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	<title>Descompassado &#187; adolescência</title>
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		<title>Inoc&#234;ncia e liberdade (ou lentilha de ano novo)</title>
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		<pubDate>Thu, 18 Nov 2010 22:20:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Christian  Silveira</dc:creator>
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<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter" src="http://www.artmajeur.com/0/images/images/ruialbuquerque_2992645_Charneca-ao-Entardecer---We.jpg" alt="" width="576" height="390" /></p>
<p>Hoje tive vontade de comer lentilha. T&aacute;, e da&iacute;?</p>
<p>N&atilde;o, n&atilde;o foi um desejo por lentilha assim, simples e despretensioso, foi um desejo impregnado de um saudosismo quase infundado. Eu tive vontade de comer lentilha de ano novo, porque ela representa na minha vida, depois de tantas repeti&ccedil;&otilde;es, um momento estranho com a minha fam&iacute;lia, um momento em que todos acabam sendo mais “flor da pele”, tiram um pouquinho o cora&ccedil;&atilde;o do peito e mostram que ele tem l&aacute;grimas escondidas, acumuladas, que ele &eacute; de manteiga e que tudo pode ser t&atilde;o maravilhosamente triste, ainda assim, num paradoxo fabuloso, belo e alegre.</p>
<p>Eu sempre tive pavor de ano novo e natal, dessas festas de fim de ano, cheias de gente, comida e risadas&#8230; parecia que eu nunca fora feito para isso.</p>
<p>Desde crian&ccedil;a eu passava a tarde fora de casa, n&atilde;o participava dos preparativos, &agrave; noite ficava no quarto lendo, se poss&iacute;vel com a luz apagada, iluminado apenas por uma lumin&aacute;ria ao lado da cama. Socializava com o resto do pessoal apenas quando estritamente necess&aacute;rio, ou seja, momentos antes da janta e o m&iacute;nimo depois.</p>
<p>Amo minha fam&iacute;lia, adoro estar com eles, mas &eacute; que pra mim esse neg&oacute;cio de natal e ano novo nunca fez muito sentido, s&oacute; depois de um tempo passou a ter o significado de festa e feriado, nada al&eacute;m disso, pra mim (leia-se bebedeira, risadas e ressaca).</p>
<p>Fiquei sem entender bem porque senti esse desejo de lentilha, essa vontade de ano novo, porque a sensa&ccedil;&atilde;o que me veio n&atilde;o foi a de querer esse ano novo de hoje, com muita champagne, vodka e whisky, mas sim aquele da lumin&aacute;ria, dos livros do Paulo Coelho, de passar a tarde jogando t&ecirc;nis e &agrave; noite, sem &aacute;lcool nem internet, dormir.</p>
<p>N&atilde;o quero ser precipitado, mas acho que eu fui muito mais maduro quando era crian&ccedil;a e pr&eacute;-adolescente. Eu n&atilde;o vivia em busca de prazer e risos, tudo bem que eu n&atilde;o era muito expansivo, era um tanto t&iacute;mido, contudo, eu estava muito mais pr&oacute;ximo do <a title="Princ&iacute;pio de Realidade - Wikipedia" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Princ%C3%ADpio_de_realidade" target="_blank">Princ&iacute;pio de Realidade</a>.</p>
<p>Tudo muda com o tempo, nos tornamos homens e mulheres mais funcionais, din&acirc;micos, no entanto, pessoas mais pesadas, mais viscosas, vamos escorrendo pela vida e nos apegando a coisas, sentimentos e sensa&ccedil;&otilde;es e acabamos esquecendo como &eacute; ser livre, de verdade, como uma crian&ccedil;a.</p>
<p>Na verdade, para tornar a ser livre, apenas recuperando a inoc&ecirc;ncia, por isso a ingenuidade e a falta de mem&oacute;ria pode at&eacute; ser algo bom.</p>
<p>Penso que esse desejo de lentilha foi al&eacute;m de uma vontade de ano novo, passou pelos campos da adolesc&ecirc;ncia, ficou olhando pra liberdade pintada em algum retrato por a&iacute; e sentindo falta daquela inocente liberdade ou livre inoc&ecirc;ncia.</p>

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		<title>Causos Abafados &#8211; I &#8211; Parte Dois</title>
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		<pubDate>Thu, 15 Oct 2009 16:30:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Christian  Silveira</dc:creator>
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<p>Nem ele nem o amigo que sobreviveu entenderam o que estava acontecendo, e beberam em homenagem ao amigo morto, beberam pela raiva que sentiam do mundo que n&atilde;o compreendiam, que n&atilde;o os compreendia.</p>
<p>Aos 17 anos j&aacute; haviam reprovados duas vezes, sempre os dois juntos, e j&aacute; n&atilde;o eram mais sucesso entre as garotas, nem as mais novas que agora eram suas colegas. As coisas iam piorando, como uma bola de neve, primeiro  seu amigo foi internado numa cl&iacute;nica para drogados. Sem parceria e num momento de sensatez, ficou 6 meses longe das ruas, passou de ano, ainda tinha facilidade com as mat&eacute;rias da escola.</p>
<p>Sua m&atilde;e trabalhava de manh&atilde; e de tarde, &agrave; noite assistia televis&atilde;o e ouvia velhos discos. Cozinhava mal, mas sempre deixava pronta a janta para ele, o almo&ccedil;o ela n&atilde;o tinha tempo.</p>
<p>Quando o amigo voltou da cl&iacute;nica, magro, com olheiras, ele sentiu uma esp&eacute;cie de asco, medo, raiva, tudo ao mesmo tempo. Ele n&atilde;o via mais o mesmo amigo, era algu&eacute;m diferente, apagado, mas que, de forma alguma estava curado. No primeiro final de semana juntos queimaram uma bomba, pra “relembrar os velhos tempos”.</p>
<p>No rein&iacute;cio se controlaram, bebiam e fumavam apenas finais de semana, mas as coisas iam acontecendo, os pais do amigo internado se separaram, e por uns dias ele foi posar na casa do nosso jovem e sua m&atilde;e. Ambos tinham 18 anos, e as drogas voltaram, a coca&iacute;na se tornou mais frequente, um conhecido novo levava a branca pra eles por um pre&ccedil;o bem em conta.</p>
<p>No dia em que completou 19 anos aconteceu a overdose de coca&iacute;na. O agora j&aacute; n&atilde;o t&atilde;o mais jovem foi internado no hospital por 4 dias, recuperou-se bem, e na volta para casa, na mesma noite, pegou uma buchinha escondida no arm&aacute;rio e cheirou inteira. Sua m&atilde;e ouviu gritos no quarto, com m&uacute;sica alta, de madrugada, e finalmente percebeu que algo estava errado.</p>
<p>Um m&ecirc;s e outra overdose depois, ele foi internado na mesma cl&iacute;nica que seu amigo estivera. Foram 4 anos de idas e vindas, limpas e reca&iacute;das, e hoje, limpo por quase um ano, me conta essa hist&oacute;ria com um pesar na alma que me d&aacute; um n&oacute; na garganta s&oacute; de lembrar.</p>
<p>Seu pai continua apenas enviando pens&atilde;o, parece que gosta desse jeito, mant&eacute;m sua consci&ecirc;ncia limpa e seu tempo imaculado da presen&ccedil;a do filho quase esquecido. Sua m&atilde;e d&aacute; aulas ainda, ainda assiste novela e ouve discos &agrave; noite, mas tamb&eacute;m faz um curso de mestrado duas vezes por m&ecirc;s. Ele est&aacute; na faculdade, e ningu&eacute;m da sua antiga turma est&aacute; por perto para relembr&aacute;-lo do passado que ele n&atilde;o faz quest&atilde;o de lembrar.</p>

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		<title>Causos Abafados &#8211; I &#8211; Parte Um</title>
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		<pubDate>Thu, 15 Oct 2009 05:20:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Christian  Silveira</dc:creator>
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<p>Na &eacute;poca ele era jovem, tinha 19 anos, morava numa cidade do interior, nem pequena nem grande. Sua m&atilde;e era professora do ensino m&eacute;dio numa escola estadual, morena, magra, cabelos crespos, estava com 38 anos na &eacute;poca, ainda mantinha uma certa beleza, e seu jeito hippie ainda persistia na forma de caminhar, de se vestir, de olhar e de viajar internamente, sem dar muita import&acirc;ncia, ou sem perceber, ao que pensavam sobre ela, seus alunos ou seus colegas de trabalho. Ela n&atilde;o tinha muitos amigos, havia se mudado para aquela cidade quando ficara gr&aacute;vida dele, isso porque seu marido na &eacute;poca, o pai do garoto, havia sido transferido. O pai do jovem estava na &eacute;poca com 44 anos, a transfer&ecirc;ncia aconteceu quando ele fora promovido para subgerente do banco em que trabalha at&eacute; hoje; no tempo em que a crian&ccedil;a nascera ele era bonito, tamb&eacute;m moreno, jogava futebol com os amigos, tinha quase corpo de atleta, fumava maconha com a, ent&atilde;o, namorada, divertia-se e adorava escapar para outros corpos femininos, nos churrascos ap&oacute;s os jogos ia a bailes e se divertia com as loiras, dizia ele que s&oacute; seria trai&ccedil;&atilde;o se fosse morena como sua futura esposa.</p>
<p>Ele nasceu e ela interrompeu os estudos, que terminaria dois anos depois, deixando a crian&ccedil;a muito tempo com a bab&aacute;, que colocava calmante na sua mamadeira. Os tempos eram bons, a economia do pa&iacute;s era boa, as coisas eram compradas facilmente, n&atilde;o havia infla&ccedil;&atilde;o, o dinheiro rendia e a comida estava sempre na mesa, e os natais eram cheios de presentes e alegres.</p>
<p>No dia em que completou 6 anos seu pai recebeu a not&iacute;cia de uma promo&ccedil;&atilde;o, seria agora gerente do banco, contudo, precisavam mudar de cidade. Ela ficou muito feliz pela promo&ccedil;&atilde;o, mas detestou a id&eacute;ia de se mudarem novamente, dessa vez para uma cidade fora do estado. Como o pai precisava ir logo, foi sozinho, at&eacute; que o ano letivo terminasse, isso duraria quase 3 meses.</p>
<p>Ela estava dando aula para a quarta-s&eacute;rie, seu filho estava na primeira e era um prod&iacute;gio. O pai, l&aacute; de longe, mandava dinheiro toda semana; e, no in&iacute;cio do segundo m&ecirc;s, come&ccedil;ou a enviar quantias maiores. Ela pensava que era porque estava ganhando muito bem, ele fazia isso como jeito de limpar a consci&ecirc;ncia do que estava fazendo.</p>
<p>L&aacute; na cidade nova, no Paran&aacute;, ele conhecera uma morena, mais bonita, mais inteligente, mais independente, mais apaixonante. Come&ccedil;ou a se relacionar e o que mais queria evitar aconteceu: apaixonou-se.</p>
<p>Chegando perto do final do ano letivo o pai voltou &agrave; cidade, ela pensando que era pra ajudar na mudan&ccedil;a, e ele querendo dar um fim ao casamento de maneira amig&aacute;vel. Quando ela recebeu a not&iacute;cia ficou sem rea&ccedil;&atilde;o por alguns segundos, depois teve um ataque hist&eacute;rico o qual parece ter sido o in&iacute;cio de uma s&eacute;rie de problemas psicol&oacute;gicos. O estopim.</p>
<p>O garoto cresceu com o sal&aacute;rio da m&atilde;e professora e a pens&atilde;o generosa do pai bem-sucedido que, ali&aacute;s, era repelido ao m&aacute;ximo por sua m&atilde;e, e seu contato com ele foi diminuindo. Como o pai parecia n&atilde;o fazer muita quest&atilde;o de estabelecer uma rela&ccedil;&atilde;o, o la&ccedil;o foi se desfazendo, e a figura paterna n&atilde;o foi substitu&iacute;da por ningu&eacute;m mais, nem av&ocirc;, nem tio, nem padrasto.</p>
<p>Aos doze anos tomou o primeiro porre com o pessoal da escola, numa festinha do irm&atilde;o mais velho de um dos colegas. Era sempre ele e seus quatro amigos, roqueiros, os cinco que todos finais de semana tomavam cacha&ccedil;a com coca-cola com o dinheiro economizado do lanche da escola. E a m&atilde;e do rapaz parecia sempre imersa dentro dela mesma, afogada demais pra perceber as mudan&ccedil;as, pra perceber que o prod&iacute;gio estava sendo apagado aos poucos.</p>
<p>A cacha&ccedil;a com coca ficou mais frequente, e o baseado entrou na hist&oacute;ria quando eles tinham 13 pra 14 anos. Era f&aacute;cil conseguir, era barato, e era, acima de tudo, descolado, as garotas achavam eles os maiorais, e assim foi at&eacute; os 16 anos, quando todos come&ccedil;aram a estudar com mais afinco. Dois dos cinco se afastaram, retomaram as r&eacute;deas, assumiram as responsabilidades. Restou ele e mais dois dos amigos.</p>
<p>Foi numa noitada, ap&oacute;s um dos dois ter brigado com seus pais, que eles tomaram um dos maiores porres da vida e o filho que fugira de casa roubara o carro dos pais. B&ecirc;bados, chapados, experimentaram a coca&iacute;na e a velocidade do carro que mal sabiam dirigir. A primeira morte da turma, a do garoto que havia brigado com os pais.</p>

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		<title>whiter shade of pale</title>
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		<pubDate>Thu, 13 Nov 2008 00:55:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Christian  Silveira</dc:creator>
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<p><a href="http://3.bp.blogspot.com/_RRUwkF_C8Ig/SRt8zvfzzGI/AAAAAAAAADE/hGV3zye7lys/s1600-h/dark-door.jpg"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5267941417504984162" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 240px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_RRUwkF_C8Ig/SRt8zvfzzGI/AAAAAAAAADE/hGV3zye7lys/s320/dark-door.jpg" border="0" /></a>
<div>Ele olhou em volta, havia tantas portas, uma infinidade, um sem n&uacute;mero, incont&aacute;veis e todas da mesma forma. Nenhuma inscri&ccedil;&atilde;o, nenhum n&uacute;mero de identifica&ccedil;&atilde;o, entretanto, em cada uma havia uma, podemos assim dizer, aura diferente. Ele deveria, pela primeira vez, refutar toda sua racionalidade e, finalmente, mergulhar na sua incosci&ecirc;ncia e sensibilidade, descobrir o que cada uma lhe traria sem saber o que havia por tr&aacute;s. Uma vez escolhida a porta, as outras se trancariam eternamente, talvez tivessem entradas por outras salas, mas isso &eacute; s&oacute; uma hip&oacute;tese.<br />Pobre, tinha tanta dificuldade em se despir da sua raz&atilde;o e apenas sentir o que elas lhe diziam que ficou tanto tempo parado, sem sequer se aproximar, tendenciosamente, de uma delas.<br />Por fim, resolveu obedecer a um impulso ignoto, coisa de animal, o tipo de sentimento que ele costumava relevar, ou omitir, ou at&eacute; mesmo esconder de si mesmo. Aproximou-se de uma das portas e, lentamente, come&ccedil;ou a ser invadido por um saudosismo. Mas aquilo n&atilde;o tinha sentido algum, era uma sala cheia de portas, fechadas, sem janelas, uma parca luz vinda de algum lugar, era &oacute;bvio que sentiria uma sensa&ccedil;&atilde;o do tipo, seria jogado para a inf&acirc;ncia, lugares na mem&oacute;ria onde se sentiria confort&aacute;vel e seguro.<br />No entanto, as lembran&ccedil;as ficavam cada vez mais n&iacute;tidas. Lembrou-se de um dos dias em que saiu pela rua com seus amigos para fazer nada, tinham todos entre dez e onze anos, compraram uma coca-cola e v&aacute;rios salgadinhos, e caminharam em dire&ccedil;&atilde;o a pra&ccedil;a. Era perto das cinco horas da tarde, o hor&aacute;rio de ver&atilde;o ainda n&atilde;o havia come&ccedil;ado, em cerca de uma hora iria escurecer, e eles se sentiam livres, leves, donos de si, com guloseimas e um mundo imenso ao seu redor.<br />Havia um cheiro suave das &aacute;rvores ao redor, e eles sentaram no banco da pra&ccedil;a, estavam entre quatro. O clima n&atilde;o era mais t&atilde;o frio, era agrad&aacute;vel, havia um vento n&atilde;o t&atilde;o suave vindo do sul, e eles conversavam sobre rock and roll, sobre as namoradinhas da sexta s&eacute;rie. Tudo era divertido, cheio de ingenuidade.<br />Ele se afastou da porta. Sentiu a tristeza de olhar para tr&aacute;s, tinha a certeza de que jamais teria anos t&atilde;o felizes quanto aqueles da sua juventude.<br />Sentia um aperto no cora&ccedil;&atilde;o, literalmente, parecia que se lhe houvessem socado no peito n&atilde;o seria t&atilde;o ruim. O amargo o fez recuar e se dirigir para uma porta mais &agrave; esquerda. Ao chegar perto sentiu um cheiro de comida, era carne de panela e feij&atilde;o. Parecia que podia tocar no cen&aacute;rio, mas se via um adolescente agora, j&aacute; tinha quinze anos, era meio-dia e chegara do col&eacute;gio para almo&ccedil;ar, sua m&atilde;e preparava o almo&ccedil;o, e ele estava brigado com seu pai, j&aacute; manifestava os primeiros sinais de auto-afirma&ccedil;&atilde;o. Olhava para o p&aacute;tio da casa e observava as nuvens escuras chegando rapidamente com o vento, em breve iria chover, e ele poderia ficar o dia inteiro em casa, sem fazer nada de especial. Sentia naquilo tudo um vazio, ali come&ccedil;ara sua derrocada, naqueles momentos s&oacute;brios de ociosidade infrut&iacute;fera, iniciara ali seu afastamento do mundo, o pequeno lobo aprendendo a ser selvagem, mostrando os dentes.<br />Afastou-se dessa porta tamb&eacute;m, n&atilde;o sabia o que mais lhe do&iacute;a, se era a saudade de tempos incontestavelmente &oacute;timos ou o reconhecimento de erros t&atilde;o distante e pueris que, mesmo podendo ser concertados, demandariam um esfor&ccedil;o quase sobre-humano em sua psique. Ele j&aacute; era mat&eacute;ria s&oacute;lida, sua teimosia em si mesmo residia como um parasita lhe sugando uma seiva vital.<br />Permaneceu um tempo parado no centro da sala oval, olhando para o ch&atilde;o, vendo a luz fraca se espalhar. Batalhava contra si mesmo, o lobo queria dar um jeito de sair do jogo, estava cansado e precisava morder alguma coisa, o homem queria saber de cada porta, o que elas significavam e outras tantas coisas.<br />Num esfor&ccedil;o, voltou-se para tr&aacute;s e foi rapidamente para outra porta. Tocou nela, sentiu sua textura, era madeira, cedro, espessa, escura, fria. Aquela frieza o lembrou de tempos n&atilde;o t&atilde;o distantes, das suas buscas v&atilde;s por um esp&iacute;rito satisfeito, por uma alma sadia, mas o mais perto que chegou foi do sadismo. Havia sexo ali, e s&oacute; sexo, j&aacute; n&atilde;o conhecia o amor apaixonado da adolesc&ecirc;ncia, nem o amor comedido dos seus vinte anos. J&aacute; estava com vinte e cinco, rec&eacute;m formado, trabalhava e ganhava um dinheiro bom. Sa&iacute;a aos finais de semana com os poucos amigos que tinha, e estes ele sempre os mantinha a certa dist&acirc;ncia com medo n&atilde;o se sabe de que. No seu quarto s&oacute; entravam mulheres, &agrave;s vezes at&eacute; mais de uma na mesma noite. Era sexo, e s&oacute; sexo. Sentia falta do amor, e esse vazio o fazia distante, satisfazia-as com prazer, mas nunca com sentimento, n&atilde;o por maldade, mas por impossibilidade. J&aacute; nao era apto ao verbo amar.<br />Meditava, outras vezes, com seus exerc&iacute;cios espirituais, sem nunca saber ao certo se estaria fazendo a estrada correta. E essa d&uacute;vida revivida o fez recuar da porta e pensar que poderia ter seguido por escolhas erradas atr&aacute;s de outras tamb&eacute;m erradas, enganando-se de porta em porta, j&aacute; n&atilde;o poderia voltar nem mesmo imaginar alguma outra hip&oacute;tese de vida.<br />Com toda certeza, aquela foi a porta que mais lhe esvaziou os sentimentos. N&atilde;o era dor, era comedimento e resigna&ccedil;&atilde;o. O lobo estava angustiado, j&aacute; babava de raiva, mas o homem sufocava o instinto, e a ira ficava contida.<br />Resolveu tentar outra vez. Havia uma porta reto a sua direita, e ele se dirigiu para l&aacute;. Ao chegar bem perto, sentiu nada, absolutamente nada. Era como se ficasse envolto de uma luz totalmente branca, a maior alvidez poss&iacute;vel, o pr&oacute;prio princ&iacute;pio da luz. E j&aacute; n&atilde;o sabia quantificar o espa&ccedil;o ou o tempo, n&atilde;o sabia se situar em coordenadas ou dimens&otilde;es.<br />Havia cansado de mem&oacute;rias, de lamenta&ccedil;&otilde;es. As ilus&otilde;es eram as mesmas, invariavelmente. As lembran&ccedil;as estariam sempre ali para ele se lamentar de suas escolhas, sem nem ao menos lhe ser permitido saber se teria possibilidade de ter feitos caminhos diferentes. &Agrave;s vezes acreditava que n&atilde;o podia, nunca, ter feito nada diferente, se lhe dessem mil ocasi&otilde;es repetidas, ele seria impelido por for&ccedil;as incognosc&iacute;veis a fazer mil vezes exatamente o mesmo.<br />Ah,ele abriu a porta e entrou, resoluto.</div>

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		<title>achou?</title>
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		<pubDate>Fri, 20 Jun 2008 01:49:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Christian  Silveira</dc:creator>
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		<category><![CDATA[adolescência]]></category>
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		<description><![CDATA[Algu&#233;m viu um pedacinho de vida por a&#237;?Se viu me avisa, &#233; meu. N&#227;o sei onde deixei. E se eu deixei na escola, no meio do p&#225;tio do recreio?J&#225; devem ter levado e est&#227;o aproveitando do pedacinho. E se eu deixei nos cortes da adolesc&#234;ncia?Sangrou pelo ralo e n&#227;o percebi. Ser&#225; que foi no trago [...]]]></description>
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<p>Algu&eacute;m viu um pedacinho de vida por a&iacute;?<br />Se viu me avisa, &eacute; meu. N&atilde;o sei onde deixei.</p>
<p>E se eu deixei na escola, no meio do p&aacute;tio do recreio?<br />J&aacute; devem ter levado e est&atilde;o aproveitando do pedacinho.</p>
<p>E se eu deixei nos cortes da adolesc&ecirc;ncia?<br />Sangrou pelo ralo e n&atilde;o percebi.</p>
<p>Ser&aacute; que foi no trago com rock and roll?<br />Sabe como &eacute;&#8230; amigos e tragos&#8230;</p>
<p>E se esqueci em casa, junto com o nescau e as bolachas recheadas?<br />Ser&aacute; que a m&atilde;e colocou no lixo, sem querer, junto com os farelos do p&atilde;o?</p>
<p>Ou no campo de futebol?<br />Lembro do final de tarde, ap&oacute;s o jogo, eu conversava com os amigos e fui embora distra&iacute;do. Posso ter deixado l&aacute;.</p>
<p>Ah, n&atilde;o!<br />E se esqueci, naquela madrugada, naquela casa?<br />Ser&aacute; que ficou guardado?</p>

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		<title>Jethro Tull &#8211; My God (Live)</title>
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		<pubDate>Mon, 17 Mar 2008 01:12:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Christian  Silveira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Eu]]></category>
		<category><![CDATA[adolescência]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

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<p>Esses caras, que marcaram minha adolesc&ecirc;ncia, deveriam ter todas suas m&uacute;sicas (principalmente do Aqualung) postadas aqui, mas, pra n&atilde;o chatear muito, vai s&oacute; uma.<br />Aprecie com aten&ccedil;&atilde;o.</p>
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