O Rei
O Rei – Capítulo 3 – Da nova construção
2Dizem que o coração do homem morre aos poucos quando não é submetido a certos perigos e aventuras. Pois eu, infelizmente, me percebi de uma forma única até então, inédita, eu me sentia angustiado, ansioso. Estava apaixonado, assim, uma sementinha ia crescendo no meu peito e ia tomando o lugar do meu fôlego, e a ansiedade disparava meu coração sereno.
Estava apaixonado, e acordar sem ver Viviane foi angustiante, repetitivamente angustiante. Inescapável era minha desconexão entre razão e sentimento, mas deveria ser ela, aquela mulher linda, ela que deveria ser inescapável dos meus braços. Incrível, primeira noite juntos, não transamos, e eu durmo como um bebê.
Eu lembro daquele dia como um filme, consigo, por vezes, me projetar pra fora do meu corpo e reviver a situação como um espectador entusiasmado com o espetáculo. Remonto os pedaços da peça, as cenas naquele teatro que parecia. Ainda bem que ela nunca ficou sabendo dessa minha criancice momentânea, ficaria admirada ao saber que, quando fora até a padaria que funcionava ao lado do prédio para comprar pão novo, o seu acompanhante desesperou como um bebê abandonado.
O Rei – Capítulo 2 – Da Universidade
2Acho que meu pai sentiu muito mais do que eu a minha falta, quando, aos 18 anos fui morar sozinho numa cidade a 150 Km da cidade natal. Meu pai era charmoso, já estava ficando velho, mas ainda era capaz de atrair diversas mulheres, e isso eu sei que ele começou a fazer com mais frequência na minha ausência, aproveitava a solidão da casa e o vazio que eu havia deixado nele, preenchia tudo os gritos das mulheres, com o cheiro que elas deixavam na sua cama, com os cabelos perdidos pelo quarto, com os gemidos abafados.
Eu morava sozinho num apartamentinho pequeno mas muito confortável, montado com móveis de primeira, tudo do bom e do melhor, inclusive as bebidas, que meu pai insistia que eram as melhores inspiradoras para uma poesia apaixonada. Nunca gostei de beber, apesar de todos pensarem que eu o faça, sempre prezei demais minha lucidez para me permitir esses escapes da consciência.
Cursava filosofia, como meu pai, e logo no primeiro semestre arrumei um emprego de colunista em um jornal local. Escrevia sobre filosofia, é claro, comportamento, juventude e essas coisas que estavam em evidência, após anos de repressão ser jovem era estar na moda, era ter voz e poder.
O Rei – Capítulo 1 – Dos Recônditos
3CAPÍTULO 1 – DOS RECÔNDITOS
Eu não fui sempre assim, não nasci desse jeito, na verdade, não tenho muita noção de como as mudanças ocorreram, de quando isso aconteceu, o que eu sei é de um passado e um presente que parecem não poder se encostar, senão por um elo chamado consciência, que, no meu caso, já não tem tanta importância nem eficiência. Aliás, mais ainda pela verdade, acredito que eu ignore as ínfimas mudanças que foram ocorrendo pouco a pouco na minha alma, prefiro assim, então eu repito a mim que não sei onde nem quando ocorreu a mutação. Eu não fui sempre assim.
Lembro de quando ainda era criança, ou não lembro, posso ter inventado, depois desses anos como estou as coisas começam a ficar nubladas, com uma luz trêmula, é fácil se deixar enganar pelas memórias. Bom, voltando ao assunto, lembro de quando ainda era criança e ia com meu pai no lago, ou lagoa, perto de casa, ficávamos horas num pequeno bote, à deriva. Às vezes ele falava algo, lições de vida, meu pai era um homem sábio, não apenas inteligente, pois devemos saber distinguir a sabedoria da inteligência, esta é uma habilidade mental conquistada com muito treinamento, aquela é uma característica (ou seria também uma habilidade?) da alma, intrínseca ao homem que a possui, e uma pode, sim, existir sem a outra, contudo, meu pai tinha muito das duas, e por isso era um homem diferente.
Nessa época meu pai ainda morava com a minha mãe, éramos entre quatro: minha mãe, meu pai, minha irmã mais velha e eu. Eu e minha irmã tínhamos dois anos de diferença, e, ao contrário do que parece ser comum no comportamento familiar, eu era mais apegado ao meu pai do que a minha mãe, e minha irmã mais apegada a minha mãe do que ao meu pai. Minha irmã se chama Luciana, eu acho, não tenho mais certeza, mas deve ser, porque ela tinha luz em seus olhos, acredito que ainda esteja viva, não a vejo há mais de doze anos. Era muito magra, pobrezinha, tinha seios miúdos e pernas finas, morena de olhos castanhos e vivos, era de uma simpatia sem igual, e ela me adorava. Porém, não ficávamos muito tempo juntos, ela passava muito tempo com a minha mãe, e eu com meu pai.