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Casa vazia

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Assim te vais, meio sem alma,

Nesse monólogo ensurdecedor

Gritas às paredes desta casa vazia,

Ecoas maldições no teu íntimo oco.

Pensas nas almas e nos átomos,

Meditas sobre o amor e o universo,

E assim te esgotas, em gotas amargas.

Lentamente, sem pressa nenhuma,

Preenches teu corpo nesse escuro ocaso,

Tão pretérito quanto tua vida esquecida,

Tão valioso quanto tua liberdade fria.

Assim te acabas, gota por gota,

Meio sem alma – histeria calma -,

E quando cessas tuas blasfêmias altas,

Afogado no cansaço desse discurso,

Acabas por dormir nesse chão frio

Que ainda vibra gritos de casa vazia.

 

Mas e se…

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Quando começamos a correr muito, a ir depressa demais, as coisas começam a se perder pelo caminho. Os valores vão caindo da carroça, a moralidade e a ética ficam em alguma estalagem beirando a estrada, as pessoas importantes vão dando um adeus tímido através da poeira do caminho e nós nos vemos apenas como sombras, e vamos, meio sem querer, vivendo o que acontece.

É comum inúmeras posses e pessoas terem seus ciclos fechados em nossa vida, é natural que muito disso se torne apenas lembrança. No entanto, a pressa do dia-a-dia, a ânsia por mais e a vontade de ganância abafam muitas cores que ainda deveriam brilhar inocentemente em nossas vidas. Mas nos mexemos tão rápido que essas cores se tornam borrões no espaço deixado pra trás.

Aliás, borrões são, mais ou menos, aquilo que enxergamos da realidade.

Não só nos é impossível ter uma compreensão completa e exata do que cada coisa significa para uma pessoa, ou até pra nós mesmos, como somado à isso parecemos fazer questão de perder a pequena habilidade de razão e entendimentos, que nos são inerentes como seres humanos, e perdemos isso por descuido, por pressa e por ansiedade.

Mas e se tudo isso (ansiedade, pressa, afobamento, desatenção et Cetera) for apenas um resultado tão simples e notório da angústia que a vida nos traz? Se for assim, como deixar o brilho voltar às cores? Como permitir que a angústia encontre uma porta de saída e nos deixe em paz naquela clareira em que paramos na estrada, cheia de flores e sons e cheiros de sossego?

Mas e se só soubermos levantar hipóteses e não conseguirmos parar para entender o que a estrada está nos dizendo?

São tantos “mas e se” que eu me canso.

Vou pro meu sossego.

A veia vil que dá força

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Não há esperança em nenhum ato;

Não existe, nas ações, expectativa alguma;

É como cair de um trampolim sem uma

Rede que possa sustentar o impacto.

Inexiste qualquer fé no fazer ou reter;

É desprovido de qualquer significado

O viver, tão parco, pobre e mal edificado,

Não há elos nem liames que sustente meu ser.

Destituído duma ligação, uma união

Mais pura e verdadeira que a alma que tateia

Por entre vala, valsa, velha vila, veia,

E encontra, sempre, descaso da solidão.

Não perdoa mais a vida frágil

E se agarra ao tétrico sentimento

Como se fosse ele mesmo o tormento

Medonho, e nessa veia vil mais ágil.

Causos abafados

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Por que a vida alheia é tão importante? Por que é tão necessário se identificar ou se deliciar com os problemos dos outros? Por que queremos tanto ler, ver, saber notícias das vidas que não as nossas?

Quanto mais chocante, melhor. A audiência e a importância crescem de forma diretamente proporcional à intensidade da desgraça.

Também, temos uma enorme necessidade de expôr, de colocar pra fora, de limpar a alma falando ou escrevendo sobre nossos medos, angústias, ansiedades, dores, alegrias, conquistas, vangloriamo-nos e assim nos queremos bem.

Pois bem, tendo tudo isso em vista – e fazendo desse site uma espécie de divã nada junguiano, muito menos freudiano, e nem vou falar de Lacan, behaviourismo, et cetera -, à partir de hoje fico à disposição de quem quiser contar sobre sua vida para que seja dramatizada aqui.

A idéia funciona assim: tu me contas os fatos, o cenário, a situação e tudo que puderes, acrescentas como quer que seja romantizado, e eu faço a peça trocando nomes e qualquer característica que possa denunciar quem são as pessoas. Será como se assitir sob os olhos de outra pessoa e, ainda, com uma dose de fantasia.

Qualquer situação tá valendo: no ônibus, na balada, numa viagem, na divagação mais impossível da vida humana.

Voltamos ao lema: sua angústia compreendida ou seu dinheiro de volta.

Parte Sexta

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                Era um olhar intenso, porém, desprovido de qualquer intenção perceptível, era frio e intrigante. Suas sobrancelhas arqueadas deixavam seus olhos ainda mais vivos, parecia uma mulher que beirava os quarenta anos, conservava em si uma beleza madura, mas era estranha.

                Algo me atraía naquela mulher, não era propriamente a beleza dela, pois que ela não era, de fato, linda, mas tinha uma sexualidade que a denunciava como um halo sobre sua cabeça. Minha atenção era para sua expressão, que denunciava um segredo querendo ser contado, um mistério pedindo para ser revelado. Nessa atração incoerente eu me vi perdido. A Bê me olhou, pois havia diminuído o passo.

                – Vou ali falar com aquela mulher. Eu disse a ela.

                – Como assim? Ela respondeu, com um misto de espanto e graça, e continuou, agora mais convicta de que eu estava apenas brincando. E o que tu vais dizer pra ela? Vais, por acaso, cantar a mulher aqui? Eu fico esperando, não tem problema. E riu.

                – Não sei o que dizer. E não, eu não vou cantar ela.

                Já estávamos quase em frente a ela quando a Bê parou. Eu dei mais três passos e parei bem na frente da mulher, que se levantou, me olhou fixo por alguns breves segundos que pareceram cheios de significado. Seus olhos perspicazes analisaram minha fisionomia rápida e friamente, eu o percebi como se fossem revirados meus pensamentos e idéias.

                – Marta. E o seu?

                – Daniel. Respondi com calma na voz, mas com a respiração um pouco nervosa, nesse momento nem percebi o sotaque gaúcho dela, que não era correntina, como descobri horas depois.

A Bê estava olhando.

                – Eu sei da estranheza da situação, vir a me encontrar aqui, assim, quase por acaso. Uma pausa na fala dela, e uma pausa em mim mesmo, estava suspenso  e confuso. Se você perdeu sua visão, você não tropeça em alguma coisa uma vez só, mas continuaria tropeçando de novo até recobrar o sentido perdido. Deve conhecer essa frase.

                – Sim, é de um comentário do Crowley aos probacionistas da Golden Dawn.

                – Pois bem, até então você tropeçou, vem tropeçando há tempos, e agora conseguiu assumir a responsabilidade de se encarar. A Ordem se move por modos sutis, e nesse mundo de câmeras e internet e informação, ficava fácil rastrear nossos membros. Pois bem, foi-me dado isto para lhe entregar, e espero que seja útil.

                Recebi nas mãos o embrulho, leve, provavelmente algumas cartas, rituais, não sei, não quis abri-lo ali. A Bê estava quase ao meu lado já, e observava Marta com curiosidade, e esta também lhe voltou os olhos. Como eu estava nervoso, a Bê parece ter assumido minhas palavras e convidou a Marta para ir a algum restaurante, ou bar, acrescentou que já sentia fome novamente e seria ótimo ter uma companhia para nós dois.

                Fomos até um um bar ali perto, bem bonito, com mesas e cadeiras de aço na calçada, mas devido ao vento gelado resolvemos entrar. Ficamos numa mesa perto do janelão de vidro, de frente pra rua. Pedimos uma cerveja e uma porção de filé.

                Eu tinha a impressão de já conhecer aquela mulher. Certamente ela era brasileira, quase tinha certeza de que era gaúcha. Eu tinha amigos thelemitas, tinha parentes em Porto Alegre, enfim, o mundo é pequeno, às vezes as coisas podem parecer incríveis mas ao se investigar um pouco a fantasia cai por terra, e a simplicidade toma conta novamente. A simplicidade é como uma Lei da Física, ondas eletromagnéticas procuram o meio mais rápido e curto para se propagar, nós, infelizmente, nem sempre seguimos tal hipótese, e isso parece incorrer em diversos contratempos e estresses psicológicos.

                Ficamos um tempo ali sentados, e eu estava dentro do pacote, sem abrí-lo. Meus olhos, meus pensamentos, por momentos insustentáveis ficaram presos naquele pacotinho, e naquele tempo esqueci de qualquer outra coisa, era como um encantamento. Ouvia apenas as vozes das duas belas mulheres comigo, e somente sexo me tiraria a atenção dessa surpresa. Marta era bonita ao seu modo, Bê era linda de vários modos, mas eu não podia pensar em sexo com nenhuma das duas, apesar de não ter visto nenhum anel de noivada ou casamento na mão da Marta.

                Finalmente me dei contade de que deveríamos sair dali, não sabia quanto tempo demoraria para ir de taxi até o aeroporto. A nossa aparição correntina nos ofereceu carona até o aeroporto, o que poupou-nos uns bons pesos argentinos. Fui no banco da frente, então entrei na conversa e deixei de lado um pouco o embrulho. Perguntei quem havia pedido a ela que me fizesse essa entrega, ela desconversou, falou de rituais, de símbolos, tudo conhecido por mim e pela Bê. Eu sabia que o que os Mestre da Ordem Interna decidissem não seria tão facilmente divulgado, logo me contentei com o que tinha até aqui. O pacote continuava fechado.

                Ao nos deixar no aeroporto me entregou um cartão, e, enquanto eu o lia, ela se despedia da minha companheira de viagem com um abraço. No cartão dizia que ela era advogada, tinha números de um escritório, de seu celular e um e-mail, além do nome completo: Marta de Souza.

                Às 23h estávamos dentro do avião, cheirando a cerveja e cigarro. Queria abrir logo aquele pacote, não sabia se devia fazê-lo sozinho ou na frente da Bê. Ficar sozinho nesse vai-e-vem seria difícil. Resolvi abrir logo depois da decolagem, antes do sono chegar.

 

[Veja Também: Válvula de Escape]

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