Eu

e agora?

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Queria poder gravar todas as coisas lindas que escuto na televisão (leia-se rede globo), são tantas maravilhas que me surpreendem diariamente que fico assim, sem palavras.
Hoje, porém, não resisti, precisei vir aqui registrar. Foram tantos elos de ligação, tantas surpresas inesperadas, tantas entradas para dentro que hoje, ao ouvir um jornalista comentando sobre a reportagem nas palavras “caminhamos a pé”, senti-me saturado desse jornalismo sério e congruente.
Falarmos errado em conversas informais, tudo bem; errarmos em textos sem muita projeção, aceitável. Enfim, há uma série de erros permissíveis, mas todos os dias uma infinidade de bobagens sendo disparadas por uma das principais redes de televisão nacional se torna uma ofensa. Não há como, desta forma, exigir do povo que fale corretamente seu idioma, sedo que diariamente ouvem que ganharam de graça na promoção.
É indispensável o uso correto do português nos meios de comunicação, ao menos.
Acho que vou lançar uma campanha para esse bom uso lingüístico, vamos encarar de frente esse problema que atinge uma multidão de pessoas.
Apoiado?

ensino decadente

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Entrar na universidade para que lhe digam para ler o capítulo xv e responder às questões de um a treze é meio inútil, se fosse esse objetivo teria ficado em casa aproveitando melhor o tempo. O que está nos livros já está lá (óbvio), e ninguém que está na universidade deveria ter problemas cognitivos graves o suficiente para ler e não entender nada. Nenhum aluno é contente em ser um copiador de conhecimento.
Aulas expositivas: eis que se perdeu o senso de direção do ensino. Não há razão para ficar quatro horas sentado em uma cadeira pouco confortável ouvindo o resumo de um professor sobre um capítulo de um livro que ele “adotou” como roteiro básico para suas aulas. Quando muito, temos o prazer de ter um trabalho verdadeiro de um professor mais evoluído baseado em referências mais amplas e exposto de forma mais interessante, porém, ainda assim, se a aula fica exclusivamente expositiva, é preferível dormir e aprender sozinho, usando-se de auxílios externos.
Ora, presumo que o estudante pretender descobrir coisas, imaginar, inventar, criar. Claro que é necessário ter os conhecimentos desenvolvidos até aqui, mas para que isso seja válido, a exposição de conteúdo deve ser simples, rápida e cheia de espaço para discussões, questionamentos e comparações.
Os professores têm trabalhado com um método muito simples: pede e quer ser atendido da forma que imaginou previamente, ou seja, o aluno deve corresponder a expectativas, não deve comparar e opinar; deve citar, mesmo que esse conhecimento já lhe seja comum; deve embasar, mesmo que seja ponto pacífico. Criar hipóteses é algo fora de cogitação. Imagine, um simples graduando tendo a ousadia de supor algo além dos livros… Quanta empáfia.
Não consigo ver gênios sendo descobertos como poderiam ser, pois que não poderia enxergar Einstein sentado nas fileiras de uma sala de aula ouvindo o resumo do capítulo xv que o professor resolveu ensinar. Acho que o seu Alberto seria capaz de ler um capítulo, compreender e reescrever da sua forma (e corretamente) sem precisar de uma sala de aula para tal.
Se a grande falta do mercado é criatividade e versatilidade profissional, isso se deve à forma com que se educa os cidadãos, sem incitá-los ao misterioso que ainda há por ser desvendado.
Uns fingem que ensinam, outros fingem que aprendem, e assim fica tudo bem. Dar aulas vazias e desinteressantes não é um problema, seria, sim, se a ementa não fosse cumprida.
Ai, como Saramago, Kundera, Hesse e outros têm me caído bem – melhor do que pensava – em aulas de engenharia.

cena i

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Ela chorava, quase muda, sobre seus lençóis brancos, de seda, bagunçados, enrolados entre suas pernas nuas, o atrito entre as coxas de pele macia e o lençol produzia um som divino, era uma imagem inacreditavelmente bela se fosse separada do resto da cena. Pois, que se lhe víssemos logo acima da cintura já perceberíamos as convulsões abdominais provocadas pelo choro. Seus seios arfavam junto com o peito, e não era tão lindo como deveria ser.
Suspiros de dores maiores que um universo, por vezes, se lhe escapavam, e se estivesse lá me arrepiaria com tanta dor contida num único som. Seus cabelos castanhos já sem forma, misturavam-se às lágrimas, à boca molhada, eram uma matéria inerte naquilo tudo, como se perguntassem o que faziam ali, sem entenderem o que era o todo, afinal, o que sabemos nós do todo?
Mas o leitor deve se perguntar: por que tanto sofrimento?
Não sei a razão, e, sinceramente, tampouco me importa. Vejo a cena, vejo a dor, e é o fato que me interessa, não a causa, não a conseqüência, apenas a crueza de toda aquela dor materializada num corpo tão belo e tão desprovido de sua própria beleza por alguns instantes.
Num dos suspiros supracitados, ela desfaleceu na cama, como que debilitada física e mentalmente. Seu tronco pendia para trás, e suas pernas continuavam dobradas como se continuasse ajoelhada. Olhava para o teto com os olhos semi-cerrados, mas a maior parte do tempo, de olhos fechados, sentia as lágrimas mornas e salgadas escorrerem pelo rosto. Era uma sensação boa, essa do arrebatamento, das lágrimas acariciando sua pele.
O cansaço tomava conta do seu corpo.
Adormeceria ela, naquele cenário sutil, e quem visse a cena a partir de agora diria apenas que era uma moça dormindo de um modo estranho. Não havia restos do pranto que lhe ocupou por mais de uma hora, nenhuma marca, nenhum corte, nada.
Ela sonharia um sonho belo, pois aos que têm sua vida mergulhada em tumultos internos, em incessantes discussões de si para consigo, e num avesso superficial mostrado ao mundo leva uma perfeição em suas mãos, nada melhor é dado do que um sonho confortante.
Também não sei com o que sonhava, mas seu rosto traduzia um sorriso de criança. De certo se lembrava do dia em que nunca tivera na infância, mas o ideara para encontrar refúgio.

corda

1

Deixa-me ser o primeiro a erguer o braço e gritar:
- Eu não me sinto bem!
E de tão feliz que direi soará falsidade.
Mas é o conformismo que nos cerca,
É o tédio que nos mata,
É o pouco de todo pouco que vem me corroendo.
O pouco de todo pouco, pois não houve muito me dado a conhecer.
E eu fiquei assim, enfadado, engomado, engolido, tragado,
Num traço reto de misericórdia de si mesmo.
Pelo subjetivismo pendurado como um macaco.
Não me balanço,
Não por medo de cair,
Mas por ter perdido a graça.
Vê?
É o tédio.

opaca

0

Pois nada satisfaz quando a alma é opaca,
E empaca, empaca, empaca…
Parece-me que saí ao mundo por engano
E, vivendo mal feito plano, vou ao nada.
Mas a cristalina e diáfana beleza que me tomava,
Por vezes, me assalta ainda,
Apenas para mostrar que me torno mais e mais opaco.
Alma opaca,
Que empaca, empaca, empaca…
Quando cessam em mim os fulgores,
Vejo a pérola que me é a solidão,
O descanso de amores, de dores.
Quanto me custa o mundo, então?
Quanto me vale ver essa visceral voracidade pelo nada!?
Pois que nada me satisfaz, vivendo nessa alma que empaca
De tão opaca.
Opaca.
Opaca.

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