Posts tagged alma

posse

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Mas vês, ainda assim possuís a mim;
E me tens, sempre sem saber.
E calo no que deveria dizer,
E pronuncio o calar sem fim.

Falo em teorias, em poesias,
Em textos, em palavras parcas…
Farto das próprias marcas,
Distraio, a ti e a mim, em fantasias.

Prolixo, silencio no importante.
Firme, falo, em fria fonética,
Da alma, mente, moral e ética,
Para trazer-te a mim num instante.

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nauticus iv

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A maré baixou, os ventos cessaram,
Mas já nem se pode enxergar
A casinha lá, meu ermo lar
que os cães já cercaram.

Não vejo ondas, não vejo terras,
E o céu tão claro que me cego,
O sol ilumina o que eu nego:
Parece-me prefácio de guerras.

Agora me vem uma brisa morna;
É, pois, tempo de preparações,
Seguir-se-ão ventos e tufões,
Minha vida anseia pela alma que retorna.

(mais…)

Life Coaching by Titiao, mude sua vida agora!

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Todo corpo inerte tende a manter seu estado de inércia enquanto não há uma força que o faça sair de tal situação, por isso não estendi o braço até o longínquo e inalcançável controle remoto para trocar de canal na televisão. E agora a parte mais vergonhosa: olhei o programa da Oprah no GNT… pronto, falei.
Assisti ao programa, não sei como nem porque, mas lembro somente de cerca de cinco minutos dele, depois que vi ela entrevistar uma mulher, e na tarja da tela apareceu o nome da pessoa e o título de “Life Coach” eu simplesmente não consegui mais me concentrar, só lembro que falavam em auto-ajuda e O Segredo.
Enfim, acho que me perdi em algum momento, ora, preciso de um treinador pra vida, afinal, devo me preparar pra essa grandiosa competição, não é? Contrato um preparador físico, uma nutricionista, um psicólogo (não sei se preciso depois desse novo profissional) e um treinador pra vida. Ah, e com tudo isso, é claro, um cardiologista.
Falando sério, como assim um Life Coach? Isso virou profissão agora? Mudamos o nome de amigos, família e até de psicólogos e palestrantes motivacionais para um novíssimo e otimista “Life Coach”? Acho que vou buscar esse título, só ainda não sei se é de graduação, técnico, pós ou doutorado, mas vou pesquisar, afinal, penso que eu daria um bom treinador, haja vista aquela antiga frase “faça o que eu digo, não faça o que eu faço”.
Será que não sabemos, e se não sabemos, alguém do nosso lado sabe, os rumos simples e nunca perfeitos da vida? Será que já estamos com tanto medo assim de errar, e um erro, ainda assim, nos poderia derrotar irreversivelmente? Parece-me que antigamente se abria maior espaço ao erro, afinal, tanto o certo ou o errado deixam marcas, deixam-nos com impressões e formas mentais que jamais serão apagadas. Ninguém é fruto unicamente da genética, somos uma mistura, uma miscelânea, um revirado de comida e bebida, pensamento e ação, erros e acertos, vícios e virtudes, sanidades e sandices… enfim, tudo com um pouco de tudo, numa teia indissolúvel e cósmica.
Mas voltando ao assunto. Tô assumindo o posto de “Life Coach” então, quem precisar que me mande e-mail ou me ligue para combinar preços e formas de atendimento. Daremos um trato nessa sua alma fétida, rabugenta e preguiçosa.
Antes, acho que tenho que fazer um slogan melhor pra melhorar a propaganda.

flores

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Olhou pelas frestas da persiana que tapava a entrada da luz da manhã no quarto dela, era uma atmosfera completamente difusa do que se via lá fora. Resolveu se levantar e ir até lá. Quão pesados pareciam os seus pés, os seus passos, a sua mente. Tudo estava insustentavelmente pesado.
Achegou-se na janela de vidros fechados, abaixou uma das abas da persiana e olhou para fora. O sol iluminava tão fortemente que seus olhos cerraram levemente. Havia muito verde no pátio, uma árvore linda florescia circundada por pedras. Na piscina havia algumas folhas, e um pássaro na borda buscava água ali. O cenário era límpido, puro demais, aliás, puro o suficiente.
Quis sentir o cheiro daquela natureza, quis interagir, misturar-se a ela, ser com ela. No entanto, não ousou nem mesmo abrir os vidros nem a persiana. Soltou a aba que segurava e fechou os olhos num esforço para esquecer-se de si mesmo, do cenário de fora e de dentro, de si e do alheio.
Ao abrir os olhos novamente, já tinha seu rosto voltado para a direita, numa violeta que repousava ali, perto da janela donde deveria sempre buscar a claridade do sol. Via as flores murchas, pardas, esvaecendo-se a cada minuto mais e mais.
Não seria o corpo tão frágil assim? Cessamos de comer e se nos faltam as forças, cessamos de buscar o sol e se nos falta a vontade, a vitalidade, os desejos. Quantos amigos já não vira ele cessarem de buscar o sol, e acabavam por meterem-se numa casca de tijolos frágeis e espinhentos, outros se jogavam contra si mesmos. Se eles fossem violetas, certamente não seriam das mais belas.
O que valia a pena naquilo tudo? Por dias nublados não sobreviviam, frágeis. Mas se tudo se resumia àquilo, qual sentido? O que haveria depois? Eram, os homens, apenas um amontoado de experiências e acasos que foram sendo construídos ao bel prazer do tempo e da genética? Como numa teia de acontecimentos, cada sopro de diferença poderia resultar num produto abissalmente difuso.
Era tudo tão tênue, tão indigno e frágil. A vida, a memória, o sentimento, o corpo… enfim, aos olhos do tempo do mundo tudo era perene e insignificante.
E ela, ali, atrás dele, que nem acordara, estava na entropia dum buraco negro, num lugar que não se conhece, que se teme, para onde caminhamos às cegas mas com passos resolutos.
Virou-se para a cama que ainda tinha um volume debaixo das cobertas. Milhões e milhões de átomos em colapso, buscando uma nova situação de equilíbrio que não encontrariam. A aspereza do ar era própria da morte, era própria dum invólucro inanimado e ainda tão sutilmente branco. Parecia que num rápido chacoalhão ela voltaria, abriria os olhos e perguntaria O que houve, por que a sacudia daquela forma, e ele sorrindo diria Nada, apenas te queria acordada.
Para onde, então, foram as memórias e os sentimentos, para onde foi o que chamam de alma? Ficou tudo que havia de valor perdido entre neurônios que morrem, entre descargas elétricas que se cessam? Há alguma coisa que não seja apenas física, química e pó?
Caminhou até a cama, agora já nem raciocinava, era um animal, instinto e dor o cegavam. Sentou-se, devagar, como um pai que quer assistir ao sono do filho sem o acordar. Puxou uma das mãos dela para si, a pôs entre as suas, e as três entre os dois joelhos e a cabeça, como se encolhido pudesse suportar melhor as lágrimas que aumentavam o desespero e o calor do seu corpo, calor que contrastava cada vez mais com o do corpo dela, ou que fora dela.
Levantou os olhos, viu ainda o tubo de pílulas vazio, completamente vazio. Como ela pudera fazer isto? O sol brilhava sempre tão maravilhosamente belo naquela janela, mas nela havia se apagado, mas nela nem havia um espelho pra refletir, tal qual a lua, o sol externo. E, em não sabendo copiar, em não sabendo tatear na própria escuridão, viu-se contra si mesma. Cortara a corda, rompera a tensão, deixara as paredes que se fechavam mais e mais finalmente abrirem-se num rápido instante.
As lágrimas caíam no chão, na mão dela e nas suas, salgavam a sua boca. Então, pôs de volta a mão onde estava, assim ela ficava bela e poderia pensar que logo acordaria daquele sono misterioso que é a morte.
Dessa vez foi até a janela e abriu tudo, persiana e vidro, deixou o ar entrar, misturar-se a atmosfera abafada do quarto. O pássaro não estava mais lá, e ele viu apenas as folhas afogadas na piscina, naquele excesso de água. O que era aquilo tudo, sobrava luz, sobrava água, sobrava ar, ainda assim havia morte, havia a vida sendo negada em cada centímetro daquela confusão.
Pensou consigo que viver era um disparate, sim, a vida não passava de um disparate, um equívoco da natureza.

quem dera fosse Kundera

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Ele tentava insistentemente entender a causa da sua existência. Caminhava de um lado pro outro no seu quarto, depois resolveu fechar todas as cortinas, a porta, escurecer ao máximo o ambiente. Ainda eram 6 horas da tarde, havia um pouco de sol ainda, mas ele não queria. Com a penumbra e o silêncio, sentou-se num canto, não desejava o centro, como sempre fazia, aquilo lhe lembrava naquele instante uma espécie de palco, queria ficar escondido, não queria que sua vida o visse, não queria que deus o enxergasse, queria tangenciar o costumeiro e vislumbrar por fora.
Riu-se daquilo tudo num desespero comum àqueles que se sentem solitários. Trazia em si muitas marcas, e já não encontrava um traço nelas que lhe remetesse ao início de toda aquela confusão. Não sabia onde, mas em algum lugar de sua vida havia perdido o senso de humanidade, não sabia mais conviver com as pessoas, vestia uma máscara extremamente simpática e convincente para o trato exterior, mas em si mesmo era um tirano, cabia-lhe muito esforço tolerar a si mesmo, e pedia desculpas ao mundo por estar ali, sentia culpa de sua existência indevida.
O ar estava morno ali dentro, mas lá fora estava frio.
Sentado, no canto do quarto, com as pernas esticadas, olhava a escuridão que, apesar de aumentar com o pôr-do-sol, parecia diminuir, pois seus olhos começavam a se acostumar. Via os pontos luminosos dançando na sua frente, em todo lugar, aqueles malditos pontos luminosos que tanto fizeram parte de seu imaginário.
Pensava, não, melhor, refletia acerca de si mesmo. Acabava, porém, perdendo-se por dentro, e voltava, era infinito.
Como assim? De repente nascemos, somos jogados num mundo sem saber como nem porquê, depois buscamos ao menos saber pra onde vamos e isso também nos é escondido. Tudo foi sendo jogado de um modo tão ao acaso, cada minúcia era sem sentido, estava interligado com tudo em vida, bem sabia, no entanto, se fosse diferente, tudo diferente, também estaria. A completude da vacuidade interna era tão justificável quanto injustificável, como se a cada decisão no seu mundo estivesse sendo levado ao caminho justamente oposto ao desejado, ao pensado, ao imaginado.
Como um caos, numa sucessão de impossíveis descobertas de si mesmo, continuava observando as luzes. Resolveu fechar os olhos, uma lágrima se lhe escapara. Era tão amarga, só podia ser assim: sou igualmente amargo por dentro.
Elas lhe vinham ao quarto, elas se despiam, elas queriam carinho depois do sexo. Ele as levava ao exaustivo do prazer, percebia o corpo delas se retorcendo, desfalecidas de luxúria. Ali, e somente ali, sentia certa chispa de vida se lhe iluminar os olhos. Entretanto, no momento seguinte, não suportava aquelas trocas de carinho, queria vê-las se vestindo e indo embora, se fossem prostitutas as pagaria de bom grado para que o deixassem. Associar sexo com amor era-lhe impossível, aquele cheiro de sexo o agradava mais do que a mão da mulher tentando lhe agradecer os momentos vividos. Elas, carentes de atenção; ele, de vida.
Debruçou-se sobre os joelhos agora dobrados. Não queria ser assim, não era desejo seu tanta frieza, se é que assim se pode chamar. Estava quase em posição fetal, aquilo lhe confortava, não queria ter saído do mundo dos sonhos de seus pais, preferiria ter sido apenas uma idéia e não um ser vivente. Agora não era mais uma lágrima, era um choro contínuo e quietamente desesperado. Por que gritar se a única pessoa que queria que ouvisse seu pranto era sua alma, ele sentia falta de uma alma que pudesse sentir algo além daquilo. Sempre mais do mesmo.
Perdera a conta de quantas vezes tentara voar, quebrar tudo o que era e buscar a si mesmo enveredando por sua mente, sua alma, seu espírito. Quanta coisa conseguira, quantos transes, quantos insights, mas agora, ao contrário de anos anteriores, aquilo tudo se lhe apresentava constantemente, era o tempo todo assim, e já não mais lhe configurava um prazer como antigamente, era-lhe, pois, uma tortura perceber os porquês e os mecanismos sistemáticos que se escondiam por trás de cada detalhe.
A vida era uma equação não integrável, não derivável. Conseguia se aperceber de quase tudo com uma sistematicidade impecável, porém, ao se tratar de seu próprio sentido como ser humano, falhava invariavelmente.
Desejou dormir naquele estado, ser levado para esferas mais altas de consciência, um lugar em que pudesse vislumbrar um porque daquilo tudo. Só que aquela loucura já lhe atingira tantas vezes, e sabia que não seria levado a lugar nenhum, contudo, mantinha esperança.
Aquele vazio ia crescendo, ia tomando lugar, expulsando para a periferia de si aquilo que havia na sua consciência. Comprimia tudo na abóbada do seu limite, e a tensão ia crescendo. Insuportável. Queria desfalecer, queria chegar à coroa de si. Uma serpente lhe apertava o corpo todo, e ele lutava com unhas e dentes para no fim ver sua derrota, novamente.
Levantou a cabeça, enxugou os olhos, ergueu-se e foi abrir o quarto para o ar noturno entrar. Só queria respirar antes da noitada que viria.

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