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Causos Abafados – I – Parte Dois

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Nem ele nem o amigo que sobreviveu entenderam o que estava acontecendo, e beberam em homenagem ao amigo morto, beberam pela raiva que sentiam do mundo que não compreendiam, que não os compreendia.

Aos 17 anos já haviam reprovados duas vezes, sempre os dois juntos, e já não eram mais sucesso entre as garotas, nem as mais novas que agora eram suas colegas. As coisas iam piorando, como uma bola de neve, primeiro  seu amigo foi internado numa clínica para drogados. Sem parceria e num momento de sensatez, ficou 6 meses longe das ruas, passou de ano, ainda tinha facilidade com as matérias da escola.

Sua mãe trabalhava de manhã e de tarde, à noite assistia televisão e ouvia velhos discos. Cozinhava mal, mas sempre deixava pronta a janta para ele, o almoço ela não tinha tempo.

Quando o amigo voltou da clínica, magro, com olheiras, ele sentiu uma espécie de asco, medo, raiva, tudo ao mesmo tempo. Ele não via mais o mesmo amigo, era alguém diferente, apagado, mas que, de forma alguma estava curado. No primeiro final de semana juntos queimaram uma bomba, pra “relembrar os velhos tempos”.

No reinício se controlaram, bebiam e fumavam apenas finais de semana, mas as coisas iam acontecendo, os pais do amigo internado se separaram, e por uns dias ele foi posar na casa do nosso jovem e sua mãe. Ambos tinham 18 anos, e as drogas voltaram, a cocaína se tornou mais frequente, um conhecido novo levava a branca pra eles por um preço bem em conta.

No dia em que completou 19 anos aconteceu a overdose de cocaína. O agora já não tão mais jovem foi internado no hospital por 4 dias, recuperou-se bem, e na volta para casa, na mesma noite, pegou uma buchinha escondida no armário e cheirou inteira. Sua mãe ouviu gritos no quarto, com música alta, de madrugada, e finalmente percebeu que algo estava errado.

Um mês e outra overdose depois, ele foi internado na mesma clínica que seu amigo estivera. Foram 4 anos de idas e vindas, limpas e recaídas, e hoje, limpo por quase um ano, me conta essa história com um pesar na alma que me dá um nó na garganta só de lembrar.

Seu pai continua apenas enviando pensão, parece que gosta desse jeito, mantém sua consciência limpa e seu tempo imaculado da presença do filho quase esquecido. Sua mãe dá aulas ainda, ainda assiste novela e ouve discos à noite, mas também faz um curso de mestrado duas vezes por mês. Ele está na faculdade, e ninguém da sua antiga turma está por perto para relembrá-lo do passado que ele não faz questão de lembrar.

Causos Abafados – I – Parte Um

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Na época ele era jovem, tinha 19 anos, morava numa cidade do interior, nem pequena nem grande. Sua mãe era professora do ensino médio numa escola estadual, morena, magra, cabelos crespos, estava com 38 anos na época, ainda mantinha uma certa beleza, e seu jeito hippie ainda persistia na forma de caminhar, de se vestir, de olhar e de viajar internamente, sem dar muita importância, ou sem perceber, ao que pensavam sobre ela, seus alunos ou seus colegas de trabalho. Ela não tinha muitos amigos, havia se mudado para aquela cidade quando ficara grávida dele, isso porque seu marido na época, o pai do garoto, havia sido transferido. O pai do jovem estava na época com 44 anos, a transferência aconteceu quando ele fora promovido para subgerente do banco em que trabalha até hoje; no tempo em que a criança nascera ele era bonito, também moreno, jogava futebol com os amigos, tinha quase corpo de atleta, fumava maconha com a, então, namorada, divertia-se e adorava escapar para outros corpos femininos, nos churrascos após os jogos ia a bailes e se divertia com as loiras, dizia ele que só seria traição se fosse morena como sua futura esposa.

Ele nasceu e ela interrompeu os estudos, que terminaria dois anos depois, deixando a criança muito tempo com a babá, que colocava calmante na sua mamadeira. Os tempos eram bons, a economia do país era boa, as coisas eram compradas facilmente, não havia inflação, o dinheiro rendia e a comida estava sempre na mesa, e os natais eram cheios de presentes e alegres.

No dia em que completou 6 anos seu pai recebeu a notícia de uma promoção, seria agora gerente do banco, contudo, precisavam mudar de cidade. Ela ficou muito feliz pela promoção, mas detestou a idéia de se mudarem novamente, dessa vez para uma cidade fora do estado. Como o pai precisava ir logo, foi sozinho, até que o ano letivo terminasse, isso duraria quase 3 meses.

Ela estava dando aula para a quarta-série, seu filho estava na primeira e era um prodígio. O pai, lá de longe, mandava dinheiro toda semana; e, no início do segundo mês, começou a enviar quantias maiores. Ela pensava que era porque estava ganhando muito bem, ele fazia isso como jeito de limpar a consciência do que estava fazendo.

Lá na cidade nova, no Paraná, ele conhecera uma morena, mais bonita, mais inteligente, mais independente, mais apaixonante. Começou a se relacionar e o que mais queria evitar aconteceu: apaixonou-se.

Chegando perto do final do ano letivo o pai voltou à cidade, ela pensando que era pra ajudar na mudança, e ele querendo dar um fim ao casamento de maneira amigável. Quando ela recebeu a notícia ficou sem reação por alguns segundos, depois teve um ataque histérico o qual parece ter sido o início de uma série de problemas psicológicos. O estopim.

O garoto cresceu com o salário da mãe professora e a pensão generosa do pai bem-sucedido que, aliás, era repelido ao máximo por sua mãe, e seu contato com ele foi diminuindo. Como o pai parecia não fazer muita questão de estabelecer uma relação, o laço foi se desfazendo, e a figura paterna não foi substituída por ninguém mais, nem avô, nem tio, nem padrasto.

Aos doze anos tomou o primeiro porre com o pessoal da escola, numa festinha do irmão mais velho de um dos colegas. Era sempre ele e seus quatro amigos, roqueiros, os cinco que todos finais de semana tomavam cachaça com coca-cola com o dinheiro economizado do lanche da escola. E a mãe do rapaz parecia sempre imersa dentro dela mesma, afogada demais pra perceber as mudanças, pra perceber que o prodígio estava sendo apagado aos poucos.

A cachaça com coca ficou mais frequente, e o baseado entrou na história quando eles tinham 13 pra 14 anos. Era fácil conseguir, era barato, e era, acima de tudo, descolado, as garotas achavam eles os maiorais, e assim foi até os 16 anos, quando todos começaram a estudar com mais afinco. Dois dos cinco se afastaram, retomaram as rédeas, assumiram as responsabilidades. Restou ele e mais dois dos amigos.

Foi numa noitada, após um dos dois ter brigado com seus pais, que eles tomaram um dos maiores porres da vida e o filho que fugira de casa roubara o carro dos pais. Bêbados, chapados, experimentaram a cocaína e a velocidade do carro que mal sabiam dirigir. A primeira morte da turma, a do garoto que havia brigado com os pais.

Lei anti-fumo

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Sério, como assim proibir que se fume dentro de bares ou boates? O cheiro incomoda algumas pessoas, eu sei, mas tenho plena certeza que um bêbado chato incomoda várias vezes mais. Sério, proibir o cigarro em bares é eficaz para o Ministério da Saúde? Para mim não, eficaz seria proibir a fabricação dos cigarros, mas isso eu não quero.

Vi entrevistas nas ruas de São Paulo sobre a proibição do cigarro em bares e boates de São Paulo, as pessoas entrevistadas, sem exceção, ressaltaram unicamente o fato de que o cigarro tem um cheiro forte (fedido?) e isso incomoda. Nem uma rica alma lembrou-se de que o Ministério da Saúde busca uma diminuição nos gastos de tratamento de pessoas com problemas devido ao fumo passivo.

É óbvio que essa lei só será eficaz se forem fiscalizados os estabelecimentos, entretanto, devo dizer, temos um exemplo bem recente de lei que não deu certo. A tolerância zero do álcool ao volante existe ainda, mas aquele fervor do início já foi esquecido, a fiscalização foi deixada de lado quase totalmente, e as pessoas continuam dirigindo após beberem, estando ou não estando bêbadas. E isso não mata mais que fumar passivamente?

O mais ridículo foi um bar que apareceu na televisão onde foi pintada uma faixa amarela limitando onde se pode ou não fumar. Claro, uns trinta centímetros são o suficiente para impedir a fumaça do cigarro de chegar aos outros.

Pois então, se existem aqueles que estão incomodados com o cigarro nos bares e boates, eu levanto e digo que me sinto incomodade com os bêbados fiasquentos, com as pessoas grosseiras, com os músicos ruins, todas essas espécimes que se acham nas noites das cidades. Então, posso exigir que se proiba a bebida para que os bêbados não surjam nos incomodando, ou que seja proibida a entrada ou permanência de bêbados dentro dos estabelecimentos. Tenho ainda mais propriedade para pedir o veto das pessoas grosseiras nos bares e boates, aquelas que brigam, que empurram, que são intencionalmente mal-educadas e toda sorte desses descorteses que têm hábitos noturnos.

Um parágrafo especial para manifestar meu desejo de proibir que músicos ruins toquem nos bares ou boates. Se uns se incomodam com o cigarro, eu me incomodo muito com músicos e músicas ruins. Penso que a música toca tão facilmente as emoções das pessoas que essas ofensas aos ouvidos possam causar tanto mal quant o fumo passivo. Posso até fazer uma advertência: O Ministério da Saúde adverte, músico ruim causa ansiedade, estresse e raiva.

Vamos proibir, vamos segregar, quem fuma vem aqui, quem bebe vai ali, quem é grosseiro vai pro galinheiro e músico ruim vai pra câmara de gás.

tolerância zero

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Com essa nova lei de tolerância zero de álcool para quem dirige, nós, motoristas, devemos que nos cuidar, além de cuidar dos outros, e, por que não, os outros cuidarem de nós?
Primeiramente, não usemos anti-séptico bucal que contenha álcool. Sabe como é né, vai que isso embebeda.
Ah, não coma bombom de licor, aqueles recheados, deliciosos, sabe? Não o coma quando for dirigir, esse bombom pode sair muito caro.
Muito cuidado com o remédio que for tomar, alguns remédios bem comuns possuem álcool, e você vai dizer o que para o policial, que estava usando remedinhos? Acho melhor dizer que estava chapado, afinal, maconha não tem álcool até onde eu sei.
Quando for almoçar, pergunte a quem cozinhou se a salada tem vinagre; se sim, de que tipo? Ora, se for vinagre de álcool não coma, vá direto praquela massa logo a sua frente. Você se imagina dizendo pro policial que comeu muita salada com vinagre, e se imagina recebendo na sua casa uma cartinha informando que levou sete pontos na CNH além de bem mais do que o dobro de salário mínimo de multa?
Não sei não, mas até hoje só vi uma latinha de cerveja tirar o senso de direção do meu cachorro falecido (eu sei, é maldade; e não, ele não morreu por isso).
Como não sou legislador, creio que vou fazer campanhas sociais (hoje todo mundo faz isso). Mais umas “tolerância zero”: chega de corrupção, chega de abuso do dinheiro público, cheia de velhos gordos e preguiçosos fazendo o que bem entendem no congresso nacional sem a mínima consideração alheia, chega de funk, chega de Gilberto Gil, chega de hipocrisia e chega de igreja do senhor jesus cristo do nono dia da terceira esperança na quinta ponta do círculo quadrático.
Ahn, que?
Acho que não vou dirigir agora, devo ter comido muito bombom de licor.

http://zerohora.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default.jsp?uf=1&local=1&section=Geral&newsID=a2004532.xml

carência de si, ou de mi

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Acho que foi no Zero Hora, li uma entrevista com a Fernanda Young. Primeiramente, devo elogiá-la pelo caráter, por ser ela mesma independente do que falam ou pensam, podem até não gostar dela, mas a sinceridade e retidão para consigo que ela tem, ou ao menos demonstra ter, deve ser parâmetro e exemplo para nós.
Aliás, quem tem visto o programa O Sistema, da rede Globo? Ela é escritora do programa, junto com, acredito eu, seu marido. Estou adorando, é uma viagem completa, uma ironia não muito forte, mas divertida, e piadas inteligentes ou, talvez, intelectuais.
Enfim, já ia me esquecendo o porque de ter citado ela. Retomemos: foi numa entrevista com ela que li sobre a “necessidade” dela de escrever, não vou lembrar exatamente os termos que usou nem os porquês mais precisos, o que também não vem ao caso.
Meus caros, e raros, leitores, este que aqui lhes fala compartilha da Sra. Fernanda Young no que tange a uma necessidade de escrever. Pois bem, vejamos, o ser humano sente uma necessidade de viver, é inquieto, insatisfeito, incompleto e inacabado. Não vejo muitas exceções a essa regra. Se mamíferos humanos são impelidos a viver como caçadores, antes de comida para sobreviver, hoje de qualquer coisa que os compraza, se há essa necessidade, e eu vejo nescidade nisso tudo, nessa imperfeição, nesse ser desajeitado e desorientado, se vejo tolice em grande parte das coisas que vejo quando estou são – seria muito mais sábio admitir sermos ainda animais completamente reacionários aos instintos e impulsos externos. Nesse sentido, e nessa tendência minha à exclusão, vejo a arte como um meio de propagar sentimentos intensos e pesados, aqueles que não vivo, pois se me apaixono não dura mais do que uma ressaca.
A certeza do que escrevo é estúpida, amanhã é incerta. Assim são os poemas incrivelmente negros: metamórficos e mutáveis. No que escrevo existem apenas possibilidades, mas dificilmente verdades completas (e verdade pela metade é mentira). Escapo por ali na minha vontade de viver intensamente, se há algo ali é inveja de não conseguir ser sempre desatento e superficial (por isso há o álcool, e, ainda assim, em doses altas).
Portanto, caro leitor, cuidado: sou ficcionista, romântico e irônico; uma verruga na vida da poesia. Quem me há de cauterizar? Sou animal, instintivo, e aqui expresso o que não é para que, ao menos finja, por alguns segundos, ser; afinal, como escreveu o Marcelo Camelo (ou o Rodrigo Amarante), “e alguma coisa a gente tem que amar, mas o que eu já não sei mais”. Além da família, amigos de verdade, eu mesmo, meu SAG e minha nódoa de razão desajuizada que chamam de poesia, não há nada mais para amar. Escrevo na necessidade de amar algo que não alcanço e não termino(a), pois sou animal insatisfeito.

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