Eu
bico seco
0Depois que tomei um chá com Platão, fiquei meio assim, longe
Então tomei um café com Machado de Assis, e a realidade ficou tão crua
Lembrei da cerveja com Nietzsche, quando superava minha finitude humana
Jung me disse, certa feita, para eu acompanhar seu pensamento
Mas Crowley disse para eu acompanhar o meu
Sidharta, ele me mostrou um silêncio que acompanhava tudo isso
Na distância e na realidade, minha limitação indiferente, calou-se
Hoje só tomo água, porque ela me lembra nada.
aos pontos finais, um ponto
1É do teu calar que eu lembro
Dos teus pedaços faltantes
É dos teus defeitos tão singelos
E do teu choro tão quente
Lembro das mãos pequenas
Uma na minha outra em mim
Teus cabelos com cheiro de estrela
Em noite de lua cheia
Lembro até mesmo dos sonhos certos e precisos
Desperdiçados em noites claras
E da realidade vaga e subjetiva que nos cercava
Ai, tenho medo do gelo que hoje trazes
Tu me dizendo pra calar, e eu dizendo pra que sintas
Pára e torna clara essa nuvem sulfúrica densa
Pára e mostra as mãos frias
Desvela o coração quente
sem sal
1Ai, que eu cansei dessa nossa vida moreninha,
Tão bronzeada de sol,
Tão pacata e bonitinha,
Nesse insosso arrebol.
Deixa o calo doer e sangrar a ferida;
Nessa rede, descansados, tá tão ralo,
Todo esse nosso viver, querida;
É do adoecer e curar que eu falo.
É do cair e levantar nessa poeira
Que eu vi em nós a podridão,
E ali também outros verão
Essa loucura que nos beira.
(sigh)
0Eis que não tenho história para contar,
Meu passado foi vazio e opaco;
Ah, nessa vida inda sou tão laico,
E já nem sei mais como me portar.
Passo horas em vão ao nada,
E em cada vaga chaga trago
Do chimarrão o amargo,
Fazendo minha solidão recheada.
É assim mesmo, sinérgico e sem nexo,
O verde com água quente que me mente
Que aqui ainda existe alguém que sente
O amor, esse natimorto complexo.
carência de si, ou de mi
1Acho que foi no Zero Hora, li uma entrevista com a Fernanda Young. Primeiramente, devo elogiá-la pelo caráter, por ser ela mesma independente do que falam ou pensam, podem até não gostar dela, mas a sinceridade e retidão para consigo que ela tem, ou ao menos demonstra ter, deve ser parâmetro e exemplo para nós.
Aliás, quem tem visto o programa O Sistema, da rede Globo? Ela é escritora do programa, junto com, acredito eu, seu marido. Estou adorando, é uma viagem completa, uma ironia não muito forte, mas divertida, e piadas inteligentes ou, talvez, intelectuais.
Enfim, já ia me esquecendo o porque de ter citado ela. Retomemos: foi numa entrevista com ela que li sobre a “necessidade” dela de escrever, não vou lembrar exatamente os termos que usou nem os porquês mais precisos, o que também não vem ao caso.
Meus caros, e raros, leitores, este que aqui lhes fala compartilha da Sra. Fernanda Young no que tange a uma necessidade de escrever. Pois bem, vejamos, o ser humano sente uma necessidade de viver, é inquieto, insatisfeito, incompleto e inacabado. Não vejo muitas exceções a essa regra. Se mamíferos humanos são impelidos a viver como caçadores, antes de comida para sobreviver, hoje de qualquer coisa que os compraza, se há essa necessidade, e eu vejo nescidade nisso tudo, nessa imperfeição, nesse ser desajeitado e desorientado, se vejo tolice em grande parte das coisas que vejo quando estou são – seria muito mais sábio admitir sermos ainda animais completamente reacionários aos instintos e impulsos externos. Nesse sentido, e nessa tendência minha à exclusão, vejo a arte como um meio de propagar sentimentos intensos e pesados, aqueles que não vivo, pois se me apaixono não dura mais do que uma ressaca.
A certeza do que escrevo é estúpida, amanhã é incerta. Assim são os poemas incrivelmente negros: metamórficos e mutáveis. No que escrevo existem apenas possibilidades, mas dificilmente verdades completas (e verdade pela metade é mentira). Escapo por ali na minha vontade de viver intensamente, se há algo ali é inveja de não conseguir ser sempre desatento e superficial (por isso há o álcool, e, ainda assim, em doses altas).
Portanto, caro leitor, cuidado: sou ficcionista, romântico e irônico; uma verruga na vida da poesia. Quem me há de cauterizar? Sou animal, instintivo, e aqui expresso o que não é para que, ao menos finja, por alguns segundos, ser; afinal, como escreveu o Marcelo Camelo (ou o Rodrigo Amarante), “e alguma coisa a gente tem que amar, mas o que eu já não sei mais”. Além da família, amigos de verdade, eu mesmo, meu SAG e minha nódoa de razão desajuizada que chamam de poesia, não há nada mais para amar. Escrevo na necessidade de amar algo que não alcanço e não termino(a), pois sou animal insatisfeito.