Poesia

Casa vazia

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Assim te vais, meio sem alma,

Nesse monólogo ensurdecedor

Gritas às paredes desta casa vazia,

Ecoas maldições no teu íntimo oco.

Pensas nas almas e nos átomos,

Meditas sobre o amor e o universo,

E assim te esgotas, em gotas amargas.

Lentamente, sem pressa nenhuma,

Preenches teu corpo nesse escuro ocaso,

Tão pretérito quanto tua vida esquecida,

Tão valioso quanto tua liberdade fria.

Assim te acabas, gota por gota,

Meio sem alma – histeria calma -,

E quando cessas tuas blasfêmias altas,

Afogado no cansaço desse discurso,

Acabas por dormir nesse chão frio

Que ainda vibra gritos de casa vazia.

 

Poesia suja

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Essa poesia branca e limpinha já não é a alma;

Essa poesia, cosida em um tapete de algodão branco,

Que se escorre, viscosa, por dedos magros

Não tem mais cheiro de espírito, somente de fantasia.

Essas nuvens alvas, redondas, que cobrem meio sol;

Essas aves que voam um vôo perfeito… são só imagens,

São escarros da nossa consciência,

São escape da nossa inocente inabilidade de ver.

Essa poesia que se enche de louros e outros ouros,

Essa poesia que, garbosa, vem bater na face da realidade

Não tem força, é muito menos real que um vômito de enjôo de uma viagem no mar.

Não existe métrica na fome, não existe rima na guerra.

Não existe leveza no mundo, senão nessa poesia branca e limpinha

Nessas palavras de poetas mentirosos.

Pele e perfume

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Uma vida para respirar esse ar

Que suavemente se abarrota

Dessa boa bela branca nota:

- É a existência diáfana em par.

 

Nos meus dedos que entrelaçam

E tocam quase sem tocar,

Num momento, fazem arrepiar

As melodias que se avançam.

 

Na pele e nos cabelos que, molhados,

Parecem, pois, conter um jardim;

Entro beija-flor que busca Jasmim

Num corpo de sabores temperados.

 

Ferida

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Calas, porque sabes ter razão;

Não justificas o descaso

Daquele amor em atraso

Que te dispensaram então.

.

Não discutes nem argumentas,

Não alimentas a escuridão desnuda

Dessa ignomínia magra, ossuda,

Da fome dessas agras contendas.

.

Não gritas, não apontas o dedo,

Baixas o rosto e choras quieta,

Evitas de sangrar-me com a seta

Que eu mesmo disparei sem medo.

.

Pois que no silêncio úmido que se evade

Dos teus olhos, me restou uma ferida

Muda e resignada, inflamada e dorida

Que, sendo tua, cuido eu com afabilidade.

Há um buraco

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Da minha sacada eu vejo a rua

Há um buraco no asfalto

Todas as noites os carros passam por ali

E eu ouço o barulho dos pneus passando pelo buraco

E eu vejo as luzes indo e vindo

E isso tudo me faz companhia

Pois há um buraco…

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