Posts tagged amor
Pele e perfume
1
Uma vida para respirar esse ar
Que suavemente se abarrota
Dessa boa bela branca nota:
- É a existência diáfana em par.
Nos meus dedos que entrelaçam
E tocam quase sem tocar,
Num momento, fazem arrepiar
As melodias que se avançam.
Na pele e nos cabelos que, molhados,
Parecem, pois, conter um jardim;
Entro beija-flor que busca Jasmim
Num corpo de sabores temperados.
Ferida
0
Calas, porque sabes ter razão;
Não justificas o descaso
Daquele amor em atraso
Que te dispensaram então.
.
Não discutes nem argumentas,
Não alimentas a escuridão desnuda
Dessa ignomínia magra, ossuda,
Da fome dessas agras contendas.
.
Não gritas, não apontas o dedo,
Baixas o rosto e choras quieta,
Evitas de sangrar-me com a seta
Que eu mesmo disparei sem medo.
.
Pois que no silêncio úmido que se evade
Dos teus olhos, me restou uma ferida
Muda e resignada, inflamada e dorida
Que, sendo tua, cuido eu com afabilidade.
A carne que se trai
8
Ela tinha os lábios brancos ainda quando ele os olhou, quando sua própria boca parou de tocar a dela. Logo o sangue voltou a circular normalmente, mas naqueles segundos em que os lábios dela estavam pálidos ele pensou que iria perdê-la… para sempre.
Suas mãos seguravam a carne, o que antes eram braços passou a ser carne, pele, osso e pressão; talvez, um ponto de referência, algo para se agarrar em segurança durante um tornado, não sem o sentimento de desespero.
Ela olhava com olhos de ressaca: era dissimulada. Tentava negar em sua face a leve sensação de dor que aquelas mãos lhe traziam aos braços. Queria dizer com sua expressão “ei, você me perdeu, não adianta me segurar”; queria, contudo, dizer de verdade “ei, por que assim? Por que fez isso? Por que estragar desse jeito?”. Por fim, disse com uma voz baixa, firme, rouca e incolor “me solta”.
Havia muito sangue em suas veias; ele estava confuso, cego e despreparado.
Acabara de beijá-la como se fosse o último beijo, seus lábios quentes se encontraram em um espaço salgado, temperado pelas lágrimas de arrependimento e consciência. Ele sabia o que viria a seguir, mas não queria aceitar.
Ela acabara de beijá-lo de volta, não estava sonhando. Mas como podia ser tão fria?
Me solta, ela repetiu com uma voz glacial. Ele aliviou a pressão, mas não soltou, não poderia soltar.
Duas toneladas de segredo lhe pesavam os ombros. Não era o que ela sabia, era o que já tinha feito, tudo lhe pesava e lhe ardia. Seus dedos que seguravam a carne queimavam como se fosse o braço dela que lhe agarrasse e torcesse as falanges.
Ela queria dar-lhe um tapa e gritar de dor, chorar lágrimas quentes e salgadas. Ela queria ficar histérica por alguns instantes e acreditar que depois disso tudo ficaria bem, que era tudo uma brincadeira de mau gosto.
Seus olhos, os dela, castanhos claro, marejavam, e uma só lágrima rolou fervendo, quase vapor, sobre sua boca, e a respiração ofegante fez-la voar. Se pudesse congelar o instante, eu diria que aquele sopro dela fez mais do que a gota de dor voar e se espalhar em milhares pelo ar, diria que aquele sopro despedaçou a esperança que ele tinha de voltar ao que era antes, ao início.
Milhares de peças voando pelo ar, impossíveis de serem montadas novamente.
O amor é assim, quando se quebra os cacos não podem mais ser juntados com precisão, sempre falta uma peça, um encaixe. E aquela vacância ficará para sempre, uma nódoa travestida de lição e trauma. Impossível de esconder ou relevar.
Um dia lhe perguntariam “onde está aquela peça?” e ele responderia “perdi, em algum lugar entre a minha infantilidade e a minha estupidez”.
Essas manchas que nos pesam no coração não são retiradas, elas ficam mesmo sob aquela chuva que molha até os ossos. Os outros perdoam porque não enxergam a mácula que nos dobra as costas sob seu peso.
Ela queria abraçá-lo, dizer “tudo bem amor, eu te perdôo”, mas logo a histeria se renovava em algum lugar recôndito de seus pensamentos, surgia como um assaltante e lhe rendia o que havia de bom, então queria gritar “por que assim?”.
Ele soltou a carne dos braços dela, mas não a soltaria, nem no momento seguinte nem por muito tempo, nem quando ela lhe desse as costas e fosse embora nem quando, anos depois, ela casasse sem convidá-lo, para nunca mais participar de sua vida.
São cheiros que ficam, do amor ao sexo, dos lábios às lágrimas. Mas está tudo repartido em milhares de gotículas que vão secar… vão secar como tudo aquilo que existe.
Cinzeiro
0
Sacode a poeira como se fosse um cinzeiro
Lança as cinzas só para dar espaço a outras mais
Mais frias, mais secas, mais tristes…
.
Deixa que lhe descartem os restos
Apaga a última chama do que lhe trouxe prazer
É um fim em si e isso é tudo, um semprefim
.
Apóia o passado apagado
Carrega em si os lábios que tocaram as sobras
Tem o gosto da ressaca de um mundo cinza
Dá gosto à ressaca da alma que lhe toca
.
E permanece assim, guardando as cinzas por necessidade
Coleciona cada boca amarga que lhe toca
Como um cigarro de prostituta
E amanheceu num instante
1
Sem permissão, invades uma noite silenciosa,
E sorris a essa vida ao abrir a porta,
E iluminas, dourada, ígnea, artificiosa,
Revives sala, quarto, espírito e alma morta.
Traz, do fogo lindo que há em teus pertences,
Qualquer quê quimérico quando queres;
Faz-te similar à vida viva, e assim me vences,
Tiras de mim as defesas, as roupas e os dizeres.
Em vermelho me envolves, em castanho me olhas,
Em branco me tocas e eu, em preto, me acalmo
Como quem compartilha no parque a queda das folhas;
Hoje tenho as mãos quentes, sinto a pele a cada palmo.
Fito-te os olhos de fabuloso fulgor fugaz,
Deleito-me num aroma flamejante
Que dança sobre tua pele, que me apraz,
E tudo vira luz, ouro e amanhecer num instante.