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Diálogo I

1

                

 

Era de lembranças vazias que vivia. Aquela noite ele quis dá-las de presente. Era tudo o que possuía de verdade, seus bens mais preciosos, e oferecê-las era abrir sua alma de forma que não poderia voltar atrás; era tudo que podia dar e, ainda que pensasse que aquilo, de fato, era um ato de doação, que era presenteá-la com seu âmago, atirando-se num abismo de lembranças, era ele mesmo quem se presenteava.

Aconteceu que no dia do seu aniversário eles jantaram juntos e, após a janta, sentados na sacada que dava para a rua onde, vez ou outra, um carro passava interrompendo o tom suave de confidência da conversa e a lua despontava minguando entre dois prédios altos, ele lhe contou coisas que permaneciam enterradas, coisas que só ousava remexer sozinho mas que, não obstante, faziam parte de suas noites de insônia, tão freqüentes quanto os dias de vento norte.

Engole isso, acalme-se, dizia de si para si, diariamente. Todos lidam com seus demônios internos. Acalme-se! Não alimente com sangue quente essas bestas!

Era do quão humano era e o quanto se sentia pequeno e impotente diante da sua alma tão universal, porém, tão alquebrada, que falava. Cada constelação era uma cicatriz no seu íntimo; as estrelas, os pontos da operação. Um sol ardia em seu peito, um sol que brilhava melancolicamente sozinho, querendo abraçar o mundo numas vezes; noutras, querendo explodir em toneladas de destruição.

- Eu tenho medo desse seu lado – ela dizia. Tenho medo de não conseguir acalmar essa fera que está em seu peito.

Ele dizia “calma, está tudo sob controle” como quem fala do papai Noel para uma criança.

Criança… via-se quando criança, era cheio de energia e alegria. Onde aconteceu o rompimento? Em que lugar foram abandonadas a inocência e a esperança?

Brincava na rua com os amigos, anos mais tarde era o amigo beberrão divertido, depois o homem ocupado, mas sempre se lembrava dessa semente vermelha que brotava na escuridão do seu ser. De todos os dias que podia lembrar de sua vida, via sempre aquela faísca insustentável nos seus olhos, como quem sabe de um segredo mas não compartilhará. Ele sabia que conhecia esse segredo, mas não podia se recordar de nada… nada.

Eram muitas vidas em uma. Queria gritar para que aquela criança que fora lhe ouvisse, ela saberia guiá-lo naquela queda acelerada através da escuridão do abismo.

Deu uma tragada no cigarro enquanto segurava a xícara de café com a outra mão.

- Eu não entendo como isso acontece, têm dias… melhor, têm horas que sinto um aperto no peito, como se um verme se alimentasse das minhas entranhas. De repente, vejo-me um réptil, uma gota, uma poeira estelar, um caçador interglacial, ou talvez uma célula dele, ou a própria causa da Glaciação Wiscosin, o que for. Por vezes, sinto-me circundando o universo, abrangendo tudo, e vejo as coisas com tanta paz e clareza; noutras, sou circundado por elétrons, uma parte tão ínfima de tudo que sinto que só posso obedecer às leis da inércia ou da gravidade.

Estou caindo. Eu sou a queda.

Freud parecia dar demasiada importância para a sexualidade, da mesma forma procediam os vedantas, os monges, os magos, os tantras et Cetera. Excedendo ou anulando, o sexo parecia ser chave para a liberdade e para o entendimento, mas ele nunca encontrara no sexo essa superconsciência; era prazer, domínio, som, cheiro e tato, ritmo e gozo, depois tudo voltava ao normal. Às vezes, pior.

Cansara de fugas, de álcool e das drogas, dos transes e das abstrações. Queria abrir os olhos para enfrentar o que era seu e ele insistia em se escapar.

A vida ia se abrindo, ia se rasgando como um véu de tecido fino, queimando e estalando como o seu cigarro. E o presente era seu, de si para si.

Ela ouvia, tentava entender aquela alma complicada, feliz por ter sido escolhida por ele para compartilhar aquilo; insegura, porém, sem saber como proceder com aquele universo que se abria no meio, recolhendo-a, permitindo sua entrada.

Ele abria ao meio seu universo como um filhote quebra a casca do ovo para sair ao mundo. Abraxas, eu sempre lembro. Tudo era pesado e lento, doloroso e quase insustentável.

- Às vezes penso que vou quebrar.

- Eu me sinto incapaz de te ajudar. O que posso fazer? Perguntava ela.

Ele respondia “nada”, sabendo que era mentira. Ela existia e lhe ouvia como quem deve ouvir a si mesmo, como quem ouve Vivaldi, e essa era a ajuda; e quebrar a casca era cair em um abismo perigoso, solitário e necessário.

- Por vezes me sinto tão universal que colapso sobre mim, um Big Crunch. Sou dois, três, muitos com a mesma intensidade que sou só um perdido entre milhões, incapaz de navegar apenas numa direção correta, à deriva, num oceano vasto demais para uma vida. Sinto que nunca realizarei minhas possibilidades.

- Dizem que quem não sabe para onde vai qualquer direção serve e…

- Ou nenhuma serve; ou, ainda, não tenho direção, navego em um círculo eternamente perfeito, olhando sempre para as mesmas paisagens que as estações se encarregam de mudar as sombras, criando a ilusão de que realmente estou mudando mas…

- Mas na verdade não está, não é mesmo?

- Acho que no fundo nunca mudei, de verdade. Creio, aliás, que à poucos de nós é permitida a mudança.

- Como não mudou?!

- Sim. Essas mudanças aparentes já são parte de mim, sinto como se estivessem guardadas em algum lugar, esperando, prontas para assumir o controle do que sou.

- Muitas vidas em uma… você me parece Fernando Pessoa.

Muitas vidas em uma… às vezes ele sentia que todas essas vidas se abraçavam e se atiravam com ele naquele abismo. Nada havia à frente, ou, talvez, apenas não enxergasse um fim próximo, prestes a lhe bater no rosto com uma força descomunal.

Muitas vidas em uma… como pode? Tudo parecia uma série de sonhos, ora concatenados com perfeição, ora revelando vacâncias terríveis, lapsos assustadores. Mas não eram sonhos, pois dormir era mais quieto.

Tinha as mãos amarradas para si, enxergava tudo ao seu redor, mas não lhe era permitido ter controle sobre sua alma. O Atman, ele acreditou, o Inner Self, o SAG, o Daeimonos, o que for, era aquilo que deveria governá-lo; cada ação, cada gesto, cada pensamento, cada emoção… tudo era controlado por algo que não compreendia, e ia para o diabo o livre arbítrio.

- Por que o mundo é assim? – Perguntou ele, depois de um tempo em silêncio enquanto soprava a fumaça do cigarro que terminava. – Por que somos assim?

- Se existe uma razão nisso tudo, talvez o melhor mesmo seja que a desconheçamos.

Ser caminho, ser estrada

2

I wanted to be changed by the road.

I so wanted to change the road.

But somehow we both resisted change.

Somehow we were both too strong.

And yet we have both winded away,

unsure of where we head.

And it’s like we’re both confused

as to who is who.

As if, late in the night,

you can’t tell the wanderer from the road

- the walker from the walked.

Maybe I’m just the road,

dreaming that I walk.”*




Essa é uma estrofe de uma das músicas novas do CD Road Salt do Pain of Salvation, a música se chama Of Dust.

Por alguma razão, isso ficou martelando na minha cabeça dias a fio; aliás, continua martelando. Talvez seja essa a razão de eu estar iniciando esse texto sem rumo, sem objetivo certo.

A vida, cedo ou tarde, acaba nos parecendo um jogo de um sarcasmo imprevisível, e tudo está tão intimamente ligado que, quando percebemos um pouco dessa teia incrível que é formada, só podemos sorrir e continuar caminhando de um novo jeito.

Quantas vezes não tentamos mudar as coisas ao nosso redor sem ter a menor preocupação em analisar se, na verdade, não somos nós quem devemos mudar e nos adaptar ao contexto?

Não importa o grau de profundidade em que você já mergulhou em si mesmo, a percepção de que você se adapta à vida e ela se adapta a você geralmente ocorre de qualquer forma; e é estranho perceber como é esse vai e vem, essa mola que ora nos empurra, ora nos puxa de volta, numa brincadeira de gangorra com a vida – o viajante e o caminho.

Estamos tão bitolados e preocupados com nossas tarefas diárias, com nossos lazeres entediantes, repetitivos e hipnóticos, que não colocamos o pé na estrada que há dentro de nós, não investigamos esse caminho terrivelmente vasto e escuro que vai, aos poucos, com esforço, se abrindo diante de nós.

Espero que sua resposta seja sim, mas vamos lá: você já parou pra pensar nas possibilidades que há em você? Na potência escondida, latente, em sua cabecinha acostumada à rotina, ao claustro cotidiano e ao conforto?

Já tentou enxergar o que você poderia fazer se, simplesmente, pudesse esquecer por um momento o medo, o orgulho, a preguiça e outros fatores que nos impedem de voar, de viajar no sentido literal, de conhecer o mundo e, talvez assim, mergulhar com mais voracidade em sua alma?

Tenho convicção de que quando fizer isso, mesmo na menor escala cabível, não verá tanta diferença entre você e o caminho, entre você e o meio em que vive, entre você e as situações da vida e suas atitudes para com ela. Tudo isso forma um emaranhado de causas e conseqüências indissolúveis, tão indissociáveis quanto o viajante da estrada; eles são um só, não há diferença. Aliás, creio que nem mesmo deva existir diferença substancial entre sonhar ser o viajante que caminha na estrada e ser o viajante que caminha na estrada.

Pra nós, as coisas são muito confusas, elas se confundem, se misturam e formam um mosaico que, no fim das contas, chamamos de vida.

Talvez eu tenha parado no meio da estrada, talvez eu tenha apenas sentido o cheiro da estrada, sem jamais colocar um pé nela. Só sei que o que vejo é um infinito escuro de possibilidades e incertezas, e isso tem um gosto terrivelmente bom, como sexo.

___

*

“Eu quis ser mudado pela estrada.

Eu quis tanto mudar a estrada.

Mas, de alguma forma, ambos resistimos às mudanças.

De alguma forma, ambos éramos muito fortes.

Assim, ambos ficamos sem fôlego,

Incertos de onde íamos.

É como se estivéssemos confusos de quem é quem.

Como se, tarde da noite,

Você não pudesse distinguir o viajante da estrada

- o caminhante do caminho.

Talvez eu seja apenas a estrada, sonhando que eu caminho.”

Recônditos da mente e seus monstros

3

“Não sou monstro, sou pai de família”, essa foi a frase que o Rudicir Fernandes de Freitas disse ao jornal Zero Hora ao conceder uma entrevista.

Pra quem não sabe do ocorrido, Rudicir é acusado de agredir o empresário Léo Mainardi. A briga ocorreu em um hipermercado, Rudicir estacionou o carro em uma vaga para deficientes e Léo, como pai de uma cadeirante, chamou a atenção (sabe-se lá de que forma ou com que sutileza). No fim das contas, Léo foi para o hospital com um coágulo na cabeça, coisa de gente civilizada, né? (A reportagem está no http://zerohora.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default.jsp?uf=1&local=1&section=Geral&newsID=a2880662.xml ).

O que me levou a pensar a respeito disso tudo foi a frase que Rudicir disse, a primeira escrita neste texto. Na verdade, ele é um monstro, sim, mas mais na verdade ainda, todos somos monstros.

Nossa pequena cabecinha esconde monstros incríveis, de forças inimagináveis. Na maior parte das nossas vidas conseguimos deixar essas criaturas sombrias bem guardadas lá no fundo, por vezes elas tentam vir à superfície, mas as sufocamos e continuamos como se nada tivesse acontecido.

Muitos são os que passam a vida inteira sem ouvir a voz desses monstros internos, conseguem escondê-los até o fim, e eu não sei se admiro isso ou sinto pena delas. Não se pode negar a existência desse lado sombrio em nossa psique, essa violência, que se traduz em ansiedade, em nervosismo, em depressão ou em agressão; e o contato com tais forças faz com que nos conheçamos melhor, porém, de uma maneira muito perigosa.

Demônios, defeitos, monstros, distúrbios psicológicos, encosto, chame do que quiser, o fato é que o ser humano é um animal, uma besta domada, insisto sempre nessa idéia.

Num texto anterior, em que relacionei a matéria escura à mente humana, trouxe à baila o fato de que conhecemos pouquíssimo acerca da nossa personalidade, das nossas possibilidades e dos nossos processos mentais inconscientes, de como nascem e se desenvolvem pensamentos. A vida interna de uma pessoa é demasiado complicada, intrincada em sonhos e realidades, e tenho certeza que no meio desses sonhos devem existir algumas coisas que não gostaríamos de chamar de “humanas”, provavelmente Platão as chamaria de Daemones, bons ou maus.

Rudicir não teve a força para aquietar seu monstro naquele momento, existem pessoas que jamais controlaram essa força tétrica que há dentro de si e aquelas que, um dia, ainda vão conhecer essa energia macabra num acesso de raiva ou outra coisa qualquer.

No entanto, não sei dizer ao certo porque lembrei dos padres que abusam sexualmente das criancinhas. Ai, que me parece que esses monstros andam invadindo as igrejas, templos e sinagogas… é melhor tomar cuidado.

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