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Parte Quinta

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                – Não, senta que eu quero te contar uma coisa. Falei enquanto agarrava seu braço. Por mais inexato que possa parecer, isso não é uma fuga de nada, muito menos de mim, e espero que isso se abra dessa forma pra ti também. Não é uma fuga, é uma busca. Siddarta precisou sair do seu meio para se reconhecer, Crowley ficou tempos fora, na história do Zaratustra ele foi para as montanhas, em várias outras pessoas encontraremos essa constante. Não é uma fuga, é uma busca, e eu quero que tu vá comigo fazer isso, talvez eu seja covarde para ir sozinho, ou talvez eu simplesmente pense que tu deve estar lá ao mesmo tempo.

                Não sabia como me fazer entender por ela, éramos estranhos um ao outro, contudo, algo nos prendia como uma corrente de espinhos. O rumo da viagem não era tão certo, tão objetivo, mas justamente essa suspensão do controle sobre os fatos é que nos deixaria nus o suficiente para reconhecer o que havia para ser reconhecido, se é que isso existia.

                Ela me respondeu que isso parecia um livro do Paulo Coelho, e eu respondi “e por que não encarar assim?”, eu não me sentia desconfortável em me ver dessa forma externa, com defeitos e qualidades, tinha consciência dessas coisas, tanto que sabia que faltava algo. Se eu pudesse, sentiria pena daqueles que passam a vida contentes com o pouco que têm em si, sem buscar o que há por trás dos véus da mente, dos olhos, da percepção física e autômota a que somos submetidos e confinados. Se eu pudesse sentiria pena, acho que meu sentimento estava mais para asco, e daí vinha minha amargura, que a Bê confundia com revolta, com fuga.

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Parte Quarta

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                Olhar para dentro de si com uma paisagem como a que podíamos ver em Buenos Aires era, no mínimo, disperdício do momento. Quando descemos do avião, no aeroporto ainda, vimos aquele movimento de pessoas notavelmente diferentes no modo de se vestir, de se portar, era, como diziam, a Europa da América do Sul.

                Pegamos um Taxi até o centro da cidade, sem um lugar específico para ficar. No caminho passamos por praças com gramados verdes e bem cuidados, um ar de liberdade pairava no ar. O clima estava bom, nem quente nem frio, sem chuvas. Era sábado, pessoas passeavam pela rua com os cachorros, numa das praças vimos um grupo de pessoas praticando kung-fu ao ar livre.

                Descemos perto da Casa Rosada, então caminhamos até a Praça de Maio, onde um rapaz tocava violão e cantava músicas dos Beatles com um sotaque bastante peculiar. Ele era bastante afinado, mas apenas umas poucas pessoas paravam para ficar assistindo.

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Parte Terceira

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                Mais por impulso do que qualquer outra coisa eu disse em voz alta, vou pra Córdova. Nisso não havia nada de instrospectivo, nada de premeditado e nenhuma intenção, ao menos consciente, era puro e simples impulso despretensioso.

                A Bê me olhou com olhos que não eu não soube entender, então perguntou se eu estava falando sério. Falando sério? Eu não sabia se me levava a sério também, resolvi prosseguir na idéia sem dar muito crédito ao que dizia, respondi que sim. Dessa vez vi que ela ficou séria.

                Depois de persistir, meio jocoso, na idéia descabida, comecei a acreditar na própria invenção, e enquanto a Bê saiu do meu lado para fumar um cigarro na janela, eu acessei o site do Aeroporto Salgado Filho. Descobri que não haviam vôos para Córdova, teria, portanto, que pegar um avião de Porto Alegre para Buenos Aires, e de lá ir para Córdova.

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Parte Segunda

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                Tirei as mãos da mesa como se tirasse os pés do chão, não sabia o que sentir, se era saudade da minha casa, da minha família, da adolescência, dos amigos ou das festas, ou de tudo, ou simplesmente de nada, numa mistura de sentimentos complexos, feridos, não superados. Tirei as mãos da mesa como quem busca uma corda para se agarrar, tirei as mãos e abanei para ela vir sentar conosco. Era incerto fazer isso, era incerto abanar, era incerto viajar até Porto Alegre, não era certo ser assim, despersonalizado, descompassado.

                O Lúcio era muito mais amigo dela do que eu, ainda assim, eu parecia mais interessado na presença dela, talvez porque eles se encontram quase toda semana. Na verdade, eu não me interessava muito por ela, perguntei se estava tudo bem mais por educação, gostava da sensação que ela me trazia, duma volta ao passado seguro e intenso. Nessas lembranças mudadas, memórias deturpadas, eu repousava fiel à minha imaginação, e então estava em paz.

                Logo o Lúcio terminou de comer e embarcou mais na conversa, e eu, gradualmente fui me reservando novamente, a ansiedade inicial passara, a saudade também, já estava ficando, novamente, entediado e ausente. Olhei para o lado, várias pessoas rindo, e tive vontade de sentar com elas, de fumar um cigarro, de perguntar o que elas faziam, como agiam, como olhavam para si, etc. Eu queria saber da alma, do espírito, e acabara de passar a noite mais comum, aquela com a qual, durante anos, mais me acostumei, e hoje já parece estar se distanciando de mim. Eu já não estou mais lá.

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Parte Primeira

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                Tudo bem que era uma hora da madrugada, o tempo continuava feio, raios cortavam o céu escuro e iluminavam a noite, iluminavam a vida. Eu disse tempo feio? Pois bem, não sei, sentir aquela eletricidade me fez bem, espantou um pouco do marasmo da alma, e eu criei ânimo para ligar pro Lúcio.

                Naquela rodoviária imunda eu pensei em comer alguma coisa antes de pegar o táxi e ir até onde o Lúcio disse para que eu fosse, mas pensei que seria melhor continuar em jejum. Peguei o táxi e dei o endereço da tal da Débora, que era onde estavam. Quando o carro parou, eu paguei os quinze reais, desci minha mochila e minha mala e parei na frente do prédio. Era cheio de vidros escuros, uma construção visivelmente nova, e eu via o reflexo de cada relâmpago que momentaneamente iluminava a noite.

                Liguei de novo para o celular do Lúcio, só que dessa vez ele não atendeu, então toquei no interfone do apartamento. Quando uma voz feminina atendeu eu ouvi uma barulheira no fundo, não consegui distinguir muita coisa, “Quem fala?” perguntou ela, eu perguntei de volta “Débora?”, ela riu e disse que não era a Débora. Eu disse “ah, sou amigo do”, então ela me interrompeu “sim sim, do Lúcio. Vê se abre aí”, eu abri o portão de ferro, caminhei por um corredor largo, com plantas, muito bem cuidado, mais além estava o porteiro voltando dos fundos daquele lugar, ele cumprimentou, provavelmente deduzindo que eu estava indo pra festa. Subi o elevador com as malas nas mãos, na subida ainda consegui passar um perfume.

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