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	<title>Descompassado &#187; angústia</title>
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		<title>Casa vazia</title>
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		<pubDate>Sun, 12 Jun 2011 15:33:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Christian  Silveira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Poesia]]></category>
		<category><![CDATA[alma]]></category>
		<category><![CDATA[angústia]]></category>
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		<description><![CDATA[Assim te vais, meio sem alma, Nesse mon&#243;logo ensurdecedor Gritas &#224;s paredes desta casa vazia, Ecoas maldi&#231;&#245;es no teu &#237;ntimo oco. Pensas nas almas e nos &#225;tomos, Meditas sobre o amor e o universo, E assim te esgotas, em gotas amargas. Lentamente, sem pressa nenhuma, Preenches teu corpo nesse escuro ocaso, T&#227;o pret&#233;rito quanto tua [...]]]></description>
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<p><img class="aligncenter" src="http://3.bp.blogspot.com/_vbb8UHOcmW4/TDdrWF4nOhI/AAAAAAAADn4/y2ZyOgU1nao/s1600/otto_grun_sala3.jpg" alt="" width="400" height="300" /></p>
<p>Assim te vais, meio sem alma,</p>
<p>Nesse mon&oacute;logo ensurdecedor</p>
<p>Gritas &agrave;s paredes desta casa vazia,</p>
<p>Ecoas maldi&ccedil;&otilde;es no teu &iacute;ntimo oco.</p>
<p>Pensas nas almas e nos &aacute;tomos,</p>
<p>Meditas sobre o amor e o universo,</p>
<p>E assim te esgotas, em gotas amargas.</p>
<p>Lentamente, sem pressa nenhuma,</p>
<p>Preenches teu corpo nesse escuro ocaso,</p>
<p>T&atilde;o pret&eacute;rito quanto tua vida esquecida,</p>
<p>T&atilde;o valioso quanto tua liberdade fria.</p>
<p>Assim te acabas, gota por gota,</p>
<p>Meio sem alma – histeria calma -,</p>
<p>E quando cessas tuas blasf&ecirc;mias altas,</p>
<p>Afogado no cansa&ccedil;o desse discurso,</p>
<p>Acabas por dormir nesse ch&atilde;o frio</p>
<p>Que ainda vibra gritos de casa vazia.</p>
<p>&nbsp;</p>

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		<title>Mas e se&#8230;</title>
		<link>http://descompassado.com/mas-e-se/</link>
		<comments>http://descompassado.com/mas-e-se/#comments</comments>
		<pubDate>Tue, 31 Aug 2010 23:41:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Christian  Silveira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Eu]]></category>
		<category><![CDATA[angústia]]></category>
		<category><![CDATA[ansiedade]]></category>
		<category><![CDATA[caminho]]></category>
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		<category><![CDATA[posses]]></category>
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		<description><![CDATA[Quando come&#231;amos a correr muito, a ir depressa demais, as coisas come&#231;am a se perder pelo caminho. Os valores v&#227;o caindo da carro&#231;a, a moralidade e a &#233;tica ficam em alguma estalagem beirando a estrada, as pessoas importantes v&#227;o dando um adeus t&#237;mido atrav&#233;s da poeira do caminho e n&#243;s nos vemos apenas como sombras, [...]]]></description>
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<p><img class="aligncenter" src="http://2.bp.blogspot.com/_kL1ZCgsjfqI/TE3Ct257fTI/AAAAAAAAAk8/G5KhMSZ14b4/s320/pressa.jpg" alt="" width="300" height="225" /></p>
<p>Quando come&ccedil;amos a correr muito, a ir depressa demais, as coisas come&ccedil;am a se perder pelo caminho. Os valores v&atilde;o caindo da carro&ccedil;a, a moralidade e a &eacute;tica ficam em alguma estalagem beirando a estrada, as pessoas importantes v&atilde;o dando um adeus t&iacute;mido atrav&eacute;s da poeira do caminho e n&oacute;s nos vemos apenas como sombras, e vamos, meio sem querer, vivendo o que acontece.</p>
<p>&Eacute; comum in&uacute;meras posses e pessoas terem seus ciclos fechados em nossa vida, &eacute; natural que muito disso se torne apenas lembran&ccedil;a. No entanto, a pressa do dia-a-dia, a &acirc;nsia por mais e a vontade de gan&acirc;ncia abafam muitas cores que ainda deveriam brilhar inocentemente em nossas vidas. Mas nos mexemos t&atilde;o r&aacute;pido que essas cores se tornam borr&otilde;es no espa&ccedil;o deixado pra tr&aacute;s.</p>
<p>Ali&aacute;s, borr&otilde;es s&atilde;o, mais ou menos, aquilo que enxergamos da realidade.</p>
<p>N&atilde;o s&oacute; nos &eacute; imposs&iacute;vel ter uma compreens&atilde;o completa e exata do que cada coisa significa para uma pessoa, ou at&eacute; pra n&oacute;s mesmos, como somado &agrave; isso parecemos fazer quest&atilde;o de perder a pequena habilidade de raz&atilde;o e entendimentos, que nos s&atilde;o inerentes como seres humanos, e perdemos isso por descuido, por pressa e por ansiedade.</p>
<p>Mas e se tudo isso (ansiedade, pressa, afobamento, desaten&ccedil;&atilde;o et Cetera) for apenas um resultado t&atilde;o simples e not&oacute;rio da ang&uacute;stia que a vida nos traz? Se for assim, como deixar o brilho voltar &agrave;s cores? Como permitir que a ang&uacute;stia encontre uma porta de sa&iacute;da e nos deixe em paz naquela clareira em que paramos na estrada, cheia de flores e sons e cheiros de sossego?</p>
<p>Mas e se s&oacute; soubermos levantar hip&oacute;teses e n&atilde;o conseguirmos parar para entender o que a estrada est&aacute; nos dizendo?</p>
<p>S&atilde;o tantos “mas e se” que eu me canso.</p>
<p>Vou pro meu sossego.</p>

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		<title>A veia vil que d&#225; for&#231;a</title>
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		<pubDate>Sat, 10 Oct 2009 00:55:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Christian  Silveira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Poesia]]></category>
		<category><![CDATA[angústia]]></category>
		<category><![CDATA[desesperança]]></category>
		<category><![CDATA[poema]]></category>
		<category><![CDATA[soturno]]></category>

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		<description><![CDATA[N&#227;o h&#225; esperan&#231;a em nenhum ato; N&#227;o existe, nas a&#231;&#245;es, expectativa alguma; &#201; como cair de um trampolim sem uma Rede que possa sustentar o impacto. Inexiste qualquer f&#233; no fazer ou reter; &#201; desprovido de qualquer significado O viver, t&#227;o parco, pobre e mal edificado, N&#227;o h&#225; elos nem liames que sustente meu ser. [...]]]></description>
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<p>N&atilde;o h&aacute; esperan&ccedil;a em nenhum ato;</p>
<p>N&atilde;o existe, nas a&ccedil;&otilde;es, expectativa alguma;</p>
<p>&Eacute; como cair de um trampolim sem uma</p>
<p>Rede que possa sustentar o impacto.</p>
<p>Inexiste qualquer f&eacute; no fazer ou reter;</p>
<p>&Eacute; desprovido de qualquer significado</p>
<p>O viver, t&atilde;o parco, pobre e mal edificado,</p>
<p>N&atilde;o h&aacute; elos nem liames que sustente meu ser.</p>
<p>Destitu&iacute;do duma liga&ccedil;&atilde;o, uma uni&atilde;o</p>
<p>Mais pura e verdadeira que a alma que tateia</p>
<p>Por entre vala, valsa, velha vila, veia,</p>
<p>E encontra, sempre, descaso da solid&atilde;o.</p>
<p>N&atilde;o perdoa mais a vida fr&aacute;gil</p>
<p>E se agarra ao t&eacute;trico sentimento</p>
<p>Como se fosse ele mesmo o tormento</p>
<p>Medonho, e nessa veia vil mais &aacute;gil.</p>

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		<title>Causos abafados</title>
		<link>http://descompassado.com/causos-abafados/</link>
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		<pubDate>Fri, 09 Oct 2009 02:56:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Christian  Silveira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Minicontos]]></category>
		<category><![CDATA[angústia]]></category>
		<category><![CDATA[ansiedade]]></category>
		<category><![CDATA[idéia]]></category>
		<category><![CDATA[literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Novidade]]></category>
		<category><![CDATA[romance]]></category>
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		<description><![CDATA[Por que a vida alheia &#233; t&#227;o importante? Por que &#233; t&#227;o necess&#225;rio se identificar ou se deliciar com os problemos dos outros? Por que queremos tanto ler, ver, saber not&#237;cias das vidas que n&#227;o as nossas? Quanto mais chocante, melhor. A audi&#234;ncia e a import&#226;ncia crescem de forma diretamente proporcional &#224; intensidade da desgra&#231;a. [...]]]></description>
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<p>Por que a vida alheia &eacute; t&atilde;o importante? Por que &eacute; t&atilde;o necess&aacute;rio se identificar ou se deliciar com os problemos dos outros? Por que queremos tanto ler, ver, saber not&iacute;cias das vidas que n&atilde;o as nossas?</p>
<p>Quanto mais chocante, melhor. A audi&ecirc;ncia e a import&acirc;ncia crescem de forma diretamente proporcional &agrave; intensidade da desgra&ccedil;a.</p>
<p>Tamb&eacute;m, temos uma enorme necessidade de exp&ocirc;r, de colocar pra fora, de limpar a alma falando ou escrevendo sobre nossos medos, ang&uacute;stias, ansiedades, dores, alegrias, conquistas, vangloriamo-nos e assim nos queremos bem.</p>
<p>Pois bem, tendo tudo isso em vista – e fazendo desse site uma esp&eacute;cie de div&atilde; nada junguiano, muito menos freudiano, e nem vou falar de Lacan, behaviourismo, et cetera -, &agrave; partir de hoje fico &agrave; disposi&ccedil;&atilde;o de quem quiser contar sobre sua vida para que seja dramatizada aqui.</p>
<p>A id&eacute;ia funciona assim: tu me contas os fatos, o cen&aacute;rio, a situa&ccedil;&atilde;o e tudo que puderes, acrescentas como quer que seja romantizado, e eu fa&ccedil;o a pe&ccedil;a trocando nomes e qualquer caracter&iacute;stica que possa denunciar quem s&atilde;o as pessoas. Ser&aacute; como se assitir sob os olhos de outra pessoa e, ainda, com uma dose de fantasia.</p>
<p>Qualquer situa&ccedil;&atilde;o t&aacute; valendo: no &ocirc;nibus, na balada, numa viagem, na divaga&ccedil;&atilde;o mais imposs&iacute;vel da vida humana.</p>
<p>Voltamos ao lema: sua ang&uacute;stia compreendida ou seu dinheiro de volta.</p>

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		<title>Parte Sexta</title>
		<link>http://descompassado.com/parte-sexta/</link>
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		<pubDate>Fri, 18 Sep 2009 02:19:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Christian  Silveira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Interlúdio]]></category>
		<category><![CDATA[angústia]]></category>
		<category><![CDATA[Buenos Aires]]></category>
		<category><![CDATA[golden dawn]]></category>
		<category><![CDATA[self]]></category>
		<category><![CDATA[surpresa]]></category>
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<p>                Era um olhar intenso, por&eacute;m, desprovido de qualquer inten&ccedil;&atilde;o percept&iacute;vel, era frio e intrigante. Suas sobrancelhas arqueadas deixavam seus olhos ainda mais vivos, parecia uma mulher que beirava os quarenta anos, conservava em si uma beleza madura, mas era estranha.</p>
<p>                Algo me atra&iacute;a naquela mulher, n&atilde;o era propriamente a beleza dela, pois que ela n&atilde;o era, de fato, linda, mas tinha uma sexualidade que a denunciava como um halo sobre sua cabe&ccedil;a. Minha aten&ccedil;&atilde;o era para sua express&atilde;o, que denunciava um segredo querendo ser contado, um mist&eacute;rio pedindo para ser revelado. Nessa atra&ccedil;&atilde;o incoerente eu me vi perdido. A B&ecirc; me olhou, pois havia diminu&iacute;do o passo.</p>
<p>                &#8211; Vou ali falar com aquela mulher. Eu disse a ela.</p>
<p><em>              </em>  &#8211; Como assim? Ela respondeu, com um misto de espanto e gra&ccedil;a, e continuou, agora mais convicta de que eu estava apenas brincando. E o que tu vais dizer pra ela? Vais, por acaso, cantar a mulher aqui? Eu fico esperando, n&atilde;o tem problema. E riu.</p>
<p>                &#8211; N&atilde;o sei o que dizer. E n&atilde;o, eu n&atilde;o vou cantar ela.</p>
<p>                J&aacute; est&aacute;vamos quase em frente a ela quando a B&ecirc; parou. Eu dei mais tr&ecirc;s passos e parei bem na frente da mulher, que se levantou, me olhou fixo por alguns breves segundos que pareceram cheios de significado. Seus olhos perspicazes analisaram minha fisionomia r&aacute;pida e friamente, eu o percebi como se fossem revirados meus pensamentos e id&eacute;ias.</p>
<p>                &#8211; Marta. E o seu?</p>
<p>                &#8211; Daniel. Respondi com calma na voz, mas com a respira&ccedil;&atilde;o um pouco nervosa, nesse momento nem percebi o sotaque ga&uacute;cho dela, que n&atilde;o era correntina, como descobri horas depois.</p>
<p>A B&ecirc; estava olhando.</p>
<p>                &#8211; Eu sei da estranheza da situa&ccedil;&atilde;o, vir a me encontrar aqui, assim, quase por acaso. Uma pausa na fala dela, e uma pausa em mim mesmo, estava suspenso  e confuso<em>. </em><strong><em>Se voc&ecirc; perdeu sua vis&atilde;o, voc&ecirc; n&atilde;o trope&ccedil;a em alguma coisa uma vez s&oacute;, mas continuaria trope&ccedil;ando de novo at&eacute; recobrar o sentido perdido.</em> </strong>Deve conhecer essa frase.</p>
<p>                &#8211; Sim, &eacute; de um coment&aacute;rio do Crowley aos probacionistas da Golden Dawn.</p>
<p>                &#8211; Pois bem, at&eacute; ent&atilde;o voc&ecirc; trope&ccedil;ou, vem trope&ccedil;ando h&aacute; tempos, e agora conseguiu assumir a responsabilidade de se encarar. A Ordem se move por modos sutis, e nesse mundo de c&acirc;meras e internet e informa&ccedil;&atilde;o, ficava f&aacute;cil rastrear nossos membros. Pois bem, foi-me dado isto para lhe entregar, e espero que seja &uacute;til.</p>
<p>                Recebi nas m&atilde;os o embrulho, leve, provavelmente algumas cartas, rituais, n&atilde;o sei, n&atilde;o quis abri-lo ali. A B&ecirc; estava quase ao meu lado j&aacute;, e observava Marta com curiosidade, e esta tamb&eacute;m lhe voltou os olhos. Como eu estava nervoso, a B&ecirc; parece ter assumido minhas palavras e convidou a Marta para ir a algum restaurante, ou bar, acrescentou que j&aacute; sentia fome novamente e seria &oacute;timo ter uma companhia para n&oacute;s dois.</p>
<p>                Fomos at&eacute; um um bar ali perto, bem bonito, com mesas e cadeiras de a&ccedil;o na cal&ccedil;ada, mas devido ao vento gelado resolvemos entrar. Ficamos numa mesa perto do janel&atilde;o de vidro, de frente pra rua. Pedimos uma cerveja e uma por&ccedil;&atilde;o de fil&eacute;.</p>
<p>                Eu tinha a impress&atilde;o de j&aacute; conhecer aquela mulher. Certamente ela era brasileira, quase tinha certeza de que era ga&uacute;cha. Eu tinha amigos thelemitas, tinha parentes em Porto Alegre, enfim, o mundo &eacute; pequeno, &agrave;s vezes as coisas podem parecer incr&iacute;veis mas ao se investigar um pouco a fantasia cai por terra, e a simplicidade toma conta novamente. A simplicidade &eacute; como uma Lei da F&iacute;sica, ondas eletromagn&eacute;ticas procuram o meio mais r&aacute;pido e curto para se propagar, n&oacute;s, infelizmente, nem sempre seguimos tal hip&oacute;tese, e isso parece incorrer em diversos contratempos e estresses psicol&oacute;gicos.</p>
<p>                Ficamos um tempo ali sentados, e eu estava dentro do pacote, sem abr&iacute;-lo. Meus olhos, meus pensamentos, por momentos insustent&aacute;veis ficaram presos naquele pacotinho, e naquele tempo esqueci de qualquer outra coisa, era como um encantamento. Ouvia apenas as vozes das duas belas mulheres comigo, e somente sexo me tiraria a aten&ccedil;&atilde;o dessa surpresa. Marta era bonita ao seu modo, B&ecirc; era linda de v&aacute;rios modos, mas eu n&atilde;o podia pensar em sexo com nenhuma das duas, apesar de n&atilde;o ter visto nenhum anel de noivada ou casamento na m&atilde;o da Marta.</p>
<p>                Finalmente me dei contade de que dever&iacute;amos sair dali, n&atilde;o sabia quanto tempo demoraria para ir de taxi at&eacute; o aeroporto. A nossa apari&ccedil;&atilde;o correntina nos ofereceu carona at&eacute; o aeroporto, o que poupou-nos uns bons pesos argentinos. Fui no banco da frente, ent&atilde;o entrei na conversa e deixei de lado um pouco o embrulho. Perguntei quem havia pedido a ela que me fizesse essa entrega, ela desconversou, falou de rituais, de s&iacute;mbolos, tudo conhecido por mim e pela B&ecirc;. Eu sabia que o que os Mestre da Ordem Interna decidissem n&atilde;o seria t&atilde;o facilmente divulgado, logo me contentei com o que tinha at&eacute; aqui. O pacote continuava fechado.</p>
<p>                Ao nos deixar no aeroporto me entregou um cart&atilde;o, e, enquanto eu o lia, ela se despedia da minha companheira de viagem com um abra&ccedil;o. No cart&atilde;o dizia que ela era advogada, tinha n&uacute;meros de um escrit&oacute;rio, de seu celular e um e-mail, al&eacute;m do nome completo: Marta de Souza.</p>
<p>                &Agrave;s 23h est&aacute;vamos dentro do avi&atilde;o, cheirando a cerveja e cigarro. Queria abrir logo aquele pacote, n&atilde;o sabia se devia faz&ecirc;-lo sozinho ou na frente da B&ecirc;. Ficar sozinho nesse vai-e-vem seria dif&iacute;cil. Resolvi abrir logo depois da decolagem, antes do sono chegar.</p>
<p> </p>
<p>[Veja Tamb&eacute;m: <a title="V&aacute;lvula de Escape" href="http://mairathums.com/parte-sexta/" target="_blank">V&aacute;lvula de Escape</a>]</p>

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		<title>Parte Quinta</title>
		<link>http://descompassado.com/parte-quinta/</link>
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		<pubDate>Mon, 14 Sep 2009 17:44:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Christian  Silveira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Interlúdio]]></category>
		<category><![CDATA[alma]]></category>
		<category><![CDATA[angústia]]></category>
		<category><![CDATA[aventura]]></category>
		<category><![CDATA[Buenos Aires]]></category>
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		<description><![CDATA[                &#8211; N&#227;o, senta que eu quero te contar uma coisa. Falei enquanto agarrava seu bra&#231;o. Por mais inexato que possa parecer, isso n&#227;o &#233; uma fuga de nada, muito menos de mim, e espero que isso se abra dessa forma pra ti tamb&#233;m. N&#227;o &#233; uma fuga, &#233; uma busca. Siddarta precisou sair do [...]]]></description>
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<p>                &#8211; N&atilde;o, senta que eu quero te contar uma coisa. Falei enquanto agarrava seu bra&ccedil;o. Por mais inexato que possa parecer, isso n&atilde;o &eacute; uma fuga de nada, muito menos de mim, e espero que isso se abra dessa forma pra ti tamb&eacute;m. N&atilde;o &eacute; uma fuga, &eacute; uma busca. Siddarta precisou sair do seu meio para se reconhecer, Crowley ficou tempos fora, na hist&oacute;ria do Zaratustra ele foi para as montanhas, em v&aacute;rias outras pessoas encontraremos essa constante. N&atilde;o &eacute; uma fuga, &eacute; uma busca, e eu quero que tu v&aacute; comigo fazer isso, talvez eu seja covarde para ir sozinho, ou talvez eu simplesmente pense que tu deve estar l&aacute; ao mesmo tempo.</p>
<p>                N&atilde;o sabia como me fazer entender por ela, &eacute;ramos estranhos um ao outro, contudo, algo nos prendia como uma corrente de espinhos. O rumo da viagem n&atilde;o era t&atilde;o certo, t&atilde;o objetivo, mas justamente essa suspens&atilde;o do controle sobre os fatos &eacute; que nos deixaria nus o suficiente para reconhecer o que havia para ser reconhecido, se &eacute; que isso existia.</p>
<p>                Ela me respondeu que isso parecia um livro do Paulo Coelho, e eu respondi “e por que n&atilde;o encarar assim?”, eu n&atilde;o me sentia desconfort&aacute;vel em me ver dessa forma externa, com defeitos e qualidades, tinha consci&ecirc;ncia dessas coisas, tanto que sabia que faltava algo. Se eu pudesse, sentiria pena daqueles que passam a vida contentes com o pouco que t&ecirc;m em si, sem buscar o que h&aacute; por tr&aacute;s dos v&eacute;us da mente, dos olhos, da percep&ccedil;&atilde;o f&iacute;sica e aut&ocirc;mota a que somos submetidos e confinados. Se eu pudesse sentiria pena, acho que meu sentimento estava mais para asco, e da&iacute; vinha minha amargura, que a B&ecirc; confundia com revolta, com fuga.</p>
<p>                Aos poucos ela pareceu ir desistindo da id&eacute;ia de voltar para casa.</p>
<p>                Sa&iacute;mos do caf&eacute; e passeamos mais um pouco, agora longe dos pontos tur&iacute;sticos. Contei do que acontecera comigo nos anos em que estive fora da cidade, das namoradas, das crises, dos meus v&iacute;nculos com a magia e ordens espirituais, dos sucessos e insucessos com algumas experi&ecirc;ncias ritual&iacute;sticas e meditativas, etc. Por essas aventuras, que sabia que ela tamb&eacute;m passara, eu queria que ela fosse comigo a C&oacute;rdova. Apesar das nossas conversas n&atilde;o conseguirem atingir os pontos an&iacute;micos que eu queria, pois nossa comunica&ccedil;&atilde;o &eacute; t&atilde;o limitada, sabia que nos entend&iacute;amos, ou, ao menos, nos entender&iacute;amos em algum momento.</p>
<p>                O ocaso vermelho estava no fim, e o frio come&ccedil;ava a tomar espa&ccedil;o com um vento gelado. Paramos numa lan house, na frente havia um orelh&atilde;o, de onde liguei para o aeroporto para saber do pr&oacute;ximo v&ocirc;o para C&oacute;rdova: <em>once horas de la noche, </em>respondeu a atendente. Era quase sete e meia da noite, t&iacute;nhamos ainda mais de tr&ecirc;s horas por l&aacute; e nenhum lugar para ficar.</p>
<p>                Depois de sair da lan, caminhamos at&eacute; chegar na Pra&ccedil;a da Liberdade. J&aacute; estava escuro, mas o lugar era bem iluminado, vi um grupo de pessoas num banco fumando, bebendo e falando alto, eram roqueiros, todos tinham um estilo meio glam rock, e havia um viol&atilde;o escorado ao lado deles. Mais perto de n&oacute;s havia uma mulher sentada sozinha, olhando diretamente para n&oacute;s. Ela n&atilde;o fazia nada, quero dizer, n&atilde;o tinha livro nas m&atilde;os, n&atilde;o bebia nem fumava nada, n&atilde;o ouvia m&uacute;sica, apenas olhava diretamente para n&oacute;s como se quisesse falar conosco, como se soubesse que estar&iacute;amos ali. Uma sensa&ccedil;&atilde;o estranha percorreu meu corpo junto com uma brisa gelada.</p>
<p> </p>
<p>[Veja tamb&eacute;m: <a title="V&aacute;lvula de Escape" href="http://mairathums.com/parte-quinta/" target="_blank">V&aacute;lvula de Escape</a>]</p>

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		<title>Parte Quarta</title>
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		<pubDate>Fri, 11 Sep 2009 02:40:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Christian  Silveira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Interlúdio]]></category>
		<category><![CDATA[angústia]]></category>
		<category><![CDATA[Buenos Aires]]></category>
		<category><![CDATA[busca]]></category>
		<category><![CDATA[espírito]]></category>
		<category><![CDATA[viagem]]></category>

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		<description><![CDATA[                Olhar para dentro de si com uma paisagem como a que pod&#237;amos ver em Buenos Aires era, no m&#237;nimo, disperd&#237;cio do momento. Quando descemos do avi&#227;o, no aeroporto ainda, vimos aquele movimento de pessoas notavelmente diferentes no modo de se vestir, de se portar, era, como diziam, a Europa da Am&#233;rica do Sul.                 [...]]]></description>
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<p>                Olhar para dentro de si com uma paisagem como a que pod&iacute;amos ver em Buenos Aires era, no m&iacute;nimo, disperd&iacute;cio do momento. Quando descemos do avi&atilde;o, no aeroporto ainda, vimos aquele movimento de pessoas notavelmente diferentes no modo de se vestir, de se portar, era, como diziam, a Europa da Am&eacute;rica do Sul.</p>
<p>                Pegamos um Taxi at&eacute; o centro da cidade, sem um lugar espec&iacute;fico para ficar. No caminho passamos por pra&ccedil;as com gramados verdes e bem cuidados, um ar de liberdade pairava no ar. O clima estava bom, nem quente nem frio, sem chuvas. Era s&aacute;bado, pessoas passeavam pela rua com os cachorros, numa das pra&ccedil;as vimos um grupo de pessoas praticando kung-fu ao ar livre.</p>
<p>                Descemos perto da Casa Rosada, ent&atilde;o caminhamos at&eacute; a Pra&ccedil;a de Maio, onde um rapaz tocava viol&atilde;o e cantava m&uacute;sicas dos Beatles com um sotaque bastante peculiar. Ele era bastante afinado, mas apenas umas poucas pessoas paravam para ficar assistindo.</p>
<p>                De fato, n&atilde;o havia nada de extraordin&aacute;rio naquilo tudo. Claro, era uma paisagem linda, um lugar completamente diferente, &eacute;ramos completos desconhecidos naquele cen&aacute;rio de tangos, mas especificamente nada de excepcional poderia ser citado. Ainda desconhe&ccedil;o as raz&otilde;es pelas quais as pessoas se sentem mais em contato consigo mesmas quando se encontram longe de sua terra natal, talvez seja exatamente devido ao fato de se ser um estranho, um desconhecido, algu&eacute;m despojado de suas fantasias e m&aacute;scaras criadas para viver no seu meio, sendo assim, poder-se-ia ser livre para construir novas formas de ser, criar um personagem novo s&oacute; para si, e ningu&eacute;m poderia julg&aacute;-lo, pois n&atilde;o teriam outro ponto de refer&ecirc;ncia, sen&atilde;o aquele.</p>
<p>                Na Avenida de Maio continuamos caminhando. Desde o taxi at&eacute; ent&atilde;o nossas conversas foram amistosas, sem entrar em assuntos delicados, comentamos sobre o visual dos argentinos, sobre a limpeza das ruas, sobre os monumentos e sobre o patriotismo forte e aguerrido dos hermanos. Passamos pelo Caf&eacute; Tortoni e resolvemos entrar para conhecer o lugar e, se n&atilde;o fosse muito caro, comer algo.</p>
<p>                Por fim, resolvemos comer algo por ali, j&aacute; era fim de tarde mas n&atilde;o haviam restaurantes abertos ainda para jantar. Pedi um caf&eacute; expresso e um salgado.</p>
<p>                &#8211; Se perdermos o rumo do que caminhamos at&eacute; aqui podemos ficar completamente desajustados, despersonalizados. J&aacute; pensou nisso?</p>
<p>                Ela me olhou com um olhar indagador e respondeu:</p>
<p>                &#8211; Est&aacute; falando da viagem? Olha, eu sei que n&atilde;o h&aacute; nada planejado aqui, e isso &eacute; o interessante, mas dizer que ficaremos desajustados se nos perdermos nessa falta de planejamento &eacute; um pouco de exagero, n&atilde;o acha?</p>
<p>                &#8211; N&atilde;o me refiro &agrave; viagem. Respondi olhando para o caf&eacute; enquanto o mexia. Falo de n&oacute;s mesmos, dos passos que demos desde aqueles dias de adolesc&ecirc;ncia at&eacute; hoje. E se tudo que fizemos at&eacute; agora foi t&atilde;o somente uma nega&ccedil;&atilde;o daquilo que nos d&aacute; medo? E se nos desviamos daquilo que mais quisemos?</p>
<p>                &#8211; Fala de sonhos?</p>
<p>                &#8211; Falo de sonhos, de projetos, de vontades, enfim.</p>
<p>                &#8211; Mas e se o caminho certo for renunciar a determinadas coisas que desejamos? J&aacute; que os finais n&atilde;o podem ser vislumbrados, como podemos entender o que fazemos agora? Acho que o mais certo &eacute; sermos sinceros com nossa alma.</p>
<p>                Eu n&atilde;o entendi nada do que ela disse, n&atilde;o consegui acompanhar o pensamento e ver aonde ela queria chegar. Parei com um olhar de d&uacute;vida e ela viu que devia continuar.</p>
<p>                &#8211; Falo que se desejamos algo hoje, isso pode n&atilde;o ser assim pra sempre, e a certeza de que se n&atilde;o est&aacute; incorrendo em erro &eacute; deixar uma vontade superior correr nossa mente e nos guiar. O momento &eacute; o correto, sempre, por isso temos que estar atentos a n&oacute;s mesmos.</p>
<p>                &#8211; Acho bonito isso tudo&#8230;</p>
<p>                &#8211; Lembra do Siddarta do Hermann Hesse? &Eacute; preciso ouvir ao rio, perceber o que ele tem para nos dizer.</p>
<p>                &#8211; Acho bonito isso tudo, mas para mim parece muito distante a id&eacute;ia de poder se escutar sem ter interfer&ecirc;ncia de caprichos, estamos o tempo todo sendo atrapalhados por frivolidades.</p>
<p>                &#8211; Concordo. Por&eacute;m, ao se tomar consci&ecirc;ncia disso, podemos separar o que &eacute; de nosso esp&iacute;rito e o que &eacute; do nosso ego. S&atilde;o divisas t&ecirc;nues, delicadas, eu bem sei, mas &eacute; poss&iacute;vel determinar.</p>
<p>                &#8211; Eu j&aacute; estive nessas divisas, mas parece que me recolhi da guerra, &eacute; cansativo permanecer atento tanto tempo, empurrando o que nos jogam, as banalidades.</p>
<p>                &#8211; Depois de um tempo se acostuma.</p>
<p>                &#8211; Acostuma: ficamos frios.</p>
<p>                &#8211; N&atilde;o sei se &eacute; bem isso.</p>
<p>                &#8211; N&atilde;o sei sobre meu caminho. Estar aqui, hoje, me tira muitos pesos do que sou, da minha idiossincrasia edificada. S&oacute; de estar aberto a essas perguntas j&aacute; me alivia e me faz ver o pouco que se abre em mim quando desentulho minha mente.</p>
<p>                Ela me olhou com um olhar quase maternal, como quem se alegra pelo outro, como quem diz “voc&ecirc; est&aacute; indo pelo caminho certo”, compreensiva, tive a impress&atilde;o de que ela visse tormentos passados dela dentro de mim neste instante. Limitou-se a responder:</p>
<p>                &#8211; N&atilde;o v&aacute; se perder mexendo esse caf&eacute;.</p>
<p>                &#8211; Estou aumentando a entropia do universo. Respondi, sorrindo, enquanto chegavam os salgados que hav&iacute;amos pedido.</p>
<p>               </p>
<p>[Veja Tamb&eacute;m: <a title="V&aacute;lvula de Escape" href="http://mairathums.com/parte-quarta/" target="_blank">V&aacute;lvula de Escape</a>]</p>

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		<title>Parte Terceira</title>
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		<pubDate>Fri, 04 Sep 2009 23:48:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Christian  Silveira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Interlúdio]]></category>
		<category><![CDATA[alma]]></category>
		<category><![CDATA[angústia]]></category>
		<category><![CDATA[aventura]]></category>
		<category><![CDATA[intimismo]]></category>
		<category><![CDATA[introspecção]]></category>
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<p>                Mais por impulso do que qualquer outra coisa eu disse em voz alta, vou pra C&oacute;rdova. Nisso n&atilde;o havia nada de instrospectivo, nada de premeditado e nenhuma inten&ccedil;&atilde;o, ao menos consciente, era puro e simples impulso despretensioso.</p>
<p>                A B&ecirc; me olhou com olhos que n&atilde;o eu n&atilde;o soube entender, ent&atilde;o perguntou se eu estava falando s&eacute;rio. Falando s&eacute;rio? Eu n&atilde;o sabia se me levava a s&eacute;rio tamb&eacute;m, resolvi prosseguir na id&eacute;ia sem dar muito cr&eacute;dito ao que dizia, respondi que sim. Dessa vez vi que ela ficou s&eacute;ria.</p>
<p>                Depois de persistir, meio jocoso, na id&eacute;ia descabida, comecei a acreditar na pr&oacute;pria inven&ccedil;&atilde;o, e enquanto a B&ecirc; saiu do meu lado para fumar um cigarro na janela, eu acessei o site do Aeroporto Salgado Filho. Descobri que n&atilde;o haviam v&ocirc;os para C&oacute;rdova, teria, portanto, que pegar um avi&atilde;o de Porto Alegre para Buenos Aires, e de l&aacute; ir para C&oacute;rdova.</p>
<p>                Virei para a janela onde a B&ecirc; estava fumando, ela olhava para fora, pensando sabe-se l&aacute; no que. Eu comecei a gostar da id&eacute;ia de viajar, contudo, provavelmente por medo, n&atilde;o queria ir sozinho, aceitaria de bom grado a companhia dela.</p>
<p>                Aquela noite n&atilde;o dormi direito. &Eacute; engra&ccedil;ado como uma novidade muda a vida de um homem, talvez esse seja o segredo para que se mantenha o &acirc;nimo, se n&atilde;o se age com &iacute;mpeto, com ousadia, buscando novidades, submerge-se nos p&acirc;ntanos viscosos do t&eacute;dio e do marasmo, e l&aacute; se morre pouco a pouco. Eu estava morrendo quando percebi isso, e como quem segura a corda de algum her&oacute;i, eu estava extasiado para ser jogado para fora da minha fantasia interna.</p>
<p>                Liguei para minha fam&iacute;lia avisando que &agrave;s 14h40 voaria para Buenos Aires. Informar a eles, e n&atilde;o pedir, parecia meio estranho, e, devo dizer, sentiram-se at&eacute; aliviados quando disse que viajaria e que iria acompanhado da B&ecirc;. H&aacute; tempos eles ficam felizes quando digo que vou sair de casa, fazer pequenas aventuras, n&atilde;o gostam de me ver trancado no meu quarto, chegaram a me oferecer um dep&oacute;sito na minha conta, mas disse que n&atilde;o precisava, que tinha economizado um bom dinheiro “trancado em casa”.</p>
<p>                Acordar com olhos de aventura &eacute; como renascer, &eacute; como tornar a ser crian&ccedil;a, e assim se reconhece a alegria como algo de si, a minha, por&eacute;m, erguia-se t&iacute;mida por detr&aacute;s dos morros de inseguran&ccedil;a, timidez e impaci&ecirc;ncia. Depois que a ang&uacute;stia toma uma alma para si &eacute; dif&iacute;cil florescer algo mais, ela &eacute; como um parasita; mas essa aurora foi diferente, nela eu vi o sol como uma estrela, seis raios iluminavam um amanhecer depois dos dias de chuva.</p>
<p>                N&atilde;o havia muita coisa pronta para uma viagem dessas, n&atilde;o posso dizer que quando embarquei estava pronto, &agrave; vontade com a B&ecirc;, nem que n&atilde;o pensava em desistir. Por&eacute;m, estava ansioso, divididamente ansioso, e resolvi que j&aacute; n&atilde;o era hora de parar. Ao entrar no avi&atilde;o essa ansiedade excessiva passou, e consegui dormir boa parte da viagem.</p>
<p>Pouco conversei com a B&ecirc; durante o v&ocirc;o. Ela me parecia animada e resoluta, decidida. Aos poucos, desde ontem quando decidimos a viagem at&eacute; o momento, ela foi se revelando diante de mim como uma pessoa que eu n&atilde;o conhecia, fui retirando, lentamente, a n&eacute;voa das minhas mem&oacute;rias e expectativas de, atrav&eacute;s dela, resgatar um passado, e assim fui enxergando com mais clareza. Duas pequenas almas juntas numa jornada demasiadamente inusitada, e se a raz&atilde;o n&atilde;o nos cobria a alma, o esp&iacute;rito trazia energia para seguir em frente. Eu balan&ccedil;ava dentro de mim e contemplava o universo imenso que havia no &acirc;mago.</p>
<p> </p>
<p>[V&aacute; para: <a title="V&aacute;lvula de Escape" href="http://mairathums.com/parte-terceira/" target="_blank">V&aacute;lvula de Escape</a>]</p>

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		<title>Parte Segunda</title>
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		<pubDate>Tue, 01 Sep 2009 00:37:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Christian  Silveira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Interlúdio]]></category>
		<category><![CDATA[angústia]]></category>
		<category><![CDATA[ansiedade]]></category>
		<category><![CDATA[espírito]]></category>
		<category><![CDATA[realização]]></category>
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<p>                Tirei as m&atilde;os da mesa como se tirasse os p&eacute;s do ch&atilde;o, n&atilde;o sabia o que sentir, se era saudade da minha casa, da minha fam&iacute;lia, da adolesc&ecirc;ncia, dos amigos ou das festas, ou de tudo, ou simplesmente de nada, numa mistura de sentimentos complexos, feridos, n&atilde;o superados. Tirei as m&atilde;os da mesa como quem busca uma corda para se agarrar, tirei as m&atilde;os e abanei para ela vir sentar conosco. Era incerto fazer isso, era incerto abanar, era incerto viajar at&eacute; Porto Alegre, n&atilde;o era certo ser assim, despersonalizado, descompassado.</p>
<p>                O L&uacute;cio era muito mais amigo dela do que eu, ainda assim, eu parecia mais interessado na presen&ccedil;a dela, talvez porque eles se encontram quase toda semana. Na verdade, eu n&atilde;o me interessava muito por ela, perguntei se estava tudo bem mais por educa&ccedil;&atilde;o, gostava da sensa&ccedil;&atilde;o que ela me trazia, duma volta ao passado seguro e intenso. Nessas lembran&ccedil;as mudadas, mem&oacute;rias deturpadas, eu repousava fiel &agrave; minha imagina&ccedil;&atilde;o, e ent&atilde;o estava em paz.</p>
<p>                Logo o L&uacute;cio terminou de comer e embarcou mais na conversa, e eu, gradualmente fui me reservando novamente, a ansiedade inicial passara, a saudade tamb&eacute;m, j&aacute; estava ficando, novamente, entediado e ausente. Olhei para o lado, v&aacute;rias pessoas rindo, e tive vontade de sentar com elas, de fumar um cigarro, de perguntar o que elas faziam, como agiam, como olhavam para si, etc. Eu queria saber da alma, do esp&iacute;rito, e acabara de passar a noite mais comum, aquela com a qual, durante anos, mais me acostumei, e hoje j&aacute; parece estar se distanciando de mim. Eu j&aacute; n&atilde;o estou mais l&aacute;.</p>
<p>                Um homem passou no lado de fora vendendo ma&ccedil;&atilde;s do amor, e bem na frente da janela um menino, com cerca de seis anos, parou-o, logo em seguida chegou quem eu penso era sua m&atilde;e e pagou o homem que j&aacute; entregara a ma&ccedil;&atilde;. N&atilde;o pude enxergar direito o sorriso do rapazinho, muito menos os seus olhos brilhando, mas eu senti isso dentro de mim, mais um resgate da inf&acirc;ncia. Ter tanta saudade e ser inundado cada vez mais por diversas mem&oacute;rias gostosas pode conter algumas possibilidades: ou eu fui demsiadamente feliz quando pequeno, ou sou muito cansado de esp&iacute;rito hoje, ou minha mem&oacute;ria me protege das lembran&ccedil;as ruins, ou ainda tudo isso junto.</p>
<p>                Havia apagado totalmente da nossa mesa, e a B&ecirc; estava dizendo que queria dar uma volta pela cidade, estava procurando algumas coisas, antiqu&aacute;rios, algo assim. N&atilde;o consegui retornar ao conversa, fiquei disperso. Ent&atilde;o nos demos tchau e eu j&aacute; n&atilde;o sabia o que sentir sobre aquela presen&ccedil;a, sobre a recorr&ecirc;ncia, sobre meus sentimentos.</p>
<p>                Pagamos a conta e fomos para o apartamento do L&uacute;cio dormir mais um pouco. Eu dormi uns 30 minutos e acordei inquieto, o L&uacute;cio falava no celular. Disse que um amigo queria de volta a m&aacute;quina fotogr&aacute;fica, ent&atilde;o tivemos que sair para devolver. No caminho ele disse que eu estava mudo, que n&atilde;o parecia presente, eu apenas concordei, n&atilde;o sabia o que dizer, sabia que ele estava certo.</p>
<p>                Devolvemos a c&acirc;mera e fizemos uma rota diferente para voltar, por&eacute;m, no meio do caminho, reencontramos a B&ecirc;. Coisas imposs&iacute;veis assim me fazem prestar aten&ccedil;&atilde;o por uns momentos, sou desligado do mundo, mas n&atilde;o sou negligente para com os sinais. Ela nos acompanhou, &agrave; noite voltaria para sua cidade. Fomos de volta para o apartamento do L&uacute;cio e, enquanto ele tomava banho, conversamos um pouco, eu entrei na internet olhar meus e-mails, mais por h&aacute;bito do que por curiosidade, e nas propagandas do g-mail havia um an&uacute;ncio de uma pousada perto de um templo budista na regi&atilde;o de C&oacute;rdoba, na Argentina.</p>
<p>                A tela piscava na minha frente, eu piscava na frente da tela, emudeci e a B&ecirc; perguntou o que havia acontecido. O que havia acontecido? N&atilde;o sei, senti como se estivesse caindo, tive uma sensa&ccedil;&atilde;o f&iacute;sica de estar perdido. Eu acho que tenho dinheiro para uma viagem simples.</p>
<p>[V&aacute; para: <a title="V&aacute;lvula de Escape" href="http://mairathums.com/parte-segunda/" target="_blank">V&aacute;lvula de Escape</a>]</p>

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		<title>Parte Primeira</title>
		<link>http://descompassado.com/parte-primeira/</link>
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		<pubDate>Thu, 27 Aug 2009 00:52:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Christian  Silveira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Interlúdio]]></category>
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<p>                Tudo bem que era uma hora da madrugada, o tempo continuava feio, raios cortavam o c&eacute;u escuro e iluminavam a noite, iluminavam a vida. Eu disse tempo feio? Pois bem, n&atilde;o sei, sentir aquela eletricidade me fez bem, espantou um pouco do marasmo da alma, e eu criei &acirc;nimo para ligar pro L&uacute;cio.</p>
<p>                Naquela rodovi&aacute;ria imunda eu pensei em comer alguma coisa antes de pegar o t&aacute;xi e ir at&eacute; onde o L&uacute;cio disse para que eu fosse, mas pensei que seria melhor continuar em jejum. Peguei o t&aacute;xi e dei o endere&ccedil;o da tal da D&eacute;bora, que era onde estavam. Quando o carro parou, eu paguei os quinze reais, desci minha mochila e minha mala e parei na frente do pr&eacute;dio. Era cheio de vidros escuros, uma constru&ccedil;&atilde;o visivelmente nova, e eu via o reflexo de cada rel&acirc;mpago que momentaneamente iluminava a noite.</p>
<p>                Liguei de novo para o celular do L&uacute;cio, s&oacute; que dessa vez ele n&atilde;o atendeu, ent&atilde;o toquei no interfone do apartamento. Quando uma voz feminina atendeu eu ouvi uma barulheira no fundo, n&atilde;o consegui distinguir muita coisa, “Quem fala?” perguntou ela, eu perguntei de volta “D&eacute;bora?”, ela riu e disse que n&atilde;o era a D&eacute;bora. Eu disse “ah, sou amigo do”, ent&atilde;o ela me interrompeu “sim sim, do L&uacute;cio. V&ecirc; se abre a&iacute;”, eu abri o port&atilde;o de ferro, caminhei por um corredor largo, com plantas, muito bem cuidado, mais al&eacute;m estava o porteiro voltando dos fundos daquele lugar, ele cumprimentou, provavelmente deduzindo que eu estava indo pra festa. Subi o elevador com as malas nas m&atilde;os, na subida ainda consegui passar um perfume.</p>
<p>                Quando entrei n&atilde;o vi o L&uacute;cio, mas a garota que falou comigo no interfone, a Cac&aacute;, me recebeu e j&aacute; me apresentou pra v&aacute;rios amigos, todos foram muito simp&aacute;ticos comigo, como se eu n&atilde;o soubesse dos efeitos do &aacute;lcool e de outras coisas mais. A Cac&aacute;, devo dizer, era maravilhosa, linda, e estava um pouco b&ecirc;bada, mas eu via que era s&oacute; &aacute;lcool, ela me apresentou a D&eacute;bora, que me disse que “teu amigo falou muito sobre ti, fez muita propaganda” e deu uma risada e me ofereceu o quarto dos pais dela pra que eu deixasse minhas malas, l&aacute; ningu&eacute;m entraria.</p>
<p>                O L&uacute;cio estava ocupado, a Cac&aacute; me disse com uma risada maliciosa me servindo um copo de whisky com energ&eacute;tico. Eu puxei um cigarro e ela me pediu o fogo. Ela n&atilde;o me deixou um segundo sozinho, e eu j&aacute; esquecia da minha ang&uacute;stia interior, estava deslumbrado, ou, no m&iacute;nimo, ocupado demais com aquelas novidades para que pudesse pensar para dentro. Eu respirava o perfume dela, misturado com o cheiro do cigarro.</p>
<p>                Depois de muitos whiskies e, de alguma forma que n&atilde;o sei mais explicar, depois de beijar muito a Cac&aacute;, o L&uacute;cio finalmente apareceu, acompanhado. J&aacute; est&aacute;vamos todos b&ecirc;bados, o pessoal come&ccedil;ou a sair do apartamento, iam pra uma festa em algum lugar da Cidade Baixa. Por&eacute;m, eu, a Cac&aacute;, o L&uacute;cio e a guria que estava com ele, a D&eacute;bora e o Gui, ficante dela, n&atilde;o sa&iacute;mos. Era 3:15 da madrugada, t&iacute;nhamos ainda algum pouco de whisky e energ&eacute;tico e muitos cigarros. Conversamos um bom tempo ainda, rimos muito, eu fui para um quarto com a Cac&aacute;, ela adormeceu &agrave;s 06h mais ou menos, eu ainda levantei e fui tomar uma &aacute;gua. Ningu&eacute;m na sala nem na cozinha, provavelmente tinham ido fazer o mesmo que n&oacute;s dois.</p>
<p>                Acordei no outro dia com o L&uacute;cio me chamando. Era duas da tarde, eu n&atilde;o sentia ressaca, mas sentia uma ang&uacute;stia, talvez tenha tido um sonho ruim, apesar da noite incrivelmente agrad&aacute;vel. Nos despedimos das gurias que estavam l&aacute; ainda e fomos para a rua, o Gui nos acompanhou at&eacute; perto do mercado p&uacute;blico. Era um dia de sol, daqueles que se sente o calor &uacute;mido da &aacute;gua acumulada nas cal&ccedil;adas, nos pr&eacute;dios, nos ossos. Ali perto subimos no apartamento do L&uacute;cio e eu deixei minhas malas, como n&atilde;o tinha nada para comer e ambos est&aacute;vamos morrendo de fome, precisando de uma coca-cola bem gelada, resolvemos descer num caf&eacute; ali perto comer umas empadas que, segundo o parceiro, eram muito boas e baratas.</p>
<p>                Foi no caf&eacute;, pouco depois de comer, quando convers&aacute;vamos sobre a noite, meio ressaqueados mas bem, que eu olhei pra porta e, como se n&atilde;o acreditasse, pisquei involuntariamente e tornei a olhar com maior precis&atilde;o. A B&ecirc; entrando no caf&eacute; foi como retornar pra Cruz Alta, pras festas, algu&eacute;m conhecido de tempos num lugar daqueles, naquela circunst&acirc;ncia n&atilde;o poderia ser irrelevante. Levantei pra chamar ela, pensando que ela n&atilde;o tivesse nos visto, e o L&uacute;cio ficou me olhando ainda mastigando uma empada de carne mo&iacute;da.</p>
<p>[V&aacute; agora para: <a title="Interl&uacute;dio Parte Primeira" href="http://mairathums.com/interludio-parte-um" target="_blank">V&aacute;lvula de Escape</a>]</p>

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