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Insetos
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Achei interessante alguns comentários que fizeram acerca do poema Estrado, postado há uns dias atrás aqui, mais especificamente sobre o verso:
Segue enquanto espera um raio, uma garrafa,
Uma pedra, qualquer coisa mais impossível
Que lhe caia sobre a cabeça sensível
E lhe destrua o amanhã que lh`estafa.
Há tempos está nos meus post its a ideia de um texto que parece ter amadurecido agora. Na verdade, tudo iniciou numa epifania há meses atrás quando vi um inseto se afogando, ou foi um besouro de barriga para cima sem conseguir se virar, um foi o fato e o outro a lembrança, só não lembro qual foi qual (o que também não vem ao caso).
Fiquei pensando o quanto um inseto numa situação dessas precisa/pede a nossa ajuda, nesse momento de agonia e aflição, de desesperadora impotência. Nós temos o poder de, com um simples movimento, devolver a possibilidade de vida ao inseto.
Na verdade, nós somos esses mesmos insetinhos, se debatendo pra lá e pra cá nessa arena gigantesca que é a nossa vida. Seguidamente nos percebemos em situações desesperadoras, ou apenas aflitivas, em que nossos pensamentos parecem circulares, pesados grilhões que nos forçam a permanecer parados mesmo em frenesi.
Aí entra a ideia do raio caindo sobre nós, nos tirando o insustentável peso do poder da escolha, a maldição do livre arbítrio. É reconfortante a possibilidade de entregar nosso destino a algo que está além da nossa compreensão, como se estendêssemos nossa vida de presente, segurando-a com as duas mãos em concha, carinhosamente, e dizendo “tome conta por mim, aja e decida por mim, pois eu não tenho forças”.
Esse é o papel da ideia de deus nas várias vidas que já vi passando pela minha. Vejo, com estes olhos quase cansados de tanta besteira, o quanto nos sentimos dispostos a entregar nosso poder de escolha como quem se livra dum fardo terrível. Deus, ou como quiser chamar, é o encarregado de recolher isso tudo e, de alguma forma, nos condicionar a não mais escolher e aceitar o que acontece.
Podemos chamar isso de Vontade de Impotência, já que sou um plagiador convicto do Nietzsche, me sinto no direito de inverter sua filosofia também.
Sim, temos a Vontade de Impotência!
Não queremos ser fortes, não queremos poder escolher e agir, não queremos essa responsabilidade sobre nossa própria vida, sobre a vida dos que nos cercam. Não queremos esse poder nesse emaranhados de vidas que se tocam e se batem, nessa teia indecifrável.
Queremos a paz da impotência, o sossego da não-escolha. Queremos sentar na poltrona enquanto a tempestade cai lá fora e dizer: “deus quis assim”.
E nós não mexemos um dedo pra ajudar o insetinho quase morrendo. E não nos estendem uma mão divina para nos tirar a aflição do desencontro com o entendimento de que somos fortes o suficiente para carregar muitos outros fardos.