Citações

Sartre – A Idade da Razão – Mathieu

3

“Esperara tanto tempo. Seus últimos anos tinham sido uma vigília. Esperara através de mil e uma preocupações cotidianas. Naturalmente, durante esse tempo andara atrás de mulheres, viajara e ganhara a vida. Mas através de tudo isso sua única preocupação fora manter-se disponível. Para uma ação. Um ato. Um ato livre e refletido que acarretaria o destino de sua vida e seria o início de uma nova existência. Nunca pudera amarrar-se definitivamente a um amor, a um prazer, nunca fora realmente infeliz; sempre lhe parecera estar alhures, ainda não nascido completamente. Esperava. E enquanto isso, devagar, sub-repticiamente, os anos tinham chegado, e o haviam envolvido.”

O âmago de Mathieu, personagem do livro, sendo exposto.

Interessante, não?

Milan Kundera e a existência

4

“Tenho sempre diante dos olhos Tereza sentada sobre um tronco, acariciando a cabeça Karenin, e pensando no desvio da humanidade. Ao mesmo tempo, surge para mim uma outra imagem: Nietzsche esta saindo de um hotel em Turim. Vê diante de si um cavalo, e um cocheiro espancando-o com um chicote. Nietzsche se aproxima do cavalo, abraça-lhe o pescoço, e sob o olhar do cocheiro, explode em soluços. Isso aconteceu em 1889, e Nietzsche já estava também distanciado dos homens. Em outras palavras: foi precisamente nesse momento que se declarou sua doença mental. Mas, para mim, e justamente isso que confere ao gesto seu sentido profundo. Nietzsche veio pedir ao cavalo perdão por Descartes. Sua loucura (portanto seu divorcio da humanidade) começa no instante em que chora sobre o cavalo. E este Nietzsche que amo, da mesma forma que amo Tereza, acariciando em seus joelhos a cabeça de um cachorro mortalmente doente. Vejo-os lado a lado: os dois se afastam do caminho no qual a humanidade, “senhora e proprietária da natureza”, prossegue sua marcha para a frente.”

A Insustentável Leveza do Ser

(Retirado do http://pt.wikiquote.org/wiki/Milan_Kundera )

Relembrando algumas coisas do Kundera, me deparei com esse trecho do livro A Insustentável Leveza do Ser. Li esse livro quando ainda fazia faculdade de Direito em Cruz Alta, provavelmente em 2005. Marcou-me muito o estilo de escrita, o conteúdo tão intimista e filosófico, foi o primeiro livro do Milan Kundera que li, e foi à partir desse que virei fã do autor e li tudo dele que caiu nas minhas mãos até agora.

O trecho está, obviamente, descontextualizado, contudo, o importante, no momento, é a idéia principal e inicial que ele me traz à mente, e uma conclusão quase lógica e escatológica (sim, isso mesmo).

O ser humano, essa enorme peste que habita o planetinha, transformou-se num parasita de primeira, e isso é irrefutável, só não enxerga quem tem demasiado orgulho de se sentir humano, quando, na verdade, poderíamos excluir o ‘humano’ e ficar apenas com o ‘ser’, um vivente pouco pensante.

Pois bem, mergulhado em diversas divagações, terminei por entender que, de fato, o que mais me encanta na humanidade é essa capacidade tão pouco explorada de cair na “loucura” e deixar que sensações, emoções e pensamentos tenham vazão, da forma que vierem à superfície, sem retaliações imediatas da mente, sem preconceitos.

Ao deixarmo-nos sentir e pensar o que se é levado a sentir e pensar no momento, sem se penitenciar por isso ou aquilo ser feio ou proibido, é que teremos a oportunidade única de observar quem somos, o que somos, como fomos nos construindo ano após ano e qual a idiossincrasia que vai nos por em contato com nossa própria cabecinha (não a de baixo).

Acontece que tudo é tão feio e digno de repressão hoje. Ao passar por um negro mal vestido na rua um não pensa nada, outro pensa em segurar bem sua carteira, outro ainda pensa em linchamento, mas quem está errado? Quem está certo? Cada um passou por experiências únicas e sabe (na verdade não sabe, mas seu inconsciente deve saber) porque, instintivamente, age de tal forma.

Como um thelemita, me obrigo, a contragosto, a citar uma frase do Líber AL vel Legis: “A palavra de pecado é restrição”. Cada um sabe o que carrega dentro de si, e só terá luz para analisar o que há em seu cérebro quando deixar que as coisas venham à superfície.

Nietzsche sentiu algo incrível e irrefreável na cena descrita no trecho acima, assim como a personagem Tereza com o cão Karenin. E é assim, no limite, quando somos jogados ao extremo do colapso e desestruturação, que temos a ferramenta necessária para jogar luz ao âmago e perceber o que há em nós de tão humano (ou louco, se preferir).

Particularmente, acho muito mais interessante aquela pessoa que percebe seus conflitos e os trata como parte de si e não do mundo, prefiro aquele que se olham sem medo àqueles que têm suas unhas cravadas no braço da poltrona com medo de sair de frente da televisão.

Augusto dos Anjos – Monólogo de uma Sombra

2

Não gosto e nem costumo postar textos que não sejam meus, mas esse é necessário. Minha vida na literatura é dividida em eras, e uma delas foi marcada pela presença constante da poesia desse poeta deslocado de sua geração.

O poema Monólogo de uma Sombra é, como quase todos poemas de Augusto, intenso, soturno, impressionante, denso, e uma série de adjetivos impotentes diante da força de sua poesia.

Diz-se que ele costumava construir suas poesias em voz alta, caminhando, declamando, e isso faz muito sentido, pois a sonoridade delas é sempre muito enérgica.

Monólogo de Uma Sombra

Sou uma Sombra! Venho de outras eras,
Do cosmopolitismo das moneras…
Pólipo de recônditas reentrâncias,
Larva de caos telúrico, procedo
Da escuridão do cósmico segredo,
Da substância de todas as substâncias!

A simbiose das coisas me equilibra.
Em minha ignota mônada, ampla, vibra
A alma dos movimentos rotatórios…
E é de mim que decorrem, simultâneas,
A sáude das forças subterrâneas
E a morbidez dos seres ilusórios!

Pairando acima dos mundanos tetos,
Não conheço o acidente da
Senectus
- Esta universitária sanguessuga
Que produz, sem dispêndio algum de vírus,
O amarelecimento do papirus
E a miséria anatômica da ruga!

Na existência social, possuo uma arma
- O metafisicismo de Abidarma -
E trago, sem bramánicas tesouras,
Como um dorso de azémola passiva,
A solidariedade subjetiva
De todas as espécies sofredoras.

Como um pouco de saliva quotidiana
Mostro meu nojo á Natureza Humana.
A podridão me serve de Evangelho…
Amo o esterco, os resíduos ruins dos quiosques
E o animal inferior que urra nos bosques
E com certeza meu irmão mais velho!

Tal qual quem para o próprio túmulo olha,
Amarguradamente se me antolha,
À luz do americano plenilúnio,
Na alma crepuscular de minha raça
Como urna vocação para a Desgraça
E um tropismo ancestral para o Infurtúnio.

Aí vem sujo, a coçar chagas plebéias,
Trazendo no deserto das idéias
O desespero endêmico do inferno,
Com a cara hirta, tatuada de fuligens
Esse mineiro doido das origens,
Que se chama o Filósofo Moderno!

Quis compreender, quebrando estéreis normas,
A vida fenomênica das Formas,
Que, iguais a fogos passageiros, luzem…
E apenas encontrou na idéia gasta,
O horror dessa mecânica nefasta,
A que todas as coisas se reduzem!

E hão de achá-lo, amanhã, bestas agrestes,
Sobre a esteira sarcófaga das pestes
A mostrar, já nos últimos momentos,
Como quem se submete a uma charqueada,
Ao clarão tropical da luz danada,
O espólio dos seus dedos peçonhentos.

Tal a finalidade dos estames!
Mas ele viverá, rotos os liames
Dessa estranguladora lei que aperta
Todos os agregados perecíveis,
Nas eterizações indefiníveis
Da energia intra-atômica liberta!

Será calor, causa ubíqua de gozo,
Raio X, magnetismo misterioso,
Quimiotaxia, ondulação aérea,
Fonte de repulsões e de prazeres,
Sonoridade potencial dos seres,
Estrangulada dentro da matéria!

E o que ele foi: clavículas, abdômen,
O coração, a boca, em síntese, o Homem,
- Engrenagem de vísceras vulgares -
Os dedos carregados de peçonha,
Tudo coube na lógica medonha
Dos apodrecimentos musculares!

A desarrumação dos intestinos
Assombra! Vede-a! Os vermes assassinos
Dentro daquela massa que o húmus come,
Numa glutoneria hedionda, brincam,
Como as cadelas que as dentuças trincam
No espasmo fisiológico da fome.

E unia trágica festa emocionante!
A bacteriologia inventariante
Toma conta do corpo que apodrece…
E até os membros da família engulham,
Vendo as larvas malignas que se embrulham
No cadáver malsão, fazendo um s.

E foi então para isto que esse doudo
Estragou o vibrátil plasma todo,
À guisa de um faquir, pelos cenóbios?!…
Num suicídio graduado, consumir-se,
E após tantas vigílias, reduzir-se
À herança miserável de micróbios!

Estoutro agora é o sátiro peralta
Que o sensualismo sodomista exalta,
Nutrindo sua infâmia a leite e a trigo…
Como que, em suas células vilíssimas,
Há estratificações requintadíssimas
De uma animalidade sem castigo.

Brancas bacantes bêbedas o beijam.
Suas artérias hírcicas latejam,
Sentindo o odor das carnações abstêmias,
E á noite, vai gozar, ébrio de vício,
No sombrio bazar do meretrício,
O cuspo afrodisíaco das fêmeas.

No horror de sua anômala nevrose,
Toda a sensualidade da simbiose,
Uivando, á noite, em lúbricos arroubos,
Como no babilônico sansara,
Lembra a fome incoercível que escancara
A mucosa carnívora dos lobos.

Sôfrego, o monstro as vítimas aguarda.
Negra paixão congênita, bastarda,
Do seu zooplasma ofídico resulta…
E explode, igual á luz que o ar acomete,
Com a veemência mavórtica do aríete
E os arremessos de uma catapulta.

Mas muitas vezes, quando a noite avança,
Hirto, observa através a tênue trança
Dos filamentos fluídicos de um halo
A destra descamada de um duende,
Que tateando nas tênebras, se estende
Dentro da noite má, para agarrá-lo!

Cresce-lhe a intracefálica tortura,
E de su’alma na cavema escura,
Fazendo ultra-epiléticos esforços,
Acorda, com os candieiros apagados,
Numa coreografia de danados,
A família alarmada dos remorsos.

É o despertar de um povo subterrâneo!
E a fauna cavernícola do crânio
- Macbetbs da patológica vigília,
Mostrando, em rembrandtescas telas várias,
As incestuosidades sangüinárias
Que ele tem praticado na família.

As alucinações tácteis pululam.
Sente que megatérios o estrangulam…
A asa negra das moscas o horroriza;
E autopsiando a amaríssima existência
Encontra um cancro assíduo na consciência
E três manchas de sangue na camisa!

Míngua-se o combustível da lanterna
E a consciência do sátiro se inferna,
Reconhecendo, bêbedo de sono,
Na própria ânsia dionísica do gozo,
Essa necessidade de
horroroso,
Que é talvez propriedade do carbono!

Ah! Dentro de toda a alma existe a prova
De que a dor como um dartro se renova,
Quando o prazer barbaramente a ataca…
Assim também, observa a ciência crua,
Dentro da elipse ignívoma da lua
A realidade de urna esfera opaca.

Somente a Arte, esculpindo a humana mágoa,
Abranda as rochas rígidas, torna água
Todo o fogo telúrico profundo
E reduz, sem que, entanto, a desintegre,
À condição de uma planície alegre,
A aspereza orográfica do mundo!

Provo desta maneira ao mundo odiento
Pelas grandes razões do sentimento,
Sem os métodos da abstrusa ciência fria
E os trovões gritadores da dialética,
Que a mais alta expressão da dor estética
Consiste essencialmente na alegria.

Continua o martírio das criaturas:
- O homicídio nas vielas mais escuras,
- O ferido que a hostil gleba atra escarva,
- O último solilóquio dos suicidas -
E eu sinto a dor de todas essas vidas
Em minha vida anônima de larva!”

Disse isto a Sombra. E, ouvindo estes vocábulos,
Da luz da lua aos pálidos venábulos,
Na ânsia de um nervosíssimo entusiasmo,
Julgava ouvir monótonas corujas,
Executando, entre caveiras sujas,
A orquestra arrepiadora do sarcasmo!

Era a elegia panteísta do Universo,
Na podridão do sangue humano imerso,
Prostituído talvez, em suas bases…
Era a canção da Natureza exausta,
Chorando e rindo na ironia infausta
Da incoerência infernal daquelas frases.

E o turbilhão de tais fonemas acres
Trovejando grandiloquos massacres,
Há-de ferir-me as auditivas portas,
Até que minha efêmera cabeça
Reverta á quietação da treva espessa
E à palidez das fotosferas mortas!

Extinção, de Thomas Bernhard – Da fotografia

3

Solilóquio do personagem principal do livro sobre sua opinião acerca da fotografia.

“No fundo eu odeio fotografias e a mim mesmo nunca passou pela cabeça tirar fotografias, com exceção dessas de Londres, de Sankt Wolfgang, de Cannes, minha vida inteira não possuí máquina fotográfica. Desprezo as pessoas que fotografam constantemente e que andam o tempo todo com sua máquina fotográfica pendurada ao pescoço. Constantemente elas estão em busca de um tema e fotografam absolutamente tudo, até as coisas mais absurdas. Constantemente elas não têm nada na cabeça a não ser retratar a si mesmas, e sempre de maneira mais repulsiva, coisa de que no entanto elas próprias não têm consciência. Em suas fotos elas captam um mundo perversamente deformado, que não tem nada em comum com o mundo real senão a perversa deformação de que elas são responsáveis. O fotografar é uma mania sórdida que pouco a pouco se apodera de toda a humanidade, porque ela não está somente apaixonada pela deformação e pela perversidade, mas louca por elas, e com o tempo, de tanto fotografar, ela toma efetivamente o mundo deformado e perverso como o único verdadeiro. Aqueles que fotografam cometem um dos crimes mais sórdidos que podem ser cometidos ao transformar a natureza, em suas fotografias, num grotesco perverso. Em suas fotografias, as pessoas são marionetes ridículas, irreconhecíveis de tão distorcidas, mutiladas mesmo, que com ar obtuso, repulsivo, fitam assustadas suas lentes sórdidas. O fotografar é uma paixão abjeta que se apoderou de todos os continentes e todas as camadas sociais, uma doenã de que foi acometida toda a humanidade e da qual não pode mais ser curada. O inventor da arte fotográfica é o inventor da mais desumana de todas as artes. A ele devemos a definitiva deformação da natureza e do ser humano que nela vive, reduzidos à careta perversa de um e de outro. Ainda não vi em nenhuma fotografia uma pessoa natural, quer dizer, verdadeira e real, como ainda não vi em nenhuma fotografia uma natureza verdadeira e real. A fotografia é a maior desgraça do século XX.” Extinção, de Thomas Bernhard.

Partículas Elementares – Michel Houellebecq

2

 

                  Aqui vai pequenos trechos do final do livro Partículas Elementares, de Michel Houellebecq, o qual acabei de ler há pouco. Farei (ou não) uma resenha mais tarde, porém, desde já indico o livro.                 

               “Pode-se encarar as coisas da vida com humor durante anos, por vezes durante muitos anos; em alguns casos, praticamente até o fim; mas, definitivamente, a vida parte o coração. Apesar da coragem, do sangue-frio e do humor, sempre se acaba com o coração partido. Então, termina o riso. Ao final das contas, só há a solidão, o frio e o silêncio. Nada além da morte.” (Walcott)

                “ ‘Ele tinha algo de terrivelmente triste’, declararia Walcott. ‘Acho que foi o ser mais triste que encontrei na vida e, ainda assim, a palavra tristeza parece-me fraca; decia dizer que existia nele algo destruído, inteiramente devastado. Sempre tive a impressão de que a vida para ele era um fardo, que não tinha mais nenhuma relação com a vida. Creio que suportou exatamente o necessário para terminar as suas investigações; ninguém de nós pode imaginar o esforço que realizou para isso.’ “

Page 1 of 212
Go to Top


Faça parte da nossa comunidade no Facebook
basta clicar em "Curtir".