Eu
solilóquio
1E a solidão é estar entre o homem e o sobre-homem
E é tentar viver sem olhar muito para o abismo
E se alguém pudesse encontrar seus pensamentos
Seria como se o mundo fosse retirado das suas costas, Atlas
A solidão é não compartilhar-se, não por inapetência, não por inabilidade
Não podemos fazê-lo, ninguém pode desvendar os véus da vida alheia
Ninguém pode encostar nas entranhas recônditas da alma que não é sua
E a solidão é não poder contar com a compreensão
Não há companhia, não há aliança, não há matrimônio
Há, pois, o escuro, o silêncio, o vento e a chuva
Também o raio que atravessa um temporal não tem companhia
E todos o vêem, todos o ouvem, mas ninguém o compreende
E o limite é descrever seu magnetismo e sua energia
Quem poderia, no entanto, descrever sua própria consciência em miúdos sem pecar em um só momento?
A solidão é sermos falhos, vazios, cegos
E em nós se esconde uma ânsia de final, pois não há maior pesar do que descobrir-se sozinho
Se eu falar das minhas razões, um não compreenderia
Se eu explicasse o fato, outro não entenderia
E se eu disser o que vejo à frente, ninguém mais ouvirá
Ninguém pode tocar e me contar que é quente ou frio, claro ou escuro, bom ou ruim
Ninguém pode fazer nada a respeito do que não é de si
E essa impossibilidade nos torna sozinhos, limitados pela comunicação
pobre Werther
0Essa semana li Os Sofrimentos do Jovem Werther, do Goethe, escritor alemão. O livro, escrito na forma de cartas que o próprio Werther redige na maior parte, deixando (um pouco) esse formato perto do final, quando mais detalhes acerca da psique do personagem são necessários, conta a história do nosso Jovem, um rapaz destoante dos costumes da época, da aristocracia, do hábito e das burocracias.
Werther estava em conflitos com a sociedade em que vivia, e resolve morar numa cidade longe de sua família e conhecidos para se dedicar à pintura, o que não acontece. O que, de fato, sucede-se é de o jovem se apaixonar por Carlota, uma bela rapariga que perdeu sua mãe há algum tempo e, desde então, tomara o papel de cuidar da casa e de seus irmãos para si. Claro que todo conteúdo sobre Carlota nos é fornecido pelo próprio Werther, que, (repito) apaixonado, não hesita em enaltecer a angelicalidade da moça.
Sabe-se desde o início que Carlota é noiva, e mais tarde o próprio Werther conhece o noivo, Alberto, por quem nutre uma amizade quase tão grande quanto a que tem para com Carlota, e mesmo amanda descomedidamente essa mulher, ele acompanha o casal em inúmeros passeios, conversas e refeições. Ah, pobre Werther, suportar tantas provações contra seu amor. Com o realismo, é óbvio que Carlota se casa com Alberto, e, aos poucos, Werther vai sendo afastado do casal, seu comportamento se torna mais arredio, tempestuoso.
Juntemos, agora, os fatos: longe da família, sem conseguir produzir o ofício ao qual deveria se dedicar, revoltado para com os prceitos sociais da época e, acima de tudo, seu amor rejeitado, de certa forma, por Carlota. O final é óbvio, e se pra você, meu não tão bom entendedor, isso não foi o suficiente, aconselho que leia o livro.
Tanto fogo e inconstância na alma de Werther podem ser, facilmente, trazidos por identificação a nós mesmos. O jovem vai se metendo cada vez mais por uma caminho negro e sem volta. Ouvi dizer, ou li, que o livro havia sido proibido por alguns anos quando foi editado, pois o fizeram bem, o leitor mais desavisado pode, facilmente, ser guiado como aqueles primeiros leitores dos finais do século XVIII, terminando como um peru.
Em minhas leituras tenho notado uma grande divisa no intimismo e profundidade psíquica e filosófica dos livros pré e pós Nietzsche. Explico: antes, tratava-se mais de paisagens, ambientes, cores e afins; depois, de pensamentos, causas, sensações, emoções, etc. Os Sofrimento do Jovem Werther, no entanto, fogem ao padrão do que li até hoje da época, e, por que não, até mesmo do próprio Goethe, pois, ainda que subjetivamente, traz uma enorme carga emocional.
Havia lido esse livro quando era adolescente, achei certo relê-lo, aproveitar melhor com o que conheço hoje, e jurei para mim nunca mais pensar em lê-lo outra vez. É perigoso. Portanto, meu caro leitor, sinceramente, se não se sente muito alegre, nem comece a leitura, não quero perder um dos poucos que me visitam.
agora ouve
4Senta-te e escuta
Escuta tudo que tenho pra te falar
Pois te amo dos pés aos cabelos
E em todas as dimensões do teu corpo
E em cada miudeza da tua alma
Pois de ti é meu mosaico mais lindo
Quando junto cada pedacinho e os transformo
É como se fizesse um sigilo para esconder de mim mesmo que é a ti que estou adorando
Senta, escuta, pois é de todo o todo teu que meu ser se enche e se lambuza
Não é por serem o tempo e o espaço mensuráveis que eu poderia fazer o mesmo com meu sentimento
Não quando é de ti que eu falo, não se pode medir ou pesar
Ai, que quando acordo e já penso em te ver é um sol
Se o dia, porém, passa-se sem que te veja, a noite me é morte
E só de cruzar meus olhos sobre ti já me vejo cheio
E ao conversar com aqueles que ouviram tuas palavras é como se eu fosse preenchido por uma luz, tal qual a lua me iluminando, mas eu querendo o sol
Senta-te e me escuta, apreende o que há dentro do incomensurável desejo
sem razão interferindo
1E dos teus olhos eu guardei o suficiente
Para perder o sono durante a noite
E desatentar na vigília durante o dia
Guardei-te em mim, e meu olhar agora vai ao nada
Mas meu pensamento se fixa em tua boca
E teima em não distrair, e insiste em não sair de ti
Daquela noite me sobrou sensações sem toques
E olhares sem um fim em si
E minha mão vazia guardando teu sabor
E eu, num lapso de sentidos, sou somente sentimento
Pura angústia, pois não os vejo em ti
E volto ao que me sobrou daquela noite
Olhos assim, dos quais eu não ousaria desviar os meus