solilóquio
E a solidão é estar entre o homem e o sobre-homem
E é tentar viver sem olhar muito para o abismo
E se alguém pudesse encontrar seus pensamentos
Seria como se o mundo fosse retirado das suas costas, Atlas
A solidão é não compartilhar-se, não por inapetência, não por inabilidade
Não podemos fazê-lo, ninguém pode desvendar os véus da vida alheia
Ninguém pode encostar nas entranhas recônditas da alma que não é sua
E a solidão é não poder contar com a compreensão
Não há companhia, não há aliança, não há matrimônio
Há, pois, o escuro, o silêncio, o vento e a chuva
Também o raio que atravessa um temporal não tem companhia
E todos o vêem, todos o ouvem, mas ninguém o compreende
E o limite é descrever seu magnetismo e sua energia
Quem poderia, no entanto, descrever sua própria consciência em miúdos sem pecar em um só momento?
A solidão é sermos falhos, vazios, cegos
E em nós se esconde uma ânsia de final, pois não há maior pesar do que descobrir-se sozinho
Se eu falar das minhas razões, um não compreenderia
Se eu explicasse o fato, outro não entenderia
E se eu disser o que vejo à frente, ninguém mais ouvirá
Ninguém pode tocar e me contar que é quente ou frio, claro ou escuro, bom ou ruim
Ninguém pode fazer nada a respeito do que não é de si
E essa impossibilidade nos torna sozinhos, limitados pela comunicação
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É.