Artigos com o marcador adolescência
Causos Abafados – I – Parte Dois
15/10/09
Nem ele nem o amigo que sobreviveu entenderam o que estava acontecendo, e beberam em homenagem ao amigo morto, beberam pela raiva que sentiam do mundo que não compreendiam, que não os compreendia.
Aos 17 anos já haviam reprovados duas vezes, sempre os dois juntos, e já não eram mais sucesso entre as garotas, nem as mais novas que agora eram suas colegas. As coisas iam piorando, como uma bola de neve, primeiro seu amigo foi internado numa clínica para drogados. Sem parceria e num momento de sensatez, ficou 6 meses longe das ruas, passou de ano, ainda tinha facilidade com as matérias da escola.
Sua mãe trabalhava de manhã e de tarde, à noite assistia televisão e ouvia velhos discos. Cozinhava mal, mas sempre deixava pronta a janta para ele, o almoço ela não tinha tempo.
Causos Abafados – I – Parte Um
15/10/09
Na época ele era jovem, tinha 19 anos, morava numa cidade do interior, nem pequena nem grande. Sua mãe era professora do ensino médio numa escola estadual, morena, magra, cabelos crespos, estava com 38 anos na época, ainda mantinha uma certa beleza, e seu jeito hippie ainda persistia na forma de caminhar, de se vestir, de olhar e de viajar internamente, sem dar muita importância, ou sem perceber, ao que pensavam sobre ela, seus alunos ou seus colegas de trabalho. Ela não tinha muitos amigos, havia se mudado para aquela cidade quando ficara grávida dele, isso porque seu marido na época, o pai do garoto, havia sido transferido. O pai do jovem estava na época com 44 anos, a transferência aconteceu quando ele fora promovido para subgerente do banco em que trabalha até hoje; no tempo em que a criança nascera ele era bonito, também moreno, jogava futebol com os amigos, tinha quase corpo de atleta, fumava maconha com a, então, namorada, divertia-se e adorava escapar para outros corpos femininos, nos churrascos após os jogos ia a bailes e se divertia com as loiras, dizia ele que só seria traição se fosse morena como sua futura esposa.
Ele nasceu e ela interrompeu os estudos, que terminaria dois anos depois, deixando a criança muito tempo com a babá, que colocava calmante na sua mamadeira. Os tempos eram bons, a economia do país era boa, as coisas eram compradas facilmente, não havia inflação, o dinheiro rendia e a comida estava sempre na mesa, e os natais eram cheios de presentes e alegres.
No dia em que completou 6 anos seu pai recebeu a notícia de uma promoção, seria agora gerente do banco, contudo, precisavam mudar de cidade. Ela ficou muito feliz pela promoção, mas detestou a idéia de se mudarem novamente, dessa vez para uma cidade fora do estado. Como o pai precisava ir logo, foi sozinho, até que o ano letivo terminasse, isso duraria quase 3 meses.
whiter shade of pale
12/11/08
Pobre, tinha tanta dificuldade em se despir da sua razão e apenas sentir o que elas lhe diziam que ficou tanto tempo parado, sem sequer se aproximar, tendenciosamente, de uma delas.
Por fim, resolveu obedecer a um impulso ignoto, coisa de animal, o tipo de sentimento que ele costumava relevar, ou omitir, ou até mesmo esconder de si mesmo. Aproximou-se de uma das portas e, lentamente, começou a ser invadido por um saudosismo. Mas aquilo não tinha sentido algum, era uma sala cheia de portas, fechadas, sem janelas, uma parca luz vinda de algum lugar, era óbvio que sentiria uma sensação do tipo, seria jogado para a infância, lugares na memória onde se sentiria confortável e seguro.
No entanto, as lembranças ficavam cada vez mais nítidas. Lembrou-se de um dos dias em que saiu pela rua com seus amigos para fazer nada, tinham todos entre dez e onze anos, compraram uma coca-cola e vários salgadinhos, e caminharam em direção a praça. Era perto das cinco horas da tarde, o horário de verão ainda não havia começado, em cerca de uma hora iria escurecer, e eles se sentiam livres, leves, donos de si, com guloseimas e um mundo imenso ao seu redor.
Havia um cheiro suave das árvores ao redor, e eles sentaram no banco da praça, estavam entre quatro. O clima não era mais tão frio, era agradável, havia um vento não tão suave vindo do sul, e eles conversavam sobre rock and roll, sobre as namoradinhas da sexta série. Tudo era divertido, cheio de ingenuidade.
Ele se afastou da porta. Sentiu a tristeza de olhar para trás, tinha a certeza de que jamais teria anos tão felizes quanto aqueles da sua juventude.
Sentia um aperto no coração, literalmente, parecia que se lhe houvessem socado no peito não seria tão ruim. O amargo o fez recuar e se dirigir para uma porta mais à esquerda. Ao chegar perto sentiu um cheiro de comida, era carne de panela e feijão. Parecia que podia tocar no cenário, mas se via um adolescente agora, já tinha quinze anos, era meio-dia e chegara do colégio para almoçar, sua mãe preparava o almoço, e ele estava brigado com seu pai, já manifestava os primeiros sinais de auto-afirmação. Olhava para o pátio da casa e observava as nuvens escuras chegando rapidamente com o vento, em breve iria chover, e ele poderia ficar o dia inteiro em casa, sem fazer nada de especial. Sentia naquilo tudo um vazio, ali começara sua derrocada, naqueles momentos sóbrios de ociosidade infrutífera, iniciara ali seu afastamento do mundo, o pequeno lobo aprendendo a ser selvagem, mostrando os dentes.
Afastou-se dessa porta também, não sabia o que mais lhe doía, se era a saudade de tempos incontestavelmente ótimos ou o reconhecimento de erros tão distante e pueris que, mesmo podendo ser concertados, demandariam um esforço quase sobre-humano em sua psique. Ele já era matéria sólida, sua teimosia em si mesmo residia como um parasita lhe sugando uma seiva vital.
Permaneceu um tempo parado no centro da sala oval, olhando para o chão, vendo a luz fraca se espalhar. Batalhava contra si mesmo, o lobo queria dar um jeito de sair do jogo, estava cansado e precisava morder alguma coisa, o homem queria saber de cada porta, o que elas significavam e outras tantas coisas.
Num esforço, voltou-se para trás e foi rapidamente para outra porta. Tocou nela, sentiu sua textura, era madeira, cedro, espessa, escura, fria. Aquela frieza o lembrou de tempos não tão distantes, das suas buscas vãs por um espírito satisfeito, por uma alma sadia, mas o mais perto que chegou foi do sadismo. Havia sexo ali, e só sexo, já não conhecia o amor apaixonado da adolescência, nem o amor comedido dos seus vinte anos. Já estava com vinte e cinco, recém formado, trabalhava e ganhava um dinheiro bom. Saía aos finais de semana com os poucos amigos que tinha, e estes ele sempre os mantinha a certa distância com medo não se sabe de que. No seu quarto só entravam mulheres, às vezes até mais de uma na mesma noite. Era sexo, e só sexo. Sentia falta do amor, e esse vazio o fazia distante, satisfazia-as com prazer, mas nunca com sentimento, não por maldade, mas por impossibilidade. Já nao era apto ao verbo amar.
Meditava, outras vezes, com seus exercícios espirituais, sem nunca saber ao certo se estaria fazendo a estrada correta. E essa dúvida revivida o fez recuar da porta e pensar que poderia ter seguido por escolhas erradas atrás de outras também erradas, enganando-se de porta em porta, já não poderia voltar nem mesmo imaginar alguma outra hipótese de vida.
Com toda certeza, aquela foi a porta que mais lhe esvaziou os sentimentos. Não era dor, era comedimento e resignação. O lobo estava angustiado, já babava de raiva, mas o homem sufocava o instinto, e a ira ficava contida.
Resolveu tentar outra vez. Havia uma porta reto a sua direita, e ele se dirigiu para lá. Ao chegar bem perto, sentiu nada, absolutamente nada. Era como se ficasse envolto de uma luz totalmente branca, a maior alvidez possível, o próprio princípio da luz. E já não sabia quantificar o espaço ou o tempo, não sabia se situar em coordenadas ou dimensões.
Havia cansado de memórias, de lamentações. As ilusões eram as mesmas, invariavelmente. As lembranças estariam sempre ali para ele se lamentar de suas escolhas, sem nem ao menos lhe ser permitido saber se teria possibilidade de ter feitos caminhos diferentes. Às vezes acreditava que não podia, nunca, ter feito nada diferente, se lhe dessem mil ocasiões repetidas, ele seria impelido por forças incognoscíveis a fazer mil vezes exatamente o mesmo.
Ah,ele abriu a porta e entrou, resoluto.
achou?
19/06/08
Alguém viu um pedacinho de vida por aí?
Se viu me avisa, é meu. Não sei onde deixei.
E se eu deixei na escola, no meio do pátio do recreio?
Já devem ter levado e estão aproveitando do pedacinho.
E se eu deixei nos cortes da adolescência?
Sangrou pelo ralo e não percebi.
Será que foi no trago com rock and roll?
Sabe como é… amigos e tragos…
Jethro Tull – My God (Live)
16/03/08
Esses caras, que marcaram minha adolescência, deveriam ter todas suas músicas (principalmente do Aqualung) postadas aqui, mas, pra não chatear muito, vai só uma.
Aprecie com atenção.

