Eu
nauticus vi
1Soube esperar…
Devo saber esperar (ainda).
As águas me levaram…
(As águas me levam).
Eis que, na correnteza, aprendi a escutar os mares, os rios…
Se eu souber esperar mais, e ouvir melhor,
Ah, casinha minha, retornarei a ti.
Não sei muito bem pra que lado estás,
O sol está a pino, e não sei quais são leste e oeste.
Diga-me, mar meu, pra onde estás a me levar?
Ensina-me, também, a ouvir teu irmão, o vento,
Para que, quando eu voltar à superfície, possa ouvir dele as palavras em terra firme.
escorre
0Era como um belo poema
Derretendo-se em mãos ausentes,
Vazias; e cerrava os dentes
Numa fúria que se queima.
Tremem mãos, fracas e esquálidas,
Esvaindo o que em vida fora belo,
Perdendo um propósito, um cego anelo
Que vaza por horas inválidas
Que compromisso esse (salgado) saber
Que como cansado de suportar
De si para si, vai-se achegar
Nas portas do enlouquecer
posse
1Mas vês, ainda assim possuís a mim;
E me tens, sempre sem saber.
E calo no que deveria dizer,
E pronuncio o calar sem fim.
Falo em teorias, em poesias,
Em textos, em palavras parcas…
Farto das próprias marcas,
Distraio, a ti e a mim, em fantasias.
Prolixo, silencio no importante.
Firme, falo, em fria fonética,
Da alma, mente, moral e ética,
Para trazer-te a mim num instante.
nauticus v
2Pensei que queria descer,
Seguir uma maré qualquer, nadar com os outros.
Naveguei por tempo demais dentro do meu barquinho,
Agora já não sei nadar; não me falta, propriamente, a habilidade,
Falta-me o sentido, falta-me a causa,
Fogem as razões e, então, por vezes, lembro-me de mim e fico inerte,
A imobilidade me faz esperar uma correnteza que não vem.
Ah, sinto um calor do centro da terra,
Essas águas mornas me atraem.
Olho para cima das águas e já nem tenho visto meu barco,
Nem as rochas da minha antiga montanha me guiam mais.
Por muito tempo fiquei longe, já não sei o que é me protagonizar;
Fui meu próprio coadjuvante, e isso me bastava;
Por que, então, tive que mergulhar?
olimpíadas
0Já disse que sou um defensor do esporte? Acredito que o espírito de atleta lançou este mundo muito mais longe do que teria ido sem não tivéssemos, alguns de nós, o ímpeto de se superar, ultrapassar barreiras (imagine então onde estaríamos). O esporte nos mostrou, e continua mostrando, que limites são sempre transponíveis.
No início, tínhamos necessidade de caçar, de desenvolver mais e mais as propriedades do corpo, num instinto de sobrevivência bastante primitivo e selvagem. Tempos mais tarde, quando já sabíamos plantar e colher, criar gado e afins, deixamos de precisar tanto do corpo, mas criamos outras coisas além das propriedades intelectuais. A arte, e dessa muito já se veio ao mundo, e o esporte, que atravessou anos e daqui alguns dias se faz palco principal de muitas vidas nas chamadas Olimpíadas.
Além das guerras, acredito que os esportes têm proporcionado um grande avanço ao ser humano, tanto no âmbito de superação física como no desenvolvimento de novas tecnologias para melhor compreensão do corpo, das células, da física e da química, etc.
Mas eis que, tangenciando o tema, vou-me jogado a uma coisa surpreendente: a estrutura criada para as Olimpíadas deste ano pelos chineses. Que coisa maravilhosa! O evento produzido por eles foi o mais caro já realizado. Conseguiram limpar o céu da poluição, vão lançar bombas de sulfeto de prata pra evitar chuva na hora da cerimônia de abertura, fizeram mega-construções, e diversas outras coisas que representam um esforço do homem em conseguir um aprimoramento em diversos setores.
Há, contudo, atrás das cortinas desse espetáculo algo de muito mais valor, chama-se disciplina. O regime comunista da China deixou o rigor na educação como herança, são todos soldados da sociedade, buscando fazer o melhor para que haja uma organização pacífica e evolutiva. Como um observador de longe, essa rigidez me parece mais interessante, pois não chega a tolher as faculdades criativas dos cidadãos, parece-me que eles se vêem livres nessa disciplina, têm consciência de como seria se diferente fosse.
Essa disciplina na vida é justamente aquela que os atletas têm para com seu trabalho. Será que o Übermensch não seria, também, um grande atleta?