Eu
té
2E a fumaça sobe, a água evapora.
O vapor sobe ao ambiente, aquecendo-o,
Ou será o vapor deixando o calor para se resfriar?
Eis um gole, e o calor me acalma.
Um doce para o descanso,
Um descanso para o descaso.
Lembro de mim quando,
Com ambas as mãos, seguro a caneca
E sinto o aroma de nostalgia.
A fumaça sobe a mim,
E eu, sereno e só, lembro de mim.
vote
0Ok, pra entrar no clima, posto um videozinho bem legal.
Talvez eu esteja meio louco, não sei, é uma hipótese, mas vejo naqueles sorrisos tanto desinteresse pela construção social, por aquilo que deveria ser o verdadeiro intuito de um governante. Vejo o exagero daqueles olhos que praticamente dizem “votem em mim, não farei nada do que digo, é puro interesse pessoal minha candidatura, mas você não tem muita escolha”.
Será que to ficando meio louco? Sei lá, sinto várias coisas ao mesmo tempo, coisas como vontade de rir daquilo tudo que mostra ser tão falso e impossível de acreditar, de ironizar todas aquelas besteiras ditas – numas vezes mal ditas, noutras quase convincentes -, de chorar diante da falácia sem futuro que me faz faltar a esperança ou de dar uns socos. Enfim…
Desejo a todos excelente eleição, não posso dizer nada mais do que isso, vote com consciência. Apesar de todas as decepções, ainda creio que possa haver alguém com verdadeiro propósito se candidatando por aí, espero por uma safra de homens honestos e verdadeiros, mas enquanto isso não vem, fiquemos com o que temos por aí.
Boa sorte pra nós.
baque
3Escrevo porque tenho saudade.
Sinto falta da falta do que fazer ao lado dos amigos, sinto falta dos amigos que foram sendo jogados pra longe de mim, ou eu fui sendo afastado deles. Fins de tarde na frente da escola, sem preocupações, finais de semana com a banda, noites com a rua, os amigos e as cachaças baratas.
Tenho saudade de sentir frio nas tardes, nas noites, nos bailes, nas festas, nos nadas e nos tudos, nas horas de filosofia adolescente. Lembro de jogar RPG, de escutar música e apenas escutar música, de jogar futebol de calça jeans, porque isso não era sempre um compromisso marcado, mas uma distração ao acaso.
Fico remoendo o que era toda aquela vontade, todo aquele desejo, dores, amores, fervores e paixões; ficam-me, hoje, como uma sombra do passado apenas lembrando que aquilo tudo foi divertido, foi intenso, valeu a pena, mas reconhecer isso não me conforta nem fortalece.
Lembro nomes, lembro rostos, cheiros, sons, luzes, vapores e gostos, que agora se disfarçam de cotidiano. Penso em como seria ter novamente um objetivo para lutar, para morrer, para viver.
Ah, que me aperta coração e garganta esse recordar e não reviver, esse lembrar sem ter potência de recuperar o que foi deixado pelo caminho.
Queria rever-me, mas não sei aonde me encontrar. Que saudade sinto de mim.
cena ii
2Estou lendo o jornal do dia num café no centro da cidade, são quase onze horas da manhã. Meu café está quente e forte, por isso o tomo devagar, com calma, e assim posso, também, observar bem o lugar em que me encontro.
Lá fora está frio, mas aqui dentro não, tem uma lareira atrás de mim, a umas três mesas de distância, que esquenta o ambiente.
Há na minha frente uma moça, deve ter uns trinta anos, isso já me faz crer que deveria estar vendo meus netos se formando no ensino médio. Pois bem, a mulher carrega no colo uma criança, e por isso me remeti aos meus netos, deve ter quase dois anos de idade, tem olhinhos azuis e cabelos loiros e crespos, um anjinho, faz-me lembrar minha filha quando era criança. A jovemzinha acaba de me dar um sorriso tão belo que senti vontade de chorar, não sei porque, acho que a idade este me deixando mole, mas apenas esbocei um sorriso o mais simpático possível. Realmente, parecia um anjinho, e brinca com seus dedinhos como se o mundo inteiro estivesse ali, nada mais, nada além, e seu riso suave chegava aos meus ouvidos fazendo com que, involuntariamente, meu sorriso seja mantido.
Eis que me distraio. Um casal acaba de entrar no café. Ambos devem estar na casa dos vinte e poucos, com certeza menos de vinte e cinco. Ele usava roupas pardas e tinha passos firmes, a abraçava pela cintura. Ela usava roupas mais claras, e seus olhos brilhavam pela companhia do rapaz. Tem coisas que apenas a idade nos faz perceber, esses vários anos de experiência podem trazer certa sabedoria à alma, certo que não sou nenhum sábio, mas já não sou tão inocente e ingênuo como fui em minha juventude. Ele puxou a cadeira pra ela sentar, tirou o casaco e colocou na cadeira e depois se sentou.
Ouço uma música ambiente no café, é um blues, e isso me faz lembrar de quando morava na Inglaterra, quando ainda era produtor de discos. Tomei um gole do café, e voltei os olhos ao jornal. Meus pés batem no ritmo da música que toca, é tão bom sentir esse ritmo, a mulher que canta tem uma voz agradável, forte e ao mesmo tempo suave. O casal que entrou depois sorri, a mocinha agora brinca com um guardanapo que pegou na mesa de sua mãe.
O que não daria pra ela estar aqui agora, minha companheira, observando essas cores, sentidos esses cheiros, pulsando o ritmo da música, quem sabe até arriscando um vocalize sobre a base tocada. Ah, nem a velhice tirou a beleza e o brilho dos olhos daquela minha doce companheira, mas o tempo veio arrancá-la de minhas mãos.
Já não presto atenção no jornal. Olho em volta novamente enquanto busco a xícara para tomar o último gole restante ali, e nem está mais quente. Levanto, dou uma olhada para o casal, e não posso negar, há ciúmes nos meus olhos, mas há ainda mais uma espécie de alegria compartilhada, sinto feliz de ver que nem tudo mudou, apesar da distância das pessoas ainda pode haver sentimentos. Sorrio para a criança, e ela me abana com a mãozinha que agora estava na boca, meio babada. Pago meu café, enrolo o cachecol no pescoço e saio. Mas a voz do blues do café ainda soa na minha cabeça, balançando minha alma como se a ninasse, evocando memórias como se me colocasse num sonho.
chela
1Chorava para dentro, fendido,
Seu fervor evaporava as lágrimas
Das suas melancolias tão trágicas,
Do seu mundo tão sem insípido.
Vã, vil, vaga, velada e vasta,
Queria se despir dessa consciência;
Tão largo dorso pedindo ausência
Dessa ânsia deveras casta.
Corre, cai, chama e chora,
A vida lhe parecia um fado
Revisto, revivido, repensado,
Repetindo-lhe na dor sem hora.