Posts tagged aventura

Parte Quinta

3

                – Não, senta que eu quero te contar uma coisa. Falei enquanto agarrava seu braço. Por mais inexato que possa parecer, isso não é uma fuga de nada, muito menos de mim, e espero que isso se abra dessa forma pra ti também. Não é uma fuga, é uma busca. Siddarta precisou sair do seu meio para se reconhecer, Crowley ficou tempos fora, na história do Zaratustra ele foi para as montanhas, em várias outras pessoas encontraremos essa constante. Não é uma fuga, é uma busca, e eu quero que tu vá comigo fazer isso, talvez eu seja covarde para ir sozinho, ou talvez eu simplesmente pense que tu deve estar lá ao mesmo tempo.

                Não sabia como me fazer entender por ela, éramos estranhos um ao outro, contudo, algo nos prendia como uma corrente de espinhos. O rumo da viagem não era tão certo, tão objetivo, mas justamente essa suspensão do controle sobre os fatos é que nos deixaria nus o suficiente para reconhecer o que havia para ser reconhecido, se é que isso existia.

                Ela me respondeu que isso parecia um livro do Paulo Coelho, e eu respondi “e por que não encarar assim?”, eu não me sentia desconfortável em me ver dessa forma externa, com defeitos e qualidades, tinha consciência dessas coisas, tanto que sabia que faltava algo. Se eu pudesse, sentiria pena daqueles que passam a vida contentes com o pouco que têm em si, sem buscar o que há por trás dos véus da mente, dos olhos, da percepção física e autômota a que somos submetidos e confinados. Se eu pudesse sentiria pena, acho que meu sentimento estava mais para asco, e daí vinha minha amargura, que a Bê confundia com revolta, com fuga.

                Aos poucos ela pareceu ir desistindo da idéia de voltar para casa.

                Saímos do café e passeamos mais um pouco, agora longe dos pontos turísticos. Contei do que acontecera comigo nos anos em que estive fora da cidade, das namoradas, das crises, dos meus vínculos com a magia e ordens espirituais, dos sucessos e insucessos com algumas experiências ritualísticas e meditativas, etc. Por essas aventuras, que sabia que ela também passara, eu queria que ela fosse comigo a Córdova. Apesar das nossas conversas não conseguirem atingir os pontos anímicos que eu queria, pois nossa comunicação é tão limitada, sabia que nos entendíamos, ou, ao menos, nos entenderíamos em algum momento.

                O ocaso vermelho estava no fim, e o frio começava a tomar espaço com um vento gelado. Paramos numa lan house, na frente havia um orelhão, de onde liguei para o aeroporto para saber do próximo vôo para Córdova: once horas de la noche, respondeu a atendente. Era quase sete e meia da noite, tínhamos ainda mais de três horas por lá e nenhum lugar para ficar.

                Depois de sair da lan, caminhamos até chegar na Praça da Liberdade. Já estava escuro, mas o lugar era bem iluminado, vi um grupo de pessoas num banco fumando, bebendo e falando alto, eram roqueiros, todos tinham um estilo meio glam rock, e havia um violão escorado ao lado deles. Mais perto de nós havia uma mulher sentada sozinha, olhando diretamente para nós. Ela não fazia nada, quero dizer, não tinha livro nas mãos, não bebia nem fumava nada, não ouvia música, apenas olhava diretamente para nós como se quisesse falar conosco, como se soubesse que estaríamos ali. Uma sensação estranha percorreu meu corpo junto com uma brisa gelada.

 

[Veja também: Válvula de Escape]

Parte Terceira

3

                Mais por impulso do que qualquer outra coisa eu disse em voz alta, vou pra Córdova. Nisso não havia nada de instrospectivo, nada de premeditado e nenhuma intenção, ao menos consciente, era puro e simples impulso despretensioso.

                A Bê me olhou com olhos que não eu não soube entender, então perguntou se eu estava falando sério. Falando sério? Eu não sabia se me levava a sério também, resolvi prosseguir na idéia sem dar muito crédito ao que dizia, respondi que sim. Dessa vez vi que ela ficou séria.

                Depois de persistir, meio jocoso, na idéia descabida, comecei a acreditar na própria invenção, e enquanto a Bê saiu do meu lado para fumar um cigarro na janela, eu acessei o site do Aeroporto Salgado Filho. Descobri que não haviam vôos para Córdova, teria, portanto, que pegar um avião de Porto Alegre para Buenos Aires, e de lá ir para Córdova.

                Virei para a janela onde a Bê estava fumando, ela olhava para fora, pensando sabe-se lá no que. Eu comecei a gostar da idéia de viajar, contudo, provavelmente por medo, não queria ir sozinho, aceitaria de bom grado a companhia dela.

                Aquela noite não dormi direito. É engraçado como uma novidade muda a vida de um homem, talvez esse seja o segredo para que se mantenha o ânimo, se não se age com ímpeto, com ousadia, buscando novidades, submerge-se nos pântanos viscosos do tédio e do marasmo, e lá se morre pouco a pouco. Eu estava morrendo quando percebi isso, e como quem segura a corda de algum herói, eu estava extasiado para ser jogado para fora da minha fantasia interna.

                Liguei para minha família avisando que às 14h40 voaria para Buenos Aires. Informar a eles, e não pedir, parecia meio estranho, e, devo dizer, sentiram-se até aliviados quando disse que viajaria e que iria acompanhado da Bê. Há tempos eles ficam felizes quando digo que vou sair de casa, fazer pequenas aventuras, não gostam de me ver trancado no meu quarto, chegaram a me oferecer um depósito na minha conta, mas disse que não precisava, que tinha economizado um bom dinheiro “trancado em casa”.

                Acordar com olhos de aventura é como renascer, é como tornar a ser criança, e assim se reconhece a alegria como algo de si, a minha, porém, erguia-se tímida por detrás dos morros de insegurança, timidez e impaciência. Depois que a angústia toma uma alma para si é difícil florescer algo mais, ela é como um parasita; mas essa aurora foi diferente, nela eu vi o sol como uma estrela, seis raios iluminavam um amanhecer depois dos dias de chuva.

                Não havia muita coisa pronta para uma viagem dessas, não posso dizer que quando embarquei estava pronto, à vontade com a Bê, nem que não pensava em desistir. Porém, estava ansioso, divididamente ansioso, e resolvi que já não era hora de parar. Ao entrar no avião essa ansiedade excessiva passou, e consegui dormir boa parte da viagem.

Pouco conversei com a Bê durante o vôo. Ela me parecia animada e resoluta, decidida. Aos poucos, desde ontem quando decidimos a viagem até o momento, ela foi se revelando diante de mim como uma pessoa que eu não conhecia, fui retirando, lentamente, a névoa das minhas memórias e expectativas de, através dela, resgatar um passado, e assim fui enxergando com mais clareza. Duas pequenas almas juntas numa jornada demasiadamente inusitada, e se a razão não nos cobria a alma, o espírito trazia energia para seguir em frente. Eu balançava dentro de mim e contemplava o universo imenso que havia no âmago.

 

[Vá para: Válvula de Escape]

Zaratustra, de novo

0

Falemos de Nietzsche, ou melhor, do Zaratustra, o übermensch. Se alguém não leu o Assim Falou Zaratustra, de Nietzsche, leia, pois está perdendo tempo, o clássico é irrefutavelmente importante para a evolução pessoal de cada um. Se não gostar, saiba que, com certeza, teve lições mesmo inconscientemente.
Pois bem, Zaratustra era um jovem profeta (mas o livro termina com ele já velho), uma pessoa que passou tempos isolado nas montanhas, com seus animais, a serpente e a águia – use sua própria mente para interpretar esses símbolos, ou, se quiser crer que eram apenas animais mesmo, que seja assim.
Zaratustra volta, um dia, ao povoado. Fala do sobre-homem (Übermensch), de que o homem de hoje é uma ponte entre os macacos e o idealizado sobre-homem, este que era a superação da espécie, mas, sobretudo, destaca-se a capacidade dele de superar a si mesmo, um guerreiro (“Seja o vosso trabalho uma luta! Seja a vossa paz uma vitória!”).
As aventuras do protagonista passam por diversas fases, formas, aspectos e introspecções. Ele se torna famoso e, por isso, um quer se tornar sua sombra, e muitos o procuram buscando sabedoria. Ah, como era incrível aquele sábio.
Mas o mais importante de todo o livro é o conceito do Sobre-homem, alguém que deve sempre superar a si mesmo. Não crendo em além-mundos (vida após a morte), o ceticismo de Nietzsche trazia toda a luta para o agora, para o instante atual, sem fugas, sem escapes, era enfrentar, ganhar ou perder, não tinha outra opção, e esse que enfrenta é o Sobre-homem – “Aquele que pensa passa pelo meio dos homens como por entre animais”.
A beleza do livro é incrível, uma estética bíblica e poética, um misto de força viril e intensidade emocional. Surpreendente até o fim, chegando até a ser, em certos momentos, perturbador.
Enfim, leia. E, depois, medite sobre e busque o Übermensch dentro de você, guiado pela luz do profeta Zaratustra, aquele que dizia que se havia, de fato, um deus, como poderia ele aceitar não o ser também.

Übermensch

0

Devo escrever
antes que passe
antes que escape
antes que…
inconstância, eu te bendigo, sagro-te
tu és, assim, minha aventura
ventura dum solilóquio
vim ao mundo num monólogo
e assim permaneço
brilha, brilha estrelinha
nessa casa sem teto

http://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%9Cbermensch

vita

1

Abruptamente afastado
De todas minhas virtudes,
Vi-me nessas vicissitudes
Em completo difuso estado.

Vidas dentro de uma criatura:
Todas as possibilidades,
Quero vivê-las, em verdades,
Sincera e vasta aventura.

Um sonho e um desejo;
Um caminho, à vontade,
Desse ímpeto que invade
Meu ânimo em lampejo.

Embriologicamente infinito:
Vivo várias vidas vis,
Outras tantas sutis,Para entender tudo que sinto

Page 1 of 212
Go to Top


Faça parte da nossa comunidade no Facebook
basta clicar em "Curtir".