Artigos com o marcador angústia
Mas e se…
31/08/10

Quando começamos a correr muito, a ir depressa demais, as coisas começam a se perder pelo caminho. Os valores vão caindo da carroça, a moralidade e a ética ficam em alguma estalagem beirando a estrada, as pessoas importantes vão dando um adeus tímido através da poeira do caminho e nós nos vemos apenas como sombras, e vamos, meio sem querer, vivendo o que acontece.
É comum inúmeras posses e pessoas terem seus ciclos fechados em nossa vida, é natural que muito disso se torne apenas lembrança. No entanto, a pressa do dia-a-dia, a ânsia por mais e a vontade de ganância abafam muitas cores que ainda deveriam brilhar inocentemente em nossas vidas. Mas nos mexemos tão rápido que essas cores se tornam borrões no espaço deixado pra trás.
A veia vil que dá força
09/10/09
Não há esperança em nenhum ato;
Não existe, nas ações, expectativa alguma;
É como cair de um trampolim sem uma
Rede que possa sustentar o impacto.
Inexiste qualquer fé no fazer ou reter;
Causos abafados
08/10/09
Por que a vida alheia é tão importante? Por que é tão necessário se identificar ou se deliciar com os problemos dos outros? Por que queremos tanto ler, ver, saber notícias das vidas que não as nossas?
Quanto mais chocante, melhor. A audiência e a importância crescem de forma diretamente proporcional à intensidade da desgraça.
Também, temos uma enorme necessidade de expôr, de colocar pra fora, de limpar a alma falando ou escrevendo sobre nossos medos, angústias, ansiedades, dores, alegrias, conquistas, vangloriamo-nos e assim nos queremos bem.
Parte Sexta
17/09/09
Era um olhar intenso, porém, desprovido de qualquer intenção perceptível, era frio e intrigante. Suas sobrancelhas arqueadas deixavam seus olhos ainda mais vivos, parecia uma mulher que beirava os quarenta anos, conservava em si uma beleza madura, mas era estranha.
Algo me atraía naquela mulher, não era propriamente a beleza dela, pois que ela não era, de fato, linda, mas tinha uma sexualidade que a denunciava como um halo sobre sua cabeça. Minha atenção era para sua expressão, que denunciava um segredo querendo ser contado, um mistério pedindo para ser revelado. Nessa atração incoerente eu me vi perdido. A Bê me olhou, pois havia diminuído o passo.
– Vou ali falar com aquela mulher. Eu disse a ela.
Parte Quinta
14/09/09
– Não, senta que eu quero te contar uma coisa. Falei enquanto agarrava seu braço. Por mais inexato que possa parecer, isso não é uma fuga de nada, muito menos de mim, e espero que isso se abra dessa forma pra ti também. Não é uma fuga, é uma busca. Siddarta precisou sair do seu meio para se reconhecer, Crowley ficou tempos fora, na história do Zaratustra ele foi para as montanhas, em várias outras pessoas encontraremos essa constante. Não é uma fuga, é uma busca, e eu quero que tu vá comigo fazer isso, talvez eu seja covarde para ir sozinho, ou talvez eu simplesmente pense que tu deve estar lá ao mesmo tempo.
Não sabia como me fazer entender por ela, éramos estranhos um ao outro, contudo, algo nos prendia como uma corrente de espinhos. O rumo da viagem não era tão certo, tão objetivo, mas justamente essa suspensão do controle sobre os fatos é que nos deixaria nus o suficiente para reconhecer o que havia para ser reconhecido, se é que isso existia.
Ela me respondeu que isso parecia um livro do Paulo Coelho, e eu respondi “e por que não encarar assim?”, eu não me sentia desconfortável em me ver dessa forma externa, com defeitos e qualidades, tinha consciência dessas coisas, tanto que sabia que faltava algo. Se eu pudesse, sentiria pena daqueles que passam a vida contentes com o pouco que têm em si, sem buscar o que há por trás dos véus da mente, dos olhos, da percepção física e autômota a que somos submetidos e confinados. Se eu pudesse sentiria pena, acho que meu sentimento estava mais para asco, e daí vinha minha amargura, que a Bê confundia com revolta, com fuga.
