Minicontos

Diálogo I

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Era de lembranças vazias que vivia. Aquela noite ele quis dá-las de presente. Era tudo o que possuía de verdade, seus bens mais preciosos, e oferecê-las era abrir sua alma de forma que não poderia voltar atrás; era tudo que podia dar e, ainda que pensasse que aquilo, de fato, era um ato de doação, que era presenteá-la com seu âmago, atirando-se num abismo de lembranças, era ele mesmo quem se presenteava.

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Alhures

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Segurou firme aquela carne flácida, carne da sua carne, um pedaço do seu próprio corpo, no entanto, parecendo tão alheio quanto os pensamentos de qualquer desconhecido que se lhe passasse pela rua.

Aquele pedaço de carne e gordura, pele e osso, não tinha significado nenhum, parecia estar conectado a si por um mero acaso da vida, ou melhor, todo o seu corpo parecia um amontoado de peças de vários quebra-cabeças que não se encontravam mas, de alguma forma, encaixavam-se de uma maneira mais ou menos simétrica e harmônica. Contudo, nada disso lhe era suficiente, era um pedaço de carne, e era estranho; era um pedaço dele mesmo, porém, era alheio a sua vontade ou consciência.

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Alva

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Tinha os olhos miúdos, pequenos e belos, duas esferas negras contrastando, monocromaticamente, com aquela pele tão alva. As bochechas levemente rosadas revelavam, ao se moverem, um sorriso encantador, era ali que aqueles olhos se fechavam ainda mais, apenas uma leve luz escapava daquela gravitação que atraía.

A primeira vez que abriu a boca para lhe falar qualquer coisa, ele ouviu aquela voz suave, com um rouco, como se arrastasse uma garrafa de malbec por sobre a mesa, estendendo-lhe uma taça. Qualquer coisa, não lembrava o que ela havia lhe dito, ao certo, fora algo com muita timidez, demasiadamente sucinta, a garota dos olhos pequenos.

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A carne que se trai

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Ela tinha os lábios brancos ainda quando ele os olhou, quando sua própria boca parou de tocar a dela. Logo o sangue voltou a circular normalmente, mas naqueles segundos em que os lábios dela estavam pálidos ele pensou que iria perdê-la… para sempre.

Suas mãos seguravam a carne, o que antes eram braços passou a ser carne, pele, osso e pressão; talvez, um ponto de referência, algo para se agarrar em segurança durante um tornado, não sem o sentimento de desespero.

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No café, solitária

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Ela foi à cafeteria sozinha, porque se sentia sozinha, porque era sozinha, mesmo não sendo. Tinha amigos, mas nenhum gostaria de acompanhá-la em um café, sentar em uma mesa, calma, com um café e um pão de queijo, um DVD do Paul McCartney tocando, ocupando o lugar, enchendo o que poderia ser preenchido por solidão. “Speaking words of wisdom… let it be”.

Ela sentou e pediu um café e um pão de queijo. Esperou, enquanto olhava para o celular e para a tela que não piscava, para o toque que não desatinava.

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