Minicontos
Memórias sem luz
2
Ele havia encostado o revólver sob seu queixo. Ele pensou em como era engraçada a sensação do aço gelado encostando sua pele, era como se experimentasse o tato através de outra pessoa, não sentia, de verdade, que era ele quem segurava o peso daquela arma, escura, carregada de pólvora e chumbo e de medo e angústia.
Não tremia, um segundo do frio na sua pele parecia representar anos e anos de vida marcada pela falta de presença de si em si, sempre como se assistisse um teatro, em fato, a vida acabava lhe parecendo uma enorme galeria de personagens, e ele era livre para pegar e largar o papel que quisesse a hora que bem entendesse, era assim que se relacionava com os outros, com o mundo, mas não consigo.
Sua relação com consigo mesmo ou inexistia ou existia com demasiada sinceridade e falta de medo. É confuso. Por vezes, o medo que temos de encarar o que somos, o que pensamos, nos protege, somos programados para nos protegermos de nós mesmos. Há um monstro no abismo.
Uma rajada de vento soprou no nono andar, um vento morno e denso, parecia que, ao tocar seus cabelos poderia varrer seus pensamentos ruins. Mas o que está na alma está gravado pra sempre, com letras em negrito.
O vento quente era prenúncio de temporal, longe, no horizonte, já podia enxergar raios cortando o céu, mostrando sua imponência.
Lembrou de quando era pequeno, numa noite assim, exatamente assim. Deveria ter uns 10 anos, já era noite e ele estava na rua brincando com os vizinhos, sua mãe o chamou para jantar. Havia sopa. Naquela época a comida tinha um gosto diferente, era sempre boa, era sempre confortável.
Naquela época não havia grades isolando as casas, às vezes muros. As portas ficavam abertas, deixando o vento abençoar a pele de cada, trazendo o cheiro de deus para dentro da alma, e deus tinha cheiro de vida e flores naquela época. Ah, e sopa de ervilha.
A luz apagou. O vento ficou forte, o temporal já havia chegado em algumas partes da cidade e a luz havia caído, mesmo assim, com velas que teimavam em ficar acesas, lutando contra o vento, puderam jantar. Essa noite ficaria pra sempre guardada.
Seria lembrada, também, como o dia da morte do filho mais novo de uns vizinhos. Uma outra vizinha veio avisar enquanto jantávamos, ele lembrou de como ela chegou, um pesar enorme em seu rosto, lágrimas contidas em olhos vermelhos.
Não compreendia muito bem o que acontecia. Seus pais se levantaram, conversaram com a vizinha que trouxe a notícia no lado de fora e depois voltaram, pediram para a irmã mais velha dele tomar conta de tudo que eles precisavam sair.
A luz apagou. Mas a janela estava aberta, os raios iluminavam a noite e o vento morno no nono andar esquentavam suas mãos, e o aço esfriava seu queixo.
A luz apagou, e não havia velas.
O cheiro de deus não era de sopa de ervilha, nem de flores…
A luz apagou.
Abraço e adeus
6Abraçava ela como se fosse uma corda em um precipício.
Não havia delicadeza nem beleza naquele abraço, era apenas um desespero traduzido em força.
Ela o tinha traído, ainda o queria, mas a traição é como uma mancha num lençol, é feita por cima, mas atravessa e suja os dois lados. Ela sentia culpa e ele dor.
Ele abraçava o corpo daquela mulher que amava, seu peito era comprimido por um bloco de concreto de qualquer construção abandonada por falta de verbas, queria muito que aquilo tudo não fosse verdade. Amava aquela mulher, aquela que ele abraçava, não a que estava por dentro daquela mente, não aquela potencialmente pérfida.
O sentido da deslealdade é duplo, vai e volta, o peso é ativo por ter feito e passivo por ter destruído a confiança de uma pessoa, e orgulho ferido é como uma lata de cerveja aberta ontem.
Ainda assim, ele a queria, muito. Deveria ter deixado aquele cenário de cabeça erguida, deveria ter deixado ela sozinha na imensidão daquele nada, mas não podia, era como se o amor fechasse a mão naquele instante para nunca mais se abrir.
Ela retribuiu o abraço com tanta força quanto arrependimento, era remorso dos dedos ao sexo que tocaram outro que não o seu amado, era compunção de ter sentido prazer no falo de outro homem, não melhor do que o que já tinha no seu relacionamento com ele.
Ele soltou um pouco os braços, sentia, em sua mente, o cheiro daquela traição, o cheiro dos fluidos, o cheiro da mágoa em uma alma agora maculada, de uma cicatriz inflamada.
Jamais deveria ter soltado os braços, ele a queria como a própria vida, mas tudo havia desmoronado como se abalado por um terremoto. Não havia música dorida o suficiente nem poema com tanto pesar para expressar sua amargura, agora ambos ouviam o silêncio do tempo suspenso entre um par de respirações, ar entra e ar sai, mas o peito continua preso, o nó continua lá.
Ela tinha medo de falar, de pedir desculpas, talvez sua voz o incomodasse agora, talvez sua voz o lembrasse do quão suja ela estava, tinha medo de falar e perder aquele abraço, o último.
Se ela tinha se arrependido e sentia remorso por tê-lo machucado, ele sentia raiva por ter sido traído e dor por não poder mais tê-la como sua, só sua.
A nódoa da infidelidade é difícil de remover, e com o inverno que se instala no coração torna-se muito difícil secar o tecido manchado.
Ele deixou a sala, antes mesmo de virar as costas já queria ter voltado para aqueles braços que agarravam sua vida como a coisa mais importante do mundo, queria o amor que afastava.
Só depois que ele saiu e não poderia mais ouvi-la, ela chorou, em desesperada agonia.
Ela e os demônios
2Tinha tanta emoção reprimida, e eu via nos seus olhos, ainda que ela não demonstrasse, eu cheirava a clausura da alma, eu sentia a temperatura do espírito oprimido, via as partículas que formavam suas idéias numa entropia gigantesca pelo espaço tiranizadamente comprimido.
Tinha tantas emoções contidas; não um riso disfarçado, mas um choro engulido, trancado, com o nó mais forte que já vi em sua garganta, com o peito mais arqueante pela respiração densa, tensa, imensamente ansiosa. Eu ainda via isso tudo naquele ser.
Se as ruas em que caminhamos são povoadas de demônios é porque não nos sentimos aptos a transformar essa repressão em arte, carne, parte do ser que nos dá força.
Ela não tinha a habilidade de limpar a vida que tinha dentro de si, tampouco compreendia os seres que habitavam seu inconsciente, e os culpava, e sentia vergonha, e oprimia e eles a tinham nas rédeas de um gorverno monárquico.
Aquele que de si aceita os dois lados, aquele que não é um nem outro mas ambos, vê a absorção do preto e a repulsão do branco como partes dum mesmo processo, e faz de si mesmo a aliança entre os dois caminhos, e caminha sobre o mundo como quem dança num baile de máscaras.
Ai, se ela compreendesse o que há dentro de si, das suas possiblidades, se ela se apercebesse. No entanto, ela reprime, ela tiraniza, ela oprime e chora só quando está sozinha no quarto, à noite, com a música alta para que ninguém escute. Ela quer chorar em paz e os demônios não devem sair do quarto.
Causos abafados
3Por que a vida alheia é tão importante? Por que é tão necessário se identificar ou se deliciar com os problemos dos outros? Por que queremos tanto ler, ver, saber notícias das vidas que não as nossas?
Quanto mais chocante, melhor. A audiência e a importância crescem de forma diretamente proporcional à intensidade da desgraça.
Também, temos uma enorme necessidade de expôr, de colocar pra fora, de limpar a alma falando ou escrevendo sobre nossos medos, angústias, ansiedades, dores, alegrias, conquistas, vangloriamo-nos e assim nos queremos bem.
Pois bem, tendo tudo isso em vista – e fazendo desse site uma espécie de divã nada junguiano, muito menos freudiano, e nem vou falar de Lacan, behaviourismo, et cetera -, à partir de hoje fico à disposição de quem quiser contar sobre sua vida para que seja dramatizada aqui.
A idéia funciona assim: tu me contas os fatos, o cenário, a situação e tudo que puderes, acrescentas como quer que seja romantizado, e eu faço a peça trocando nomes e qualquer característica que possa denunciar quem são as pessoas. Será como se assitir sob os olhos de outra pessoa e, ainda, com uma dose de fantasia.
Qualquer situação tá valendo: no ônibus, na balada, numa viagem, na divagação mais impossível da vida humana.
Voltamos ao lema: sua angústia compreendida ou seu dinheiro de volta.
Ignorância I
2Vim jantar com a minha esposa neste restaurante porque me disseram que ele era excelente, e também porque nesta semana ele saiu na revista como um dos dez mais importantes de São Paulo. O ambiente me faz ter a sensação de estar na itália, as cores, os cheiros, as mesas, as cadeiras, enfim, tudo.
Tudo, exceto esse negro na outra mesa. Vim para esse restaurante pensado que estaria em um ambiente seleto, com pessoas distintas, e agora me deparo com esse negro. Talvez eu toleraria sua presença se ele fosse um garçom. Não. Poderia, quem sabe, tolerá-lo se ele fosse servente, se ele apenas se limitasse a limpar o chão da cozinha, e ficasse bem longe dos meus olhos.
Agora estou aqui, sentado nessa mesa, com um vinho caríssimo aberto e duas taças cheias, a minha e a da minha mulher, um Malbec, português; aliás, garanto que em Portugal não existem negros na produção de vinhos, o vinho que tomo é um vinho cem por cento confiável. Os pratos ao lado das taças são brancos, é claro, assim pode-se enxergar a sujeira (preta) e limpá-la com facilidade.
Com o canto do meu olho direito consigo ter o negro no meu campo de visão, e nem preciso virar muito os olhos ou o pescoço, vejo sua cor enquanto converso com minha mulher que, claramente, também está incomodada. Sinto o cheiro forte de negro, ouço a voz grotesca, tudo nele me desperta os sentidos de um jeito asqueroso.
Penso uma, duas, três vezes em chamar o garçom para que nos mude de mesa; melhor, poderia pedir para que retirasse aquela escória do restaurante. Quanta ousadia, um crioulo entrar num restaurante desses, querendo se juntar a pessoas como eu e minha esposa, isso é ultrajante.
Minha esposa está com espasmos no olho esquerdo, o mesmo lado que está virado para a mesa do negro, o nariz dela está com uma expressão de asco, e eu sinto que preciso fazer algo. Sorvo quase todo o vinho que está servido num gole só.
Chamo o garçom e peço para que nos mude de mesa, peço para que nos coloque na ala dos fumantes, afinal, quero fumar mesmo. Isso parece ter aliviado minha esposa. Enquanto caminhamos para a nova mesa, passo ao lado do crioulo, sinto uma imensa vontade de socá-lo, ali mesmo, eu em pé e ele sentado, como deveria ser, até ele deitar no chão sem forças para revidar. Assim tem que ser. Eu cruzo encarando aquele chimpanzé e desisto da idéia de espancá-lo, não vale a pena uma situação dessas.
Na ala de fumantes eu acendo meu charuto para fumar enquanto tomamos o vinho e esperamos o pedido de janta. Fiquei de frente para o negro, daqui ele me olha diretamente nos olhos, coisa que, diga-se de passagem, o faz frequentemente. Minha esposa percebe que minha inquietação aumenta, e meus olhares são constantemente direcionados àquela mesa do casal de negros.
Apago o charuto antes de chegar na metade e a convido para sairmos. Nunca mais retornarei àquele restaurante, digo a mim mesmo. Nunca mais voltarei a este restaurante, disse ao atendente na hora de acertar a conta do vinho e da janta que, mesmo sem comer, pagamos; e ele ficou sem reação quando disse isso, não sei se está imaginando minhas razões, mas deveria saber, eu não devo precisar explicar que arianos puros não querem a presença destes estúpidos negros no mesmo recinto. Maldita aquela que terminou com a escravidão, malditos revolucionários, humanistas, igualitários. Como querer igualdade para todos quando sabemos que, obviamente, não somos iguais?
Onde já se viu, um restaurante desses permitir a entrada de negros. Deveria ser retirado da lista dos dez mais de São Paulo.
Onde já se viu um negro querendo frequentar o mesmo lugar que nós, brancos.