Eu
nauticus iv-v . interlúdio
1Espera.
Sentiu?
O Universo está respirando.
Até posso ouvir o som e sentir o fluxo da energia deslocada.
Mas vai por tantos lados, de tantas formas, que não ao certo qual das correntes devo seguir, em qual devo me agarrar.
Vê, as coisas são tão contextualizadas e nós tão acostumados à cegueira que se eu disser que sei exatamente onde tudo vai dar me chamarão de louco. Mas eu sei.
Se eu repetir pra mim mesmo, vou me censurar e me chamar de louco, eu bem o sei. Nem mesmo teria coragem para seguir aquela correnteza de diamantes belos e cortantes.
Em fato, já me ceguei de novo. Por vezes eu vejo, é verdade, mas é como um trago de vodka, no outro dia nem sempre se lembra de tudo, e a mensagem se perde num mar infinito.
Sei, porém, que há um sopro aqui perto que eu devo seguir. Sei que está aqui pertinho, sei que quase posso tocá-lo, mas por que não o vejo agora?
Cheiro.
Tateio.
Ouço.
Provo.
Mas só o Ver me poderia guiar agora.
Acho que devo mergulhar.
Sim, é hora de mergulhar!
nauticus iv
0A maré baixou, os ventos cessaram,
Mas já nem se pode enxergar
A casinha lá, meu ermo lar
que os cães já cercaram.
Não vejo ondas, não vejo terras,
E o céu tão claro que me cego,
O sol ilumina o que eu nego:
Parece-me prefácio de guerras.
Agora me vem uma brisa morna;
É, pois, tempo de preparações,
Seguir-se-ão ventos e tufões,
Minha vida anseia pela alma que retorna.
licença, Zé
2Há alguns dias terminei de ler o excelente livro de José Saramago “Ensaio sobre a cegueira”. Sinto-me impelido a fazer algumas citações dos diálogos dos personagens ou de observações do próprio escritor, mas não o farei. Claro que a história contém vários elementos um tanto tangentes à realidade, no entanto, a realidade psicológica se torna tão crua e fiel que podemos relevar algumas minúcias.
O que vem ao caso é o que seria de nós num mundo de cegos? É certo que teríamos, inicialmente, diversos problemas de higiene e alimentação, de desenvolvimento de tecnologias e de organização social. Porém, acredito que teríamos ainda razão suficiente para superar tudo isso e passar a um novo estado (estágio) de (sobre)vivência.
O que mais me admira, entretanto, é como o foco de nossas atenção estaria sendo desviado. Eu explico. É que, atualmente, vejo mais do que 50% da nossa vida ser guiada pelas aparências visuais (e ressalto desde já que não sou absolutamente nada contra isso, talvez até seja um tanto a favor, o que também não vem muito ao caso). Antes de ouvir, observamos; antes de nos apresentarmos, observamos; antes de cheirar, observamos. Analisamos as pessoas, os alimentos e produtos em geral pelas cores, pelas formas visuais, mas e se tudo isso fosse, de repente, apagado? E se restasse para nós apenas o cheiro, o tato, o paladar e a audição para que nos comunicássemos com o mundo?
Será que cegos aprenderíamos (inventaríamos) uma nova forma de vaidade, de estética? Eu poderia muito bem ser atraído por uma mulher unicamente por sua voz, combinada com a textura de sua pele e seu cheiro, afinal, no fim das contas é isso que conta juntamente com a beleza visual. Porém, não penso que existiria um padrão de beleza tão rígido e senso comum, parece-me que sob tal condição nos abriríamos a novas formas de experimentar os corpos alheios e o próprio corpo, teríamos mais tato e nos aproximaríamos mais, ouviríamos mais o que têm para nos dizer, seríamos mais atento ao recheio daquelas mentes que se escondem em panos e laços.
E melhor ainda seria se, depois de perdermos a visão, voltássemos a tê-la no momento mais inoportuno, para vermos, de fato, o que a realidade não-visual nos trazia em tal hora.
Será que seríamos seres humanos melhores ou piores? Penso que seríamos os mesmos, com aquilo que chamamos de “futilidade”, mas no fundo tanto nos prende, desviada para outro tipo de sensação.
Mas a música, com certeza, seria mais deliciosa.
Life Coaching by Titiao, mude sua vida agora!
3Todo corpo inerte tende a manter seu estado de inércia enquanto não há uma força que o faça sair de tal situação, por isso não estendi o braço até o longínquo e inalcançável controle remoto para trocar de canal na televisão. E agora a parte mais vergonhosa: olhei o programa da Oprah no GNT… pronto, falei.
Assisti ao programa, não sei como nem porque, mas lembro somente de cerca de cinco minutos dele, depois que vi ela entrevistar uma mulher, e na tarja da tela apareceu o nome da pessoa e o título de “Life Coach” eu simplesmente não consegui mais me concentrar, só lembro que falavam em auto-ajuda e O Segredo.
Enfim, acho que me perdi em algum momento, ora, preciso de um treinador pra vida, afinal, devo me preparar pra essa grandiosa competição, não é? Contrato um preparador físico, uma nutricionista, um psicólogo (não sei se preciso depois desse novo profissional) e um treinador pra vida. Ah, e com tudo isso, é claro, um cardiologista.
Falando sério, como assim um Life Coach? Isso virou profissão agora? Mudamos o nome de amigos, família e até de psicólogos e palestrantes motivacionais para um novíssimo e otimista “Life Coach”? Acho que vou buscar esse título, só ainda não sei se é de graduação, técnico, pós ou doutorado, mas vou pesquisar, afinal, penso que eu daria um bom treinador, haja vista aquela antiga frase “faça o que eu digo, não faça o que eu faço”.
Será que não sabemos, e se não sabemos, alguém do nosso lado sabe, os rumos simples e nunca perfeitos da vida? Será que já estamos com tanto medo assim de errar, e um erro, ainda assim, nos poderia derrotar irreversivelmente? Parece-me que antigamente se abria maior espaço ao erro, afinal, tanto o certo ou o errado deixam marcas, deixam-nos com impressões e formas mentais que jamais serão apagadas. Ninguém é fruto unicamente da genética, somos uma mistura, uma miscelânea, um revirado de comida e bebida, pensamento e ação, erros e acertos, vícios e virtudes, sanidades e sandices… enfim, tudo com um pouco de tudo, numa teia indissolúvel e cósmica.
Mas voltando ao assunto. Tô assumindo o posto de “Life Coach” então, quem precisar que me mande e-mail ou me ligue para combinar preços e formas de atendimento. Daremos um trato nessa sua alma fétida, rabugenta e preguiçosa.
Antes, acho que tenho que fazer um slogan melhor pra melhorar a propaganda.
flores
3Olhou pelas frestas da persiana que tapava a entrada da luz da manhã no quarto dela, era uma atmosfera completamente difusa do que se via lá fora. Resolveu se levantar e ir até lá. Quão pesados pareciam os seus pés, os seus passos, a sua mente. Tudo estava insustentavelmente pesado.
Achegou-se na janela de vidros fechados, abaixou uma das abas da persiana e olhou para fora. O sol iluminava tão fortemente que seus olhos cerraram levemente. Havia muito verde no pátio, uma árvore linda florescia circundada por pedras. Na piscina havia algumas folhas, e um pássaro na borda buscava água ali. O cenário era límpido, puro demais, aliás, puro o suficiente.
Quis sentir o cheiro daquela natureza, quis interagir, misturar-se a ela, ser com ela. No entanto, não ousou nem mesmo abrir os vidros nem a persiana. Soltou a aba que segurava e fechou os olhos num esforço para esquecer-se de si mesmo, do cenário de fora e de dentro, de si e do alheio.
Ao abrir os olhos novamente, já tinha seu rosto voltado para a direita, numa violeta que repousava ali, perto da janela donde deveria sempre buscar a claridade do sol. Via as flores murchas, pardas, esvaecendo-se a cada minuto mais e mais.
Não seria o corpo tão frágil assim? Cessamos de comer e se nos faltam as forças, cessamos de buscar o sol e se nos falta a vontade, a vitalidade, os desejos. Quantos amigos já não vira ele cessarem de buscar o sol, e acabavam por meterem-se numa casca de tijolos frágeis e espinhentos, outros se jogavam contra si mesmos. Se eles fossem violetas, certamente não seriam das mais belas.
O que valia a pena naquilo tudo? Por dias nublados não sobreviviam, frágeis. Mas se tudo se resumia àquilo, qual sentido? O que haveria depois? Eram, os homens, apenas um amontoado de experiências e acasos que foram sendo construídos ao bel prazer do tempo e da genética? Como numa teia de acontecimentos, cada sopro de diferença poderia resultar num produto abissalmente difuso.
Era tudo tão tênue, tão indigno e frágil. A vida, a memória, o sentimento, o corpo… enfim, aos olhos do tempo do mundo tudo era perene e insignificante.
E ela, ali, atrás dele, que nem acordara, estava na entropia dum buraco negro, num lugar que não se conhece, que se teme, para onde caminhamos às cegas mas com passos resolutos.
Virou-se para a cama que ainda tinha um volume debaixo das cobertas. Milhões e milhões de átomos em colapso, buscando uma nova situação de equilíbrio que não encontrariam. A aspereza do ar era própria da morte, era própria dum invólucro inanimado e ainda tão sutilmente branco. Parecia que num rápido chacoalhão ela voltaria, abriria os olhos e perguntaria O que houve, por que a sacudia daquela forma, e ele sorrindo diria Nada, apenas te queria acordada.
Para onde, então, foram as memórias e os sentimentos, para onde foi o que chamam de alma? Ficou tudo que havia de valor perdido entre neurônios que morrem, entre descargas elétricas que se cessam? Há alguma coisa que não seja apenas física, química e pó?
Caminhou até a cama, agora já nem raciocinava, era um animal, instinto e dor o cegavam. Sentou-se, devagar, como um pai que quer assistir ao sono do filho sem o acordar. Puxou uma das mãos dela para si, a pôs entre as suas, e as três entre os dois joelhos e a cabeça, como se encolhido pudesse suportar melhor as lágrimas que aumentavam o desespero e o calor do seu corpo, calor que contrastava cada vez mais com o do corpo dela, ou que fora dela.
Levantou os olhos, viu ainda o tubo de pílulas vazio, completamente vazio. Como ela pudera fazer isto? O sol brilhava sempre tão maravilhosamente belo naquela janela, mas nela havia se apagado, mas nela nem havia um espelho pra refletir, tal qual a lua, o sol externo. E, em não sabendo copiar, em não sabendo tatear na própria escuridão, viu-se contra si mesma. Cortara a corda, rompera a tensão, deixara as paredes que se fechavam mais e mais finalmente abrirem-se num rápido instante.
As lágrimas caíam no chão, na mão dela e nas suas, salgavam a sua boca. Então, pôs de volta a mão onde estava, assim ela ficava bela e poderia pensar que logo acordaria daquele sono misterioso que é a morte.
Dessa vez foi até a janela e abriu tudo, persiana e vidro, deixou o ar entrar, misturar-se a atmosfera abafada do quarto. O pássaro não estava mais lá, e ele viu apenas as folhas afogadas na piscina, naquele excesso de água. O que era aquilo tudo, sobrava luz, sobrava água, sobrava ar, ainda assim havia morte, havia a vida sendo negada em cada centímetro daquela confusão.
Pensou consigo que viver era um disparate, sim, a vida não passava de um disparate, um equívoco da natureza.