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Parte Sexta

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                Era um olhar intenso, porém, desprovido de qualquer intenção perceptível, era frio e intrigante. Suas sobrancelhas arqueadas deixavam seus olhos ainda mais vivos, parecia uma mulher que beirava os quarenta anos, conservava em si uma beleza madura, mas era estranha.

                Algo me atraía naquela mulher, não era propriamente a beleza dela, pois que ela não era, de fato, linda, mas tinha uma sexualidade que a denunciava como um halo sobre sua cabeça. Minha atenção era para sua expressão, que denunciava um segredo querendo ser contado, um mistério pedindo para ser revelado. Nessa atração incoerente eu me vi perdido. A Bê me olhou, pois havia diminuído o passo.

                – Vou ali falar com aquela mulher. Eu disse a ela.

                – Como assim? Ela respondeu, com um misto de espanto e graça, e continuou, agora mais convicta de que eu estava apenas brincando. E o que tu vais dizer pra ela? Vais, por acaso, cantar a mulher aqui? Eu fico esperando, não tem problema. E riu.

                – Não sei o que dizer. E não, eu não vou cantar ela.

                Já estávamos quase em frente a ela quando a Bê parou. Eu dei mais três passos e parei bem na frente da mulher, que se levantou, me olhou fixo por alguns breves segundos que pareceram cheios de significado. Seus olhos perspicazes analisaram minha fisionomia rápida e friamente, eu o percebi como se fossem revirados meus pensamentos e idéias.

                – Marta. E o seu?

                – Daniel. Respondi com calma na voz, mas com a respiração um pouco nervosa, nesse momento nem percebi o sotaque gaúcho dela, que não era correntina, como descobri horas depois.

A Bê estava olhando.

                – Eu sei da estranheza da situação, vir a me encontrar aqui, assim, quase por acaso. Uma pausa na fala dela, e uma pausa em mim mesmo, estava suspenso  e confuso. Se você perdeu sua visão, você não tropeça em alguma coisa uma vez só, mas continuaria tropeçando de novo até recobrar o sentido perdido. Deve conhecer essa frase.

                – Sim, é de um comentário do Crowley aos probacionistas da Golden Dawn.

                – Pois bem, até então você tropeçou, vem tropeçando há tempos, e agora conseguiu assumir a responsabilidade de se encarar. A Ordem se move por modos sutis, e nesse mundo de câmeras e internet e informação, ficava fácil rastrear nossos membros. Pois bem, foi-me dado isto para lhe entregar, e espero que seja útil.

                Recebi nas mãos o embrulho, leve, provavelmente algumas cartas, rituais, não sei, não quis abri-lo ali. A Bê estava quase ao meu lado já, e observava Marta com curiosidade, e esta também lhe voltou os olhos. Como eu estava nervoso, a Bê parece ter assumido minhas palavras e convidou a Marta para ir a algum restaurante, ou bar, acrescentou que já sentia fome novamente e seria ótimo ter uma companhia para nós dois.

                Fomos até um um bar ali perto, bem bonito, com mesas e cadeiras de aço na calçada, mas devido ao vento gelado resolvemos entrar. Ficamos numa mesa perto do janelão de vidro, de frente pra rua. Pedimos uma cerveja e uma porção de filé.

                Eu tinha a impressão de já conhecer aquela mulher. Certamente ela era brasileira, quase tinha certeza de que era gaúcha. Eu tinha amigos thelemitas, tinha parentes em Porto Alegre, enfim, o mundo é pequeno, às vezes as coisas podem parecer incríveis mas ao se investigar um pouco a fantasia cai por terra, e a simplicidade toma conta novamente. A simplicidade é como uma Lei da Física, ondas eletromagnéticas procuram o meio mais rápido e curto para se propagar, nós, infelizmente, nem sempre seguimos tal hipótese, e isso parece incorrer em diversos contratempos e estresses psicológicos.

                Ficamos um tempo ali sentados, e eu estava dentro do pacote, sem abrí-lo. Meus olhos, meus pensamentos, por momentos insustentáveis ficaram presos naquele pacotinho, e naquele tempo esqueci de qualquer outra coisa, era como um encantamento. Ouvia apenas as vozes das duas belas mulheres comigo, e somente sexo me tiraria a atenção dessa surpresa. Marta era bonita ao seu modo, Bê era linda de vários modos, mas eu não podia pensar em sexo com nenhuma das duas, apesar de não ter visto nenhum anel de noivada ou casamento na mão da Marta.

                Finalmente me dei contade de que deveríamos sair dali, não sabia quanto tempo demoraria para ir de taxi até o aeroporto. A nossa aparição correntina nos ofereceu carona até o aeroporto, o que poupou-nos uns bons pesos argentinos. Fui no banco da frente, então entrei na conversa e deixei de lado um pouco o embrulho. Perguntei quem havia pedido a ela que me fizesse essa entrega, ela desconversou, falou de rituais, de símbolos, tudo conhecido por mim e pela Bê. Eu sabia que o que os Mestre da Ordem Interna decidissem não seria tão facilmente divulgado, logo me contentei com o que tinha até aqui. O pacote continuava fechado.

                Ao nos deixar no aeroporto me entregou um cartão, e, enquanto eu o lia, ela se despedia da minha companheira de viagem com um abraço. No cartão dizia que ela era advogada, tinha números de um escritório, de seu celular e um e-mail, além do nome completo: Marta de Souza.

                Às 23h estávamos dentro do avião, cheirando a cerveja e cigarro. Queria abrir logo aquele pacote, não sabia se devia fazê-lo sozinho ou na frente da Bê. Ficar sozinho nesse vai-e-vem seria difícil. Resolvi abrir logo depois da decolagem, antes do sono chegar.

 

[Veja Também: Válvula de Escape]

Parte Quinta

3

                – Não, senta que eu quero te contar uma coisa. Falei enquanto agarrava seu braço. Por mais inexato que possa parecer, isso não é uma fuga de nada, muito menos de mim, e espero que isso se abra dessa forma pra ti também. Não é uma fuga, é uma busca. Siddarta precisou sair do seu meio para se reconhecer, Crowley ficou tempos fora, na história do Zaratustra ele foi para as montanhas, em várias outras pessoas encontraremos essa constante. Não é uma fuga, é uma busca, e eu quero que tu vá comigo fazer isso, talvez eu seja covarde para ir sozinho, ou talvez eu simplesmente pense que tu deve estar lá ao mesmo tempo.

                Não sabia como me fazer entender por ela, éramos estranhos um ao outro, contudo, algo nos prendia como uma corrente de espinhos. O rumo da viagem não era tão certo, tão objetivo, mas justamente essa suspensão do controle sobre os fatos é que nos deixaria nus o suficiente para reconhecer o que havia para ser reconhecido, se é que isso existia.

                Ela me respondeu que isso parecia um livro do Paulo Coelho, e eu respondi “e por que não encarar assim?”, eu não me sentia desconfortável em me ver dessa forma externa, com defeitos e qualidades, tinha consciência dessas coisas, tanto que sabia que faltava algo. Se eu pudesse, sentiria pena daqueles que passam a vida contentes com o pouco que têm em si, sem buscar o que há por trás dos véus da mente, dos olhos, da percepção física e autômota a que somos submetidos e confinados. Se eu pudesse sentiria pena, acho que meu sentimento estava mais para asco, e daí vinha minha amargura, que a Bê confundia com revolta, com fuga.

                Aos poucos ela pareceu ir desistindo da idéia de voltar para casa.

                Saímos do café e passeamos mais um pouco, agora longe dos pontos turísticos. Contei do que acontecera comigo nos anos em que estive fora da cidade, das namoradas, das crises, dos meus vínculos com a magia e ordens espirituais, dos sucessos e insucessos com algumas experiências ritualísticas e meditativas, etc. Por essas aventuras, que sabia que ela também passara, eu queria que ela fosse comigo a Córdova. Apesar das nossas conversas não conseguirem atingir os pontos anímicos que eu queria, pois nossa comunicação é tão limitada, sabia que nos entendíamos, ou, ao menos, nos entenderíamos em algum momento.

                O ocaso vermelho estava no fim, e o frio começava a tomar espaço com um vento gelado. Paramos numa lan house, na frente havia um orelhão, de onde liguei para o aeroporto para saber do próximo vôo para Córdova: once horas de la noche, respondeu a atendente. Era quase sete e meia da noite, tínhamos ainda mais de três horas por lá e nenhum lugar para ficar.

                Depois de sair da lan, caminhamos até chegar na Praça da Liberdade. Já estava escuro, mas o lugar era bem iluminado, vi um grupo de pessoas num banco fumando, bebendo e falando alto, eram roqueiros, todos tinham um estilo meio glam rock, e havia um violão escorado ao lado deles. Mais perto de nós havia uma mulher sentada sozinha, olhando diretamente para nós. Ela não fazia nada, quero dizer, não tinha livro nas mãos, não bebia nem fumava nada, não ouvia música, apenas olhava diretamente para nós como se quisesse falar conosco, como se soubesse que estaríamos ali. Uma sensação estranha percorreu meu corpo junto com uma brisa gelada.

 

[Veja também: Válvula de Escape]

Parte Quarta

3

                Olhar para dentro de si com uma paisagem como a que podíamos ver em Buenos Aires era, no mínimo, disperdício do momento. Quando descemos do avião, no aeroporto ainda, vimos aquele movimento de pessoas notavelmente diferentes no modo de se vestir, de se portar, era, como diziam, a Europa da América do Sul.

                Pegamos um Taxi até o centro da cidade, sem um lugar específico para ficar. No caminho passamos por praças com gramados verdes e bem cuidados, um ar de liberdade pairava no ar. O clima estava bom, nem quente nem frio, sem chuvas. Era sábado, pessoas passeavam pela rua com os cachorros, numa das praças vimos um grupo de pessoas praticando kung-fu ao ar livre.

                Descemos perto da Casa Rosada, então caminhamos até a Praça de Maio, onde um rapaz tocava violão e cantava músicas dos Beatles com um sotaque bastante peculiar. Ele era bastante afinado, mas apenas umas poucas pessoas paravam para ficar assistindo.

                De fato, não havia nada de extraordinário naquilo tudo. Claro, era uma paisagem linda, um lugar completamente diferente, éramos completos desconhecidos naquele cenário de tangos, mas especificamente nada de excepcional poderia ser citado. Ainda desconheço as razões pelas quais as pessoas se sentem mais em contato consigo mesmas quando se encontram longe de sua terra natal, talvez seja exatamente devido ao fato de se ser um estranho, um desconhecido, alguém despojado de suas fantasias e máscaras criadas para viver no seu meio, sendo assim, poder-se-ia ser livre para construir novas formas de ser, criar um personagem novo só para si, e ninguém poderia julgá-lo, pois não teriam outro ponto de referência, senão aquele.

                Na Avenida de Maio continuamos caminhando. Desde o taxi até então nossas conversas foram amistosas, sem entrar em assuntos delicados, comentamos sobre o visual dos argentinos, sobre a limpeza das ruas, sobre os monumentos e sobre o patriotismo forte e aguerrido dos hermanos. Passamos pelo Café Tortoni e resolvemos entrar para conhecer o lugar e, se não fosse muito caro, comer algo.

                Por fim, resolvemos comer algo por ali, já era fim de tarde mas não haviam restaurantes abertos ainda para jantar. Pedi um café expresso e um salgado.

                – Se perdermos o rumo do que caminhamos até aqui podemos ficar completamente desajustados, despersonalizados. Já pensou nisso?

                Ela me olhou com um olhar indagador e respondeu:

                – Está falando da viagem? Olha, eu sei que não há nada planejado aqui, e isso é o interessante, mas dizer que ficaremos desajustados se nos perdermos nessa falta de planejamento é um pouco de exagero, não acha?

                – Não me refiro à viagem. Respondi olhando para o café enquanto o mexia. Falo de nós mesmos, dos passos que demos desde aqueles dias de adolescência até hoje. E se tudo que fizemos até agora foi tão somente uma negação daquilo que nos dá medo? E se nos desviamos daquilo que mais quisemos?

                – Fala de sonhos?

                – Falo de sonhos, de projetos, de vontades, enfim.

                – Mas e se o caminho certo for renunciar a determinadas coisas que desejamos? Já que os finais não podem ser vislumbrados, como podemos entender o que fazemos agora? Acho que o mais certo é sermos sinceros com nossa alma.

                Eu não entendi nada do que ela disse, não consegui acompanhar o pensamento e ver aonde ela queria chegar. Parei com um olhar de dúvida e ela viu que devia continuar.

                – Falo que se desejamos algo hoje, isso pode não ser assim pra sempre, e a certeza de que se não está incorrendo em erro é deixar uma vontade superior correr nossa mente e nos guiar. O momento é o correto, sempre, por isso temos que estar atentos a nós mesmos.

                – Acho bonito isso tudo…

                – Lembra do Siddarta do Hermann Hesse? É preciso ouvir ao rio, perceber o que ele tem para nos dizer.

                – Acho bonito isso tudo, mas para mim parece muito distante a idéia de poder se escutar sem ter interferência de caprichos, estamos o tempo todo sendo atrapalhados por frivolidades.

                – Concordo. Porém, ao se tomar consciência disso, podemos separar o que é de nosso espírito e o que é do nosso ego. São divisas tênues, delicadas, eu bem sei, mas é possível determinar.

                – Eu já estive nessas divisas, mas parece que me recolhi da guerra, é cansativo permanecer atento tanto tempo, empurrando o que nos jogam, as banalidades.

                – Depois de um tempo se acostuma.

                – Acostuma: ficamos frios.

                – Não sei se é bem isso.

                – Não sei sobre meu caminho. Estar aqui, hoje, me tira muitos pesos do que sou, da minha idiossincrasia edificada. Só de estar aberto a essas perguntas já me alivia e me faz ver o pouco que se abre em mim quando desentulho minha mente.

                Ela me olhou com um olhar quase maternal, como quem se alegra pelo outro, como quem diz “você está indo pelo caminho certo”, compreensiva, tive a impressão de que ela visse tormentos passados dela dentro de mim neste instante. Limitou-se a responder:

                – Não vá se perder mexendo esse café.

                – Estou aumentando a entropia do universo. Respondi, sorrindo, enquanto chegavam os salgados que havíamos pedido.

               

[Veja Também: Válvula de Escape]

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