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I-IV
0I
Suponhamos, primeiramente, que o poeta seja dotado de alma
Poderia ele realmente sentir o que diz que sente, ou seria ele um grande fingidor?
Fingiria que finge, sentindo, de fato, o afago e a hora da partida?
Ah, se o poeta fosse dotado de alma, ele poderia fingir que finge, ou fingir que sente
Isso não importa, ao bem da verdade, devo dizer que não nos importa
Só se ele tivesse alma
II
E se um poeta não fosse capaz de ser seu eu lírico
E se seu eu lírico transpusesse o homem que o criou?
E se nada disso fosse possível, e nada houvesse
Quantos estímulos ele fabricaria para se perceber realidade?
E se ele tivesse alma para sentir, quereria o sol?
III
E se tocam o teu rosto, poeta, acaso tu não sentes
Por que assim não é com teu coração?
O que causa em indiferença a mais plena não-comoção
Essa frialdade que cultiva o árido e o deserto
Onde está, poeta, a semente que plantaram em tua alma?
Seca.
interlude
0Era hora fora de chão, rala, parca, era hora e havia em mim a combustão completa dos sentidos, eu era abstração, abstrato, absorto, pois que da queima restou ausência de mim manifesta em carbono e água, a liquidez de emoções estancadas, sensações estagnadas, num barco onde eu remava com pensamentos circulares.
Tinha cheiro de infância, aquele oceano, porém, era imóvel, suas ondas não me lançavam à frente nem me atrasavam. Eu via, sob as águas alvas, a ânsia imediata da criança cheia de vontade, e quanto mais essa criança crescia, mais vinha o adulto cheio de si, vazio de mundo.
Fiquei horas mergulhado nessa introversão caótica, e essas horas de minutos se tranformaram em dias de anos que não soube medir. Voltei de lá com as notas de timbre claro da infância, mas, como se fossem areia em minhas mãos, escorreram. As outras notas, as de hoje, porém, ficaram, seu timbre opaco formou uma harmonia densa, espessa e pegajosa, como se pesasse e grudasse em minhas mãos.
À grande hora do absurdo seguia-se um interlúdio para retornas às gentes. São, a mim, dois universos demasiadamente distintos, um habitado por anjos e arcanjos coloridos e cheios de poder, outro por tédios, banalidades e vilanias. Eu sou, ainda assim, bruto, um rude desencontrado, assistindo a minha comunicação falhar, faltar, para que me seja impossível compartilhar.
Quando é noite e a lua me visita, vou ao outro lado, e lá bebo e comemoro em gozo, pois desses prazeres aprendi a mestrar, e reger seus ritmos me agrada, porquanto o tédio não se me venha visitar novamente.
Sinto saudade da coxilha dos ventos, onde os trigais se balançavam em ondas harmônicas, simétricas, suaves, como se fossem regidos por Mozart, como se tivessem mãos para acariciar e acalentar minha alma. Hoje, afasto essa saudade com os afagos dum corpo igualmente suave, sutil, cheirando à óleo de castanha ou buriti, e ela a mim agrada o corpo, arrefece minha pele, e enterra os pensamentos circulares.
Quando, em mim, ela termina sua sede, eu ainda estou hirto, e minha sede nunca cessa, nunca cessará, é, pois, uma ânsia de infinito. Nela, entretanto, só vejo o gozo atendido, como uma criança, o corpo desfalecido em cansaço e suor, e ali está bem claro o limite, contrário ao meu infinito, e teimo comigo para circunscrever aquele pequeno planeta, e assim vou, tal um corpo celeste negro, um halo ao avesso, murcho flores, empalideço cores para alimentar de vida o monólogo daquela combustão, aumentar a chama com o carvão dos corpos que gemem e gozam em mim.
Era uma tarde de verão, e os vendedores de picolé cruzavam as ruas. Ela tomou em suas mãos um picolé mini-saia, até hoje o cheiro e o gosto me seguem, chupou o doce com vontade e gula insaciável. Acho que tomei para mim a parte do insaciável e deixei ela chupando o picolé como se quisesse de volta o que eu havia lhe tirado.
Esse escárnio que hoje vês em meu sorriso é a ironia que lanço ao espelho, pois são tão carente de mundaneidade quanto uma sombra de seu dono.
Ao conversar, olho nos olhos das pessoas, elas desviam o olhar constantemente, como se eu pudesse lhes roubar algo, bem que eu gostaria, mas o que desejo já lhes falta, e não foi tomado à força, mas esquecido numa fila, esperando. E seus globos são vagos, suas órbitas tangentes à verdade.
Quanto mais caminho pelos ermos do meu mundinho, quanto mais das minhas miudezas me torno consciente, tanto mais doloroso, demorado e inútil se torna meu interlúdio.
Que tal terminar a sonata e ir para o próximo ato?
solilóquio
1E a solidão é estar entre o homem e o sobre-homem
E é tentar viver sem olhar muito para o abismo
E se alguém pudesse encontrar seus pensamentos
Seria como se o mundo fosse retirado das suas costas, Atlas
A solidão é não compartilhar-se, não por inapetência, não por inabilidade
Não podemos fazê-lo, ninguém pode desvendar os véus da vida alheia
Ninguém pode encostar nas entranhas recônditas da alma que não é sua
E a solidão é não poder contar com a compreensão
Não há companhia, não há aliança, não há matrimônio
Há, pois, o escuro, o silêncio, o vento e a chuva
Também o raio que atravessa um temporal não tem companhia
E todos o vêem, todos o ouvem, mas ninguém o compreende
E o limite é descrever seu magnetismo e sua energia
Quem poderia, no entanto, descrever sua própria consciência em miúdos sem pecar em um só momento?
A solidão é sermos falhos, vazios, cegos
E em nós se esconde uma ânsia de final, pois não há maior pesar do que descobrir-se sozinho
Se eu falar das minhas razões, um não compreenderia
Se eu explicasse o fato, outro não entenderia
E se eu disser o que vejo à frente, ninguém mais ouvirá
Ninguém pode tocar e me contar que é quente ou frio, claro ou escuro, bom ou ruim
Ninguém pode fazer nada a respeito do que não é de si
E essa impossibilidade nos torna sozinhos, limitados pela comunicação
pobre Werther
0Essa semana li Os Sofrimentos do Jovem Werther, do Goethe, escritor alemão. O livro, escrito na forma de cartas que o próprio Werther redige na maior parte, deixando (um pouco) esse formato perto do final, quando mais detalhes acerca da psique do personagem são necessários, conta a história do nosso Jovem, um rapaz destoante dos costumes da época, da aristocracia, do hábito e das burocracias.
Werther estava em conflitos com a sociedade em que vivia, e resolve morar numa cidade longe de sua família e conhecidos para se dedicar à pintura, o que não acontece. O que, de fato, sucede-se é de o jovem se apaixonar por Carlota, uma bela rapariga que perdeu sua mãe há algum tempo e, desde então, tomara o papel de cuidar da casa e de seus irmãos para si. Claro que todo conteúdo sobre Carlota nos é fornecido pelo próprio Werther, que, (repito) apaixonado, não hesita em enaltecer a angelicalidade da moça.
Sabe-se desde o início que Carlota é noiva, e mais tarde o próprio Werther conhece o noivo, Alberto, por quem nutre uma amizade quase tão grande quanto a que tem para com Carlota, e mesmo amanda descomedidamente essa mulher, ele acompanha o casal em inúmeros passeios, conversas e refeições. Ah, pobre Werther, suportar tantas provações contra seu amor. Com o realismo, é óbvio que Carlota se casa com Alberto, e, aos poucos, Werther vai sendo afastado do casal, seu comportamento se torna mais arredio, tempestuoso.
Juntemos, agora, os fatos: longe da família, sem conseguir produzir o ofício ao qual deveria se dedicar, revoltado para com os prceitos sociais da época e, acima de tudo, seu amor rejeitado, de certa forma, por Carlota. O final é óbvio, e se pra você, meu não tão bom entendedor, isso não foi o suficiente, aconselho que leia o livro.
Tanto fogo e inconstância na alma de Werther podem ser, facilmente, trazidos por identificação a nós mesmos. O jovem vai se metendo cada vez mais por uma caminho negro e sem volta. Ouvi dizer, ou li, que o livro havia sido proibido por alguns anos quando foi editado, pois o fizeram bem, o leitor mais desavisado pode, facilmente, ser guiado como aqueles primeiros leitores dos finais do século XVIII, terminando como um peru.
Em minhas leituras tenho notado uma grande divisa no intimismo e profundidade psíquica e filosófica dos livros pré e pós Nietzsche. Explico: antes, tratava-se mais de paisagens, ambientes, cores e afins; depois, de pensamentos, causas, sensações, emoções, etc. Os Sofrimento do Jovem Werther, no entanto, fogem ao padrão do que li até hoje da época, e, por que não, até mesmo do próprio Goethe, pois, ainda que subjetivamente, traz uma enorme carga emocional.
Havia lido esse livro quando era adolescente, achei certo relê-lo, aproveitar melhor com o que conheço hoje, e jurei para mim nunca mais pensar em lê-lo outra vez. É perigoso. Portanto, meu caro leitor, sinceramente, se não se sente muito alegre, nem comece a leitura, não quero perder um dos poucos que me visitam.
agora ouve
4Senta-te e escuta
Escuta tudo que tenho pra te falar
Pois te amo dos pés aos cabelos
E em todas as dimensões do teu corpo
E em cada miudeza da tua alma
Pois de ti é meu mosaico mais lindo
Quando junto cada pedacinho e os transformo
É como se fizesse um sigilo para esconder de mim mesmo que é a ti que estou adorando
Senta, escuta, pois é de todo o todo teu que meu ser se enche e se lambuza
Não é por serem o tempo e o espaço mensuráveis que eu poderia fazer o mesmo com meu sentimento
Não quando é de ti que eu falo, não se pode medir ou pesar
Ai, que quando acordo e já penso em te ver é um sol
Se o dia, porém, passa-se sem que te veja, a noite me é morte
E só de cruzar meus olhos sobre ti já me vejo cheio
E ao conversar com aqueles que ouviram tuas palavras é como se eu fosse preenchido por uma luz, tal qual a lua me iluminando, mas eu querendo o sol
Senta-te e me escuta, apreende o que há dentro do incomensurável desejo