Poesia
Ter-te todo tempo
3Dar-te de mim todo o tempo
O tempo todo querendo ter-te
Ter-te querendo ter-me
Ter-me em completude e totalidade em ti
Enquanto não me afogo em teus afagos
Tenha a mim, em teu colo e teu cheiro
Em teu selo e teu zelo
E te ter tem sido o todo de tentativas
De apurar do tempo e encurtar o espaço
De passar o que demora e terminar o que separa
Pois que há em cada passo no hoje
Uma razão para o amanhã
Pois que há em cada respiração, hoje,
Uma intenção clara em ti, pra ti, de ti, no amanhã
Se ouvires
0É então que a surpresa nos ataca
Que o inesperado preenche o espaço
Faz do passo torto apenas outro passo
Faz da melodia apagada uma fermata
E entra num outro ato…
Ai dos meus dedos que não a tocam hoje
Ai dos meus ouvidos que não a ouvem longe
Mas abençoada seja minha alma que vibra
Por cada nota tocada na lembrança suave
Vibra, sim
E vibra ao sul
contaminado
3Tentar a si mesmo,
Da galáxia ao pó,
E nessa empresa, só
Descobrir-se, a esmo.
Provar de si o veneno,
Sorver a droga dispersiva
E bater e bater cabeça, inativa,
Nesse chão sujo, cheio de sereno.
Tão impreciso e oblíquo
Via lá de cima todo o teatro,
A triste comédia, lá do apoastro
- Era-me tudo tão iníquo.
A farsa, do pó à galáxia,
Contaminava como peste;
Eu, infeccionado, despia a veste,
Tentando, em desespero, prolaxia.
A veia vil que dá força
2Não há esperança em nenhum ato;
Não existe, nas ações, expectativa alguma;
É como cair de um trampolim sem uma
Rede que possa sustentar o impacto.
Inexiste qualquer fé no fazer ou reter;
É desprovido de qualquer significado
O viver, tão parco, pobre e mal edificado,
Não há elos nem liames que sustente meu ser.
Destituído duma ligação, uma união
Mais pura e verdadeira que a alma que tateia
Por entre vala, valsa, velha vila, veia,
E encontra, sempre, descaso da solidão.
Não perdoa mais a vida frágil
E se agarra ao tétrico sentimento
Como se fosse ele mesmo o tormento
Medonho, e nessa veia vil mais ágil.
te destruir
2Quero te machucar, antes de tudo;
Quebrar, do teu ser, cada pedaço;
Arruinar tua consciência, um andaço;
Desmoronar teu ego, esse campanudo.
Acabar com tudo aquilo que pensas ser
Teu Eu, teu âmago, quase intocado;
Aí eu te terei destruída, ao meu lado,
Sem nada que possa te prender.
Nua e terminada, em minha cama,
Terás uma vida que não imaginavas;
Incompleta verás que estavas,
E te enganavas por tanto drama.