Há um átomo dentro de mim,

Ele guarda um inferno em seu núcleo,

E é como um radical livre:

Vai transmitindo o descompasso.

Um a um vão se contaminando os outros átomos

Até tudo se tornar necrosado.

Há um inferno dentro de mim

Guardado pelo meu núcleo;

No meu peito: uma chaga aberta;

Por ela se escapa um átomo;

Somos, ele e eu, um só fruto podre,

Contaminamos, pouco a pouco, o meio que nos rodeia:

- Um centro de pestilência!

Até que, por fim, tudo cheire a enxofre e podridão.

Há um inferno no mundo,

Escondido no centro da escuridão do infinito,

Num buraco negro desconhecido,

Num planetinha colorido,

E eles se colidem e se contaminam

E espalham ao universo um fim pútrido,

A via Láctea é o pus dessa ferida,

Que mata os elétrons e toda a vida.

E tudo torna a se recolher em morte profunda.

E há um inferno na morte.

Mas eu hei de nascer de novo,

Com o mesmo átomo dentro de mim.