O Rei
O Rei – Capítulo 3 – Da nova construção
2Dizem que o coração do homem morre aos poucos quando não é submetido a certos perigos e aventuras. Pois eu, infelizmente, me percebi de uma forma única até então, inédita, eu me sentia angustiado, ansioso. Estava apaixonado, assim, uma sementinha ia crescendo no meu peito e ia tomando o lugar do meu fôlego, e a ansiedade disparava meu coração sereno.
Estava apaixonado, e acordar sem ver Viviane foi angustiante, repetitivamente angustiante. Inescapável era minha desconexão entre razão e sentimento, mas deveria ser ela, aquela mulher linda, ela que deveria ser inescapável dos meus braços. Incrível, primeira noite juntos, não transamos, e eu durmo como um bebê.
Eu lembro daquele dia como um filme, consigo, por vezes, me projetar pra fora do meu corpo e reviver a situação como um espectador entusiasmado com o espetáculo. Remonto os pedaços da peça, as cenas naquele teatro que parecia. Ainda bem que ela nunca ficou sabendo dessa minha criancice momentânea, ficaria admirada ao saber que, quando fora até a padaria que funcionava ao lado do prédio para comprar pão novo, o seu acompanhante desesperou como um bebê abandonado.
Ah, eu poderia ficar dias falando de Viviane, a única pessoa que não tinha o mesmo sangue que eu e eu amei. Você ainda quer ouvir mais dela?
Levantei para ver aonde ela estava, apesar de ouvir o silêncio inóspito do apartamento, nada no banheiro, nada na sala nem na cozinha. Porém, fiquei mais aliviado ao ver a chave do carro sobre a mesa da sala. Só nesse momento me dei conta do quão pueril estava sendo. Ela fugindo de mim? Seria mais fácil ela me expulsar do seu lar se não quisesse minha companhia. Mas isso, hoje, me faz concluir que sempre que se tratava da Viviane eu perdia a razão, tinha meu lado mais primitivo e carente evidenciado, era uma criança pedindo colo, e jamais, enquanto se tratou dela, pude ser sensato.
As pessoas não são sensatas quando amam, elas são loucas, descompensadas, e só essa loucura traz a santidade ao homem. Nenhum homem razoável conseguiu ser um grande pintor, músico, político, escritor ou algo que se destaque. Os gênios são loucos, os beatos são loucos, ou desarrazoados são os mais distantes da estagnação da alma, e eu amo Viviane, porque tudo que movi dentro do meu coração foi pela insanidade que ela me trouxe.
Enquanto olhava a chuva pela janela, já vestido com as calças mas sem camisa, ela chegou, misturando o cheiro de pão novo com o cheiro maravilhoso dela, misturando minha razão com os sentimentos, pegou minhas emoções e passou manteiga para comer com pão. Eu era dela, à partir dali.
Nossos encontros se tornaram constantes, ela nem sequer quis esconder isso na universidade, disse ter conversado com seus superiores e que tudo estava certo, afinal, não daria mais aulas para mim.
Foram tempos perfeitos, jamais conseguimos nos entediar, e fomos morar juntos pouco depois de completar um ano daquela primeira noite.
Minha coluna fora compilada em um livro que me rendeu um bom dinheiro no ano de formatura. Tudo estava ótimo, fizemos, então, uma viagem para o Uruguai, Punta del Este, naquele tempo a praia ainda era um pouco calma, não era essa atração turística que acabou se tornando.
Ficamos lá duas semanas, nem uma briga, nem uma discussão, nem naquelas semanas, nem no tempo de namoro, nem enquanto moramos juntos. Eu amo Viviane e a amarei mesmo sem tê-la nunca mais, e é por ela que jamais deixei meu coração apagar no tédio novamente. Todos os dias o sol nasce atrás daquela colina no leste, todos os dias estou lá, cedo, para vê-lo, para vê-la naqueles raios, e nos dias de chuva, em que não há luz, eu faço o mesmo, pois ela continua lá e a chuva é tão gostosa e renovadora.
Os nossos desejos não são, sempre, acompanhados pela natureza.
E a natureza pode ser muito má na forma que nos ensina.
A viagem de volta daquilo que chamo de Quinzena da Vida foi seguida do Ano da Resistência. Viviane se despediu com lágrimas que correram por um ano na minha alma, mas secaram quando passei a vê-la no amanhecer daquela colina.
O sol me ensinou a reconstruir a vida.
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O Rei – Capítulo 1 – Dos Recônditos: http://descompassado.com/o-rei-capitulo-1-dos-reconditos/
O Rei – Capítulo 2 – Da Universidade: http://descompassado.com/o-rei-capitulo-2-da-universidade/
O Rei – Capítulo 2 – Da Universidade
2Acho que meu pai sentiu muito mais do que eu a minha falta, quando, aos 18 anos fui morar sozinho numa cidade a 150 Km da cidade natal. Meu pai era charmoso, já estava ficando velho, mas ainda era capaz de atrair diversas mulheres, e isso eu sei que ele começou a fazer com mais frequência na minha ausência, aproveitava a solidão da casa e o vazio que eu havia deixado nele, preenchia tudo os gritos das mulheres, com o cheiro que elas deixavam na sua cama, com os cabelos perdidos pelo quarto, com os gemidos abafados.
Eu morava sozinho num apartamentinho pequeno mas muito confortável, montado com móveis de primeira, tudo do bom e do melhor, inclusive as bebidas, que meu pai insistia que eram as melhores inspiradoras para uma poesia apaixonada. Nunca gostei de beber, apesar de todos pensarem que eu o faça, sempre prezei demais minha lucidez para me permitir esses escapes da consciência.
Cursava filosofia, como meu pai, e logo no primeiro semestre arrumei um emprego de colunista em um jornal local. Escrevia sobre filosofia, é claro, comportamento, juventude e essas coisas que estavam em evidência, após anos de repressão ser jovem era estar na moda, era ter voz e poder.
As noites de sexo eram frequentes e excelentes, conheci duas garotas lindas, se diziam namoradas, e diversas vezes elas vinham ao meu apartamento, diziam que minha cama de casal era ótima e fazia pouco barulho. Eu me divertia tanto que, algumas vezes, usei cocaína com elas, mas isso não me agradava muito.
No sexto período do curso de graduação resolvi abandonar, meu emprego ia muito bem, aumentaram meu espaço dentro do jornal e meu salário também, já podia me sustentar sem ajuda dos meus pais há um anos, mais ou menos.
Já naquela época o mundo começava a me entediar. O sexo precisava ser cada vez mais intenso para que eu me sentisse satisfeito, as conversas cada vez mais profundas. Meus textos agradavam e vendiam bem, mas eu não me sentia completo com aquilo, sentia que havia algo mais forte dentro de mim, uma sementinha que crescia aos poucos e empurrava o que havia dentro de mim para fora, buscava espaço e alimento na minha alma.
Foi nessa época que conheci um senhor, um inglês, que veio para a cidade dar uma palestra sobre física moderna. Eu fui chamado pelo jornal para entrevistá-lo, pois o meu inglês era o melhor dentre os funcionários. Esse foi o meu primeiro contato com o universo das energias, das matérias, dos buracos negros e campos magnéticos, etc.
Passei o resto do semestre lendo e escrevendo para o jornal. No fim do ano decidi que iria prestar vestibular para física. Em março já estava na sala de aula, iniciando uma nova jornada.
Cada vez mais recluso, eu já não trazia mulheres todas as noites para meu apartamento. Estava apaixonado por uma professora de cálculo, Viviane, maravilhosa e cheirosa, seus olhos lembravam os da minha irmã, mas seu corpo era firme e sua pele macia.
Demorei 4 meses e 14 poesias para tocar no assunto com ela, esperei passar a prova do fim do semestre. Ela não ficou vermelha, ela não me repreendeu, ela sorriu, com aquela boca maravilhosa, e disse que precisávamos tomar um café naquela noite. Eu disse que não tinha carro, ela disse que me buscaria.
Às 20h estávamos tomando um café e fumando. Ela disse que lia sempre meus textos e não entendia como eu podia ter tanto talento na literatura e tanta facilidade na área das exatas. Talento na literatura pra mim parecia estranho, se havia algo de talentoso em mim era tão somente minha capacidade de observar.
Às 22h estávamos no apartamento dela, ouvindo um CD do Jethro Tull. Ela tinha somente sete anos a mais do que eu, se formara cedo, logo entrara para um mestrado e terminara seu doutorado em EDP há meio ano. Era a primeira vez que dava aula. Era a primeira vez que eu estava apaixonado.
Às 23h estávamos na cama dela. Não transamos naquela noite, mas eu dormi lá, e ela me abraçou com seu corpo quente e seu cheiro de infância, quase não suportei tanta leveza na alma, eu, que estava ficando cada com o espírito cada vez mais pesado.
Acordei naquele sábado perto das 10h, estava chovendo muito, parecia noite, mas não encontrei Viviane no quarto.
O Rei – Capítulo 1 – Dos Recônditos
3CAPÍTULO 1 – DOS RECÔNDITOS
Eu não fui sempre assim, não nasci desse jeito, na verdade, não tenho muita noção de como as mudanças ocorreram, de quando isso aconteceu, o que eu sei é de um passado e um presente que parecem não poder se encostar, senão por um elo chamado consciência, que, no meu caso, já não tem tanta importância nem eficiência. Aliás, mais ainda pela verdade, acredito que eu ignore as ínfimas mudanças que foram ocorrendo pouco a pouco na minha alma, prefiro assim, então eu repito a mim que não sei onde nem quando ocorreu a mutação. Eu não fui sempre assim.
Lembro de quando ainda era criança, ou não lembro, posso ter inventado, depois desses anos como estou as coisas começam a ficar nubladas, com uma luz trêmula, é fácil se deixar enganar pelas memórias. Bom, voltando ao assunto, lembro de quando ainda era criança e ia com meu pai no lago, ou lagoa, perto de casa, ficávamos horas num pequeno bote, à deriva. Às vezes ele falava algo, lições de vida, meu pai era um homem sábio, não apenas inteligente, pois devemos saber distinguir a sabedoria da inteligência, esta é uma habilidade mental conquistada com muito treinamento, aquela é uma característica (ou seria também uma habilidade?) da alma, intrínseca ao homem que a possui, e uma pode, sim, existir sem a outra, contudo, meu pai tinha muito das duas, e por isso era um homem diferente.
Nessa época meu pai ainda morava com a minha mãe, éramos entre quatro: minha mãe, meu pai, minha irmã mais velha e eu. Eu e minha irmã tínhamos dois anos de diferença, e, ao contrário do que parece ser comum no comportamento familiar, eu era mais apegado ao meu pai do que a minha mãe, e minha irmã mais apegada a minha mãe do que ao meu pai. Minha irmã se chama Luciana, eu acho, não tenho mais certeza, mas deve ser, porque ela tinha luz em seus olhos, acredito que ainda esteja viva, não a vejo há mais de doze anos. Era muito magra, pobrezinha, tinha seios miúdos e pernas finas, morena de olhos castanhos e vivos, era de uma simpatia sem igual, e ela me adorava. Porém, não ficávamos muito tempo juntos, ela passava muito tempo com a minha mãe, e eu com meu pai.
Quando tinha, mais ou menos, uns onze anos meus pais se separaram, foi tudo muito amigável, mas meu pai sofria muito, calado, eu percebia isso. Fui morar com ele e minha irmã com minha mãe. Como meu pai não gostava de me deixar sozinho em casa à noite, levava-me, por vezes, assistir as suas aulas na universidade: Hegel, Kant, Nietzsche, Descartes, Platão e toda sorte de homens ditos filósofos. Eu ouvia aquilo com mais atenção do que os alunos de verdade, e as garotas adoravam me apertar e me beijar, diziam que queriam esperar que eu crescesse para que se casassem comigo. Casar, a essa farsa eu, felizmente, nunca aderi, usei e abusei das mulheres por anos, mas nunca me casei.
Na escola sempre tirei notas altas, mas não gostava de me esforçar nas matérias, preferia os livros do meu pai e dos jogos da educação física. Quando fiz quinze anos meus amigos foram na minha casa, meu pai estava na aula, e uma das garotas quis conhecer meu quarto, foi a primeira vez que fiz sexo, e depois disso meus dias se resumiam em filosofia e sexo. Meu pai começou a passar mais noites fora de casa, talvez tivesse arrumado alguma namorada, eu já não perguntavam muito sobre isso, e ele parecia ter parado de sofrer por dentro pela separação. As garotas me visitavam, algumas se conheciam e sabiam uma da outra, a maioria não. Houve uma noite em que duas garotas foram ao mesmo tempo, esse era o sonho de todos os homens, mas eu nunca contei a ninguém, não queria que meus amigos pensassem mal das garotas. Era hedonismo, era sadismo, era niilismo e existencialismo, era sexo e terminava ali.
Só depois de muitos anos fui compreender o relacionamento dos meus pais, do porque eles haviam se separado, dos planos que haviam feito e não puderam realizar, dos conflitos internos de cada um que ia, aos poucos, minando não a relação deles, mas a relação deles com seus próprios espíritos, eram estranhos dentro de suas próprias cascas, como sustentar uma existência assim? Eu assumi o que sou até às últimas consequências, e eu não fui sempre assim, porém, viver sempre com medo e receio do que há em sua própria cabeça deve ser um inferno, acho que esse é o inferno que dizem, pois eu não me sinto mal, e sou o que todos tem medo e nojo.
Minha irmã foi morar na Europa, já lembro mais em qual país. É estranho, da minha infância eu lembro, ou finjo lembrar, mas as memórias de adulto eu não controlo, lembro umas vezes, esqueço tantas outras. Pobrezinha, era tão frágil seu corpo, mas sua alma era cheia de bondade; pobrezinha, o mundo não é feito para os bons.