação. Olhava para o pátio da casa e observava as nuvens escuras chegando rapidamente com o vento, em breve iria chover, e ele poderia ficar o dia inteiro em casa, sem fazer nada de especial. Sentia naquilo tudo um vazio, ali começara sua derrocada, naqueles momentos sóbrios de ociosidade infrutífera, iniciara ali seu afastamento do mundo, o pequeno lobo aprendendo a ser selvagem, mostrando os dentes.
Afastou-se dessa porta também, não sabia o que mais lhe doía, se era a saudade de tempos incontestavelmente ótimos ou o reconhecimento de erros tão distante e pueris que, mesmo podendo ser concertados, demandariam um esforço quase sobre-humano em sua psique. Ele já era matéria sólida, sua teimosia em si mesmo residia como um parasita lhe sugando uma seiva vital.
Permaneceu um tempo parado no centro da sala oval, olhando para o chão, vendo a luz fraca se espalhar. Batalhava contra si mesmo, o lobo queria dar um jeito de sair do jogo, estava cansado e precisava morder alguma coisa, o homem queria saber de cada porta, o que elas significavam e outras tantas coisas.
Num esforço, voltou-se para trás e foi rapidamente para outra porta. Tocou nela, sentiu sua textura, era madeira, cedro, espessa, escura, fria. Aquela frieza o lembrou de tempos não tão distantes, das suas buscas vãs por um espírito satisfeito, por uma alma sadia, mas o mais perto que chegou foi do sadismo. Havia sexo ali, e só sexo, já não conhecia o amor apaixonado da adolescência, nem o amor comedido dos seus vinte anos. Já estava com vinte e cinco, recém formado, trabalhava e ganhava um dinheiro bom. Saía aos finais de semana com os poucos amigos que tinha, e estes ele sempre os mantinha a certa distância com medo não se sabe de que. No seu quarto só entravam mulheres, às vezes até mais de uma na mesma noite. Era sexo, e só sexo. Sentia falta do amor, e esse vazio o fazia distante, satisfazia-as com prazer, mas nunca com sentimento, não por maldade, mas por impossibilidade. Já nao era apto ao verbo amar.
Meditava, outras vezes, com seus exercícios espirituais, sem nunca saber ao certo se estaria fazendo a estrada correta. E essa dúvida revivida o fez recuar da porta e pensar que poderia ter seguido por escolhas erradas atrás de outras também erradas, enganando-se de porta em porta, já não poderia voltar nem mesmo imaginar alguma outra hipótese de vida.
Com toda certeza, aquela foi a porta que mais lhe esvaziou os sentimentos. Não era dor, era comedimento e resignação. O lobo estava angustiado, já babava de raiva, mas o homem sufocava o instinto, e a ira ficava contida.
Resolveu tentar outra vez. Havia uma porta reto a sua direita, e ele se dirigiu para lá. Ao chegar bem perto, sentiu nada, absolutamente nada. Era como se ficasse envolto de uma luz totalmente branca, a maior alvidez possível, o próprio princípio da luz. E já não sabia quantificar o espaço ou o tempo, não sabia se situar em coordenadas ou dimensões.
Havia cansado de memórias, de lamentações. As ilusões eram as mesmas, invariavelmente. As lembranças estariam sempre ali para ele se lamentar de suas escolhas, sem nem ao menos lhe ser permitido saber se teria possibilidade de ter feitos caminhos diferentes. Às vezes acreditava que não podia, nunca, ter feito nada diferente, se lhe dessem mil ocasiões repetidas, ele seria impelido por forças incognoscíveis a fazer mil vezes exatamente o mesmo.
Ah,ele abriu a porta e entrou, resoluto.

fauna foda

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Funciona mais ou menos assim: você coloca uma bactéria em um meio de cultura, espera algum tempo e depois verifica que houve um crescimento exponencial. Simples assim, não sei se precisa mais do que 30 minutos pra determinar por quanto tempo as bactérias vão ficar ali sem que os nutrientes se esgotem.
Há quanto tempo habitamos isso aqui, uns 28 minutos, talvez?
Acho extremamente interessante não nos apercebemos da nossa pequenez, da nossa miudeza. Quem disse que somos seres elevados errou terrivelmente, ou acertou, se nos comparou com um peixe, quem sabe. Prefiro, ainda assim, o pensameno de Nietzsche, ou do Zaratustra, que o homem é para o sobre-homem (essa sim seria a raça elevada) o que o macaco é para o primeiro.
Porém, enquanto humanos, somos suscetíveis a erros e mais erros, o que não nos livra da culpa de não tentarmos nos superar. Você consegue enxergar o quão parecidos com bactérias somos?
Vê a nossa parasitagem? Olhe como somos autômatos, respondedores de estímulos, manipulados, basta um passeio na rua: alguém sem desejo nenhum vê outro alguém comendo um sorvete, o primeiro agora tem um desejo, quer sorvete. Macaquinho sabe dançar.
Saber reconhecer a si mesmo como esse animalzinho limitado e pobre, invariavelmente um parasita, uma inconveniência para muitas espécies vegetais e animais (e isso inclui a nós mesmos), é o primeiro passo pra tentar uma mudança interna, começar a atravessar a corda bamba que nos leva até o sobre-homem.
Agora, veja só, o crescimento exponencial está aí, não irei buscar fontes para colocar aqui números precisos e seguros do quanto crescemos nos útlimos tempos, mas tenha certeza, somos perfeitamente comparáveis às bactérias; elas, no entanto, sabem se adaptar muito melhor.
Vamos lá macaquinho, dê orgulho pra mamãe e aprenda a usar o polegar.
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