Eu
5S – Seiton – Senso de Organização
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SEITON
O Senso de Organização é um problema de magnitude de firmamento para nossa mente, digo de firmamento porque não se enxerga um verdadeiro fim, apenas um pretenso momento em que tudo parece se juntar de forma coesa, mas esse momento sempre está lá, ao longe; de fato, a verdadeira organização da mente é um trabalho hercúleo, para não dizer impossível.
Organizar as gavetas da cozinha ajuda a cozinheira.
Organizar fichários do escritório ajuda a secretária.
Organizar as roupas ajuda o adolescente e a mãe desesperada com a bagunça.
Organizar as pastas do computador ajuda na hora de encontrar arquivos.
Enfim, organizar toma tempo e dá trabalho, mas jamais ficará sem trazer algum resultado proveitoso, nem que seja o de utilizar o Seiri, colocando fora aquela coisa que já não prestava mais e estava perdida em meio à desorganização.
Assim é com a mente.
Dá muito trabalho, oferece muita dor como um corte na alma, por muitas vezes. Noutras vezes, é regozijante, prazeroso, mexer nas gavetas dos pensamentos para colocá-los em ordem (na melhor possível, e isso, geralmente, é insatisfatório e dura pouco).
Mesmo que não consigamos colocar emoções em caixas e separá-las por data, nome, classe ou extensão, nem dar estrelinhas a elas, os pensamentos relacionados a estudos e conhecimentos podem ser ordenados de uma maneira mais ou menos sistemática.
Para que se tenha uma mente um pouco menos bagunçada é necessário bastante esforço. Recursos de associação são indiscriminadamente utilizados, a mente trabalha assim, em associações, uma coisa leva a outra.
Quem já meditou com um pouco de afinco percebeu que o fluxo de ideias é irrefreável e muito turbulento; contudo, se se consegue evitar um pouco sua velocidade enorme, se se consegue controlar sua viscosidade, eles podem se tornar mais laminares, assim, passíveis de observação.
No momento em que se consegue observá-los de uma maneira um pouco satisfatória, entende-se que eles seguem uma linha, como se andassem em fila indiana; melhor, como se brincassem de mãos dadas, em círculo, girando e girando.
Pra quem vê algo girando em velocidades extremas a sensação de vertigem se torna presente, as cores e formas se distorcem e a organização se torna impossível; porém, se a velocidade diminui, as qualidades se tornam mais perceptíveis, e a organização é mais sustentável.
Então, com um breve momento de organização, pode-se proceder a um passo importante para o crescimento espiritual: a limpeza, o Seiso.
Ponto algum
1
Hoje sou dono de um corpo cansado
De músculos doloridos
De ossos comprimidos
E um cérebro manchado
Sou dono de uma insone impenetrabilidade
De uma fatigante impossibilidade de descansar
Sou o mestre de minhas coisas, mas hoje me parecem alheias
Vão conforme o vento, e fogem de mim como o tempo
Sou dono de visões infundadas, de passados inventados
Sou a versão mais nova da minha maldade
Sou a versão mais nova da minha crueldade
Sou o velho monstro que saiu do abismo
E abro minhas asas escuras como quem quer dominar o mundo
Hoje sou dono de minhas visitas impossíveis
E elas me parecem alucinação
Hoje sou dono de um corpo cansado
E tenho todos os pontos finais na minha língua
Mas nas os uso, nenhum, em momento algum
Ponto
5S – Seiri – Senso de Utilização
2
SEIRI
O Senso de Utilização aplicado à mente parece um tanto quanto impossível, conscientemente. Talvez até mesmo seja impraticável voluntariamente, mesmo assim, se se considera possível essa prática, deve-se dizer que ela é importante. O fato é que, mesmo involuntário, mesmo inconscientemente, o senso de utilização ocorre.
Já pensou se não esquecêssemos de nada? Claro que já pensou, mas talvez não tenha considerado a hipótese de que isso pudesse ser uma terrível maldição; Nietzsche, contudo, considerou, e formulou aquela frase pop “abençoados os que esquecem, pois aproveitam melhor até seus equívocos”, ou algo assim.
Quando falamos em memórias, quando falamos em lembrar de tudo, esse tudo se refere à conhecimento, a lembranças úteis para o nosso desenvolvimento. E ainda que sensações e emoções de tristeza possam nos ser bastante úteis (tenho poucas dúvidas de que são as mais úteis), se pudéssemos esquecê-las viveríamos como em um mundo de fantasia, sem culpas ou pesares.
É, nós não somos muito propensos a seguir o Seiri, contudo, nossa mente não é nossa subordinada, aliás, está muito longe disso. Nossa psique parece ser programada para obedecer esse senso.
Frequentemente esquecemos daquilo que nos é incomodativo, esquecemos de momentos traumaticamente definitivos em nossa vida, e isso porque nos é útil apagar essas memórias, fingir que temos medo de determinada situação simplesmente porque ela pode ser perigosa e não porque, em algum recôndito da nossa mente, ela repousa em uma memória sem luz.
Deixar de lado aquilo que parece ser ameaçador, portanto, não-útil, parece ser uma habilidade bastante peculiar da mente, ela distorce, altera, esquece, apaga, ou seja como for, ela manipula com maestria nossa vida interna, se não estamos atentos.
Pode parecer meio amedrontador, mas já pensou no caos e no mundo recheado de conflitos que seríamos se simplesmente lembrássemos de tudo? Tenho certeza de que não dançaríamos um tango, mas uma marcha fúnebre.
Ou nasceríamos diferentes. Não sei, não me decidi.
Ajuda a opinar?
5S – Os 5 sensos
2
Pra simplificar as coisas: o sistema 5S é uma metodologia originada, dessa forma, no Japão, que visa a melhoria organizacional do ambiente de trabalho, principalmente, e, por que não, da sua casa, quarto, cozinha, computador, enfim, onde você quiser e for necessário.
Não podemos dizer que os japoneses inventaram o 5S, afinal, conforme eu for apresentando os itens, vocês verão que muitas dessas coisas são intrínsecas a alguns de nós, consoante a nossa educação, forma de criação, ambiente externo e outras variantes.
Pois bem, mas o que quer dizer 5S?
5S, como eu disse, é um sistema para melhorar a organização do ambiente, seja lá o motivo principal. O nome vem dos itens que o compõem, são 5 itens, 5 palavras japonesas com iniciam com S, simples assim:
- SEIRI – Senso de Utilização: basicamente, é manter só o que é útil em nosso ambiente, aquela história de guardar coisas velhas porque, quem sabe, um dia, ainda podem ser úteis, não é muito bem-vinda aqui;
- SEITON – Senso de Ordenação: guardar, guardar tudo de forma correta, prática e muito bem indicada. É etiquetar gavetas com o seu conteúdo, é colocar mais próximo o que é mais frequentemente utilizado, é tomar providências para que tudo esteja sempre no seu devido lugar;
- SEISO – Senso de Limpeza: não há muito o que dizer, limpar é essencial para manter um ambiente agradável e bem organizado, isso deve ser tarefa diária de empresas, fábricas, casas e…bom, depois explico;
- SEIKETSU – Senso de Normalização: é uma espécie de procedimento padrão para determinadas coisas, tudo deve ser explícito, bem explicado, utilizando-se dos recursos mnemônicos ou o que for da melhor forma possível;
- SHITSUKE – Senso de Autodisciplina: manter a atenção à empresa, aos processos, aos funcionários, cada um sendo atento sobre si mesmo, é importante na busca do melhoramento contínuo.
Apresentados os 5S`s, de maneira sucinta o suficiente pra me acusar de vago, eu digo que o foco dos posts seguintes acerca desses sensos não será a área administrativa. Farei minhas tradicionais viagens pelas teorias definitivamente sem muito nexo e vou tentar aplicar os 5S`s na psique.
Assistindo de olhos fechados
8
Em que momento foi que perdemos a nossa habilidade de sentir e estar presente aos momentos? Quando foi que esquecemos de presenciar a própria vida como parte dela? Quando deixamos de lado a atenção a todas as sensações causadas pelos cheiros, sons e luzes que nos tocam o tempo todo?
Ontem à noite, antes de dormir, liguei a TV na MTV e estava passando um clipe muito velho, isto é, do meu tempo de criança: Kid Abelha, na rua na chuva na fazenda. Tudo bem, nunca gostei tanto dessa música quanto eu gosto da Paula Toller, no entanto, ela me lembra minha casa em Cruz Alta, aquela onde cresci com meus irmãos.
Ao fechar os olhos ouvindo a música pude reviver momentos simples, distantes, e, ainda assim, significativos, de alguma forma, pro que sou hoje. Momentos assim, miúdos, aparentemente insignificantes, acabam se somando e construindo o que nós somos, fazem nossos hábitos e vícios, traumas e vontades.
Como ia dizendo, fechei os olhos e comecei a ouvir a música, sem prestar atenção na letra, apenas sentindo a melodia e percebendo o que aquilo ressuscitava em mim: o céu azul de um verão escaldante no clube onde costumava jogar tênis, o olhar através da janela para a chuva numa tarde assistindo The Goonies enquanto comia doce, o cheiro do xampu que usava naquela época, as brincadeiras na rua até escurecer e o horário de ir pra casa assistir Cavaleiros do Zodíaco e comer bolacha ou pipoca.
Naturalmente, essas lembranças boas trariam uma sensação de paz e sossego; contudo, mesmo quando as memórias invocadas são aquelas de alegria menos expressiva, a sensação de paz e sossego continua…
Continua porque naquela época ainda era presente em minha própria vida, porque sentia aquele cheiro e atentava à ele, porque via a chuva e queria tocá-la e sentí-la, gelada, em mim, esquecendo de um possível resfriado, era apenas viver o momento, quase incauto.
A música tinha sempre um tom de novidade, e disso eu realmente sinto falta, a música era muito mais alma do que instrumento.
E como retornar a esse estado de percepção da vida?
Tenho certeza de que revirar a infância não resolve nossos problemas, nossa apatia, no entanto, deve haver uma forma de trazer de volta esse sentimento de presença, de vida eminente, uma sensação que de tão pesada chega a nos prender, mas nos prende num lugar muito acima daquele em que nos sentamos e ficamos observando a vida continuar, esquecendo de fechar os olhos e sentir, e ouvir, e cheiras, e tocar…
Sétima poltrona, terceira fila.