Posts tagged alma
olha-me
0Encantado,
Meu nome é dependência,
Sou tua própria demência,
Dormindo no teu ser, aconchegado.
Sou química, sou física, sou mente e espírito;
Corpo e prazer, dor e desespero;
Tu escolhes um item e eu me esmero
Para te satisfazer ao máximo, eis meu fito.
Serotonina, adrenalina, cafeína e neosaldina,
Calmante, estimulante, anti-depressivo, rum com coca,
Cocaína, heroína, cigarro ou comida,
Hormônio, proteína, creatina ou albumina.
abre rubi
1Se eu conseguisse encontrar aquela porta,
Ou entrar por aquela janela, no último andar,
Poderia te ver, de novo, no quarto a sonhar,
Seria teu cúmplice, nessa história morta.
Confrontaria teus demônios, e meu ombro
Seria o universo de teus prantos descabidos;
Encolhidos, confortariam teus doridos
Choros de medo, de preto, de assombro.
Escombro…
Sobrei em pedaços do último enlace,
Por isso o meu pensar é torto.
Mordo minh’alma, sem calma, morto.
Solto a corda e sou teu ombro acolhedor;
Salto do telhado pra poder olhar pela janela.
bitter
1Querer te afastar? Como assim? De forma alguma.
Tu, que já fazes parte de minha existência, és ser do meu ser, moras em mim como uma erva no tronco de uma árvore cinzenta. Nutre-te!
Disseca, resseca, ou apenas seca o que há para ser evaporado em mim. Essas hídricas amarguras esquentam minha face, avivam minha mente, fortalecem o meu corpo. Eu as aceito assim mesmo, não há mal nenhum.
Há minha culpa, e tu estás ali dentro dela.
Há minha imensa insegurança, e lá tu tens tua morada também.
Fechaste muitas janelas em minh’alma, trancaste portas que eu nunca mais conseguirei abrir, sempre permanecerão fechadas, e, sinceramente, isso deve ser bom, de alguma forma.
És comedida em teus impérios, cautelosa em tuas conquistas, sabes que o terreno é valioso.
Ah, e olha quantos frutos dourados tens me trazido.
Não, eu não te afasto nem te evito, nem te quero ou desejo. Convivo contigo e tu me mostras um outro tipo de sabedoria.
Ah, e esses frutos serão de alcance dos que quiserem, pois tu não és egoísta.
dança
2Alguém que se desprenda, eis o que precisamos. Um salvador, um Zaratustra.
Há demasiada carência em nossas almas, procuramos por sustentações, usamos os outros de bengalas; portanto, é necessário que nasça o nosso pilar maior.
Falo de outro profeta, alguém que entenda o povo e o leve à consciência. Não falo em pastores, mestres, padres… não falo em igreja universal da puta que pariu, do quadrado da sétima constelação do santo do último dia no apocalipse… nada disso. Precisamos dum centro de pensamentos, ele será o salvador, não uma pessoa, não uma instituição, uma corrente, uma filosofia, um novo jeito de pensar e agir. Não terá olhos nem boca, mas deve ver e falar. Será estrelas, vales, mares, matas, muitas coisas que queremos conceber.
E tudo isso, numa fagulha de inovação, far-nos-á despertar para a Dança Cósmica que nos convida a Natureza há milhões de anos.
Não, o santíssimo não nasceu, ele está há mais tempo do que é permitido nascer. Mas não parou desde então a sua dança. Apoiemo-nos nesse par e dancemos, pois esta é a nossa fortaleza, firme.
Zaratustra disse à mente sagaz de Nietzsche que só poderia crer em um Deus que soubesse dançar. Pois aí está, para todos, a dança, a música e o dançarino. Chega de guerra com os galhos que vão quebrar no outono e no inverno.
Dancemos sobre as folhas.
nauticus
3Porque era uma metade que desmoronava
E não sabia aonde iria parar
Rodava, girava, era levado pelos ventos e pela maré
E não sabia onde poderia parar…desmoronado
Ainda que uma parte permanecesse em pé, firme e segura
A outra metade, abandonada ao destino
Não tinha ninguém para salvá-la ou protegê-la
Nem na vida poderia a tirar da morte que sentia
E ia quebrando, ruindo, despedaçando cada retalho que a muito custo costurou
Naquele barquinho que navegava sem rumo, via uma correnteza incerta
Daquele vento que se lhe batia sentia sua distância da terra firme, de outra alma
Nem via sua outra metade, nem via outra qualquer, nem via terra, nem via faróis
Só…
Só…
Só…
Ah, se o barco afundasse… O irônico é que ele segue tão resoluto ao nada que a própria metade, desvanecida, chega a acreditar que ele a leva à algum lugar
Levaria?