Eu
(onomatopéia de cabeça batendo na parede)
1São pó de angústia essas lágrimas
Que me ardem e secam
Que me cegam e pecam
São pó de angústia, um infinito
De velas com os dedos apagadas
De possibilidades pelo tempo perdidas
Angústia em pó, e eu em prantos
De velhos vícios condenados
De amores vivos maculados
Sou cegueira angustiante
E a poeira penetra pelos poros
Sou pó, pedras e muros
passa.dulcíssima
2Tenho medo de não ter tempo de ter ver,
tu te afastaste, tornaste-te ausente,
assusta-me não vislumbrar o novamente
do meu ver teu ser em nosso ter.
São lances e relances, minguantes,
em um pensamento procariótico
que me invade, tão utópico,
querendo o antes, o antes, o antes…
Como nos abraçávamos no nada
e ficávamos suspensos numa satisfação;
sem senso de sentido a sensação
nos era, por si só, encantada.
poente
2Sou um sol-poente:
- Eu não sabia.
Quando deveria ser aurora,
Já era meio-dia.
Agora que é meio-dia,
Estou no ocaso
Escondendo minha luzida
Agonia de descaso.
Sou já poente, já sou ocaso,
O claro dá espaço ao escuro.
Canso desse jogo, e, juro,
É o último passo ao ocaso.
consterna
2Mal se acabaram e eu já sinto saudade
Das noites geladas de inverno,
Em que era eu ansiando pela solidão
E abrindo um livro de negrume vivo;
Mas ainda que a noite esquente,
Eu continuo com frio, dou frio, sou frio.
O inverno aqui dentro não cessa.
A dor de dentro aparece aí fora,
E eis um mundo que ela descobre,
E eis um mundo que eu abandono.
Fecho a alma como um corte cicatriza.
Fecho os olhos como ostra a guardar pérolas,
E as minhas são pó de angústia.
Pó de Angústia. Tomaram-na as maiúsculas.
Ai que não faço sentido.
E agora?
Mais fuga.
cosmos
0- Pára. Silêncio.
- Por quê?
- Escuta!
…
- O quê? Não ouço nada.
- Exato, não se ouve nada. Tá tudo tão quieto.
- Você quer dizer que…
- Exatamente.
- Não, ele não pode ter morrido.
- Olha, a água está parada, não há ondas, não há tempestade, só uma brisa irritantemente calma.
- Será que ele morreu?
…
- Quem é você?